Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010


Essa época do ano é estranha para mim. Não gosto de calor, não sei agir com calor, fico irritado de graça. É o verão mais quente em anos...
Minha marcação de férias é feita pelos equinócios, não pelos solstícios. E sou do time dos sem filhos, o que me exclui da escala de férias escolares. Portanto, janeiro e fevereiro são meses de poucos colegas para os mesmos problemas. Sem falar que a gente tem para sempre aquela nostalgia infantil de achar que não se pode ter compromissos entre dezembro e março.
Tudo estava vindo numa crescente que começou com a temporada européia e culminou com o melhor reveillon em anos numa pequena praia com um outro casal e uma inocência adulta que me é tantas vezes necessária.
Dizem os franceses que as pessoas felizes não têm história. Les gens heureux n’ont pas d’histoire...
Reencontrei a frase lendo a coluna de ano-novo da Danusa Leão na Vogue.
Talvez essa seja a melhor explicação para a demora do ano começar aqui no blog. E talvez seja a exata explicação de estar escrevendo hoje...
Recomeça o ano, recomeçam as rotinas inevitáveis. Só que algo em mim não quer recomeçar, não no mesmo ponto. Algo em mim pede mudanças vezes sutis, vezes drásticas, mas sempre definitivas. E vai ver alguns resgates se exijam.
Conflitos que sempre estão presentes em mim e que nem por isso me fazem ser contraditório - sabemos que me prefiro como paradoxal – mas que me cobram um tempo que eu não ando disposto a dar.
Sou fiel a minha filosofia de deitar a cada dia pronto para não ter o seguinte. Sigo sempre quitado com minhas escolhas. Mas isso não significa que eu vença minhas latências. E se eu não morro de desejo, isso não significa que eu não padeça de dúvida.
Não me nego aquilo que eu quero, mesmo sabendo qual será o preço. Por isso mesmo sou muito cuidadoso com a triagem dos meus desejos.
Ainda não há razão para alardes. Não há nada formulado. São flashes, uns fragmentos de sonhos e uma sensação quase boa, que eu costumava saber no que ia dar. E o esboço daquele cansaço que tentou acabar comigo ano passado.
Mas não dá para pensar nisso a 37ºC.
Claro, há sempre algumas leituras. E às vezes um filme.
Leituras erradas. Erradas para o clima. Ainda estou empurrando o Gilberto Freire e Onfray. Definitivamente, leituras para o frio. Leituras que precisam ser feitas com ritmo, entre goles de chá e com o corpo distraído no sofá. Não funcionam nesse calor inquietante. São autores com linguagem e metalinguagem próprias, é preciso algumas páginas para encontrar a sintonia com o texto.
Sem falar que ler Modos de Homens & Modas de Mulheres em épocas de semanas de moda nativas é piada pronta. E sem graça.
E Up in the air, ou na equivocada versão Amor sem escalas... Um filme que, vejam só, fala de escolhas e conseqüências e de como é possível – e tantas vezes necessário – viver com elas. Ou simplesmente mais sobre somos quem somos. E aquele blábláblá da mochila, mas que me pegou num momento apropriado.

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Segunda-feira, Janeiro 11, 2010

2010


Não se trata de uma lista de resoluções do ano novo. Até porque essa coisa de resoluções fica com cara de compromisso e eu não sei brincar com essas coisas com potencial de culpa e cobrança. Então, eu apenas lanço ao vento algumas possibilidades para o novo ano.
Em 2010 quero muito cogitar algumas mudanças de atitude que se ensaiaram ano passado, mas que não conseguiram se impor. Especialmente no capítulo trabalho/colegas me seria muito útil manter certo isolamento das coisas em seus devidos lugares. Eu sei onde trabalho e com quem trabalho e isso já deveria ser suficiente para que eu saiba como as coisas funcionam (ou não funcionam). De forma bem objetiva, tenho duas opções: brigar, brigar e então aceitar ou pular a parte da briga. O ponto é que a gente não escolhe o que a gente é, mas pode escolher o que fazer com isso.
E ainda que eu prefira a vida sem limões, se há uma coisa que eu sei fazer é limonada...
Para, para que começar o ano falando em trabalho não dá!
Das atitudes de 2009 que pretendo levar adiante estão a vida mais ecologicamente sustentável, a alimentação fartamente orgânica e o peso (inclusive da consciência) controlado. E muita força no projeto xô culpa.
Uma das coisas que quero muito fazer em 2010 é voltar a estudar arte. Sim, sim, a pilha de livros ganhará reforços de vários exemplares – já encomendados – de livros de arte.
Mais que isso, o que eu queria mesmo era voltar a desenhar, mais ainda queria voltar a pintar. Na verdade até comprei algum material na última viagem, mas nem me lembro onde guardei. De qualquer modo, a idéia está lançada e vai que numa hora dessas ela se encaixe no meu dia?
Aproveito para deixar lançadas também vibrações de voltar à Madri, e conhecer barcelona, além de sempre mais uma vez Londres e Paris. Incluo nas possibilidades para 2010 Praga e uma remota vibração de Berlim e Roma. E umas vibrações muito fortes para Buenos Aires, caso sobre um feriado.
Outra sensação que está cotada para ser priorizada em 2010 é o prazer de receber em casa. Ainda que recebamos com certa frequênica, quero ainda mais. Grupos de pessoas queridas e divertidas em torno de uma mesa cheia de carinho são indispensáveis ao fluxo de energia doméstico. E ainda me dão o pretexto para testar uma receita nova, encher a casa de flores e fazer uma seleção musical.
Ta, só que eu também quero costurar, fazer bolos artísticos, restaurar móveis, ver meus DVDs...E, de novo e sempre, quero ler muito.
Por falar em livros, ainda em clima de férias, acabei o volume de Tolouse-Lautrec da Galeria de Pintores da Editora Monsa. E já comecei Teoria da Viagem – Poética da Geografia, do Michel Onfray (L&PM, 2009) e Modos de Homens & Modas de Mulheres, do Gilberto Freire - edição revista (Global, 2009).
E enquanto escrevia, fui mimado com Minha Vida na França, de Julia Child com Alex Prud’homme (Seoman, 2009) que inspirou o filme que perdi por estar viajando, mas que acho que vai acabar inspirando muitas outras coisas por aqui.
Aliás, taí um bom resumo para 2010: que seja um ano inspirador. Na virada, pedi que 2010 me trouxesse uma tranqüilidade contemplativa que faz tempo eu não sinto, e agora me dou conta o que justamente quero com essa paz: inspiração.

Quinta-feira, Dezembro 31, 2009

Então o ano está realmente acabando.
Eu deveria estar escrevendo um lindo texto sobre as tantas coisas que aconteceram esse ano. Coisas boas, coisas ruins. Algumas ótimas, outras terríveis.
Deveria também estar pedindo – como todos os anos – que todo mundo acredite que o ano que vem será ainda melhor e que se uma naquela corrente de bons pensamentos amanhã, porque tanta gente pensando coisa boa só pode fazer o mundo melhor.
Mas a verdade é que estou excepcionalmente mal humorado para a época. Uma coisinha de nada que aconteceu (o portão da garage arranhou o teto do meu carro) me deixou exageradamente triste. Ou isso foi só o elemento para a catarse de uma exaustão absoluta.
Estou exausto.
2009 foi um ano feliz ao seu modo.
Foi um ano de reconhecimento no trabalho, de propostas indecentes e de um tédio existencial. De brinde viagens chatas - mas a chance de conhecer BH. Os colegas de sempre, com as picuinhas de sempre. Como quase sempre, aliás. E ainda muito barulho sobre – como sempre – quase nada.
Teve os melhores amigos do mundo. E umas coisas que eu não entendi, mas que doeram.
Teve a família que aos trancos e barrancos se recuperou da última crise interna. E só por isso conseguiu passar bem pelas perdas que pontuaram 2009.
Em casa, teve a novela da cama nova, teve a saga do levain, teve a descoberta dos muffins e dos cookies e dos cupcakes. Teve pavlova e o exclusivíssimo fofolixous. E teve goteira, cano furado, cupim, parque solto.
Foi o quarto ano de casamento. Foi o ano de usar aliança. Foi ano de questionar seriamente para onde estávamos indo. E foi ano de se redescobrir apaixonado.
Só que 2009 foi um ano que não passou sozinho, precisou ser empurrado a cada dia. Um ano que não trouxe nenhuma mudança, mas que nos manteve em permanente ameaça. Passamos 2009 com medo. Medo da crise econômica, medo da gripe suína, medo do aquecimento global.
E viver com medo é, sim, viver pela metade. Ou viver em dobro num único e mesmo tempo. Por medo, vivemos a vida que podemos viver e aquela que viveríamos se tudo estivesse “normal”.
E mesmo com medo – de ficar sem dinheiro, sem saúde, sem futuro – a gente tentou fazer tudo que queria, mas isso exigiu um imenso esforço. Pois é colega, manter um sorriso, às vezes, é um trabalho muscular.
Assim, chego ao final de 2009 exausto. E ainda que tenha a sensação de que fiz o melhor que pude, sei que poderia ter feito maneira mais leve, mais convicta, mais honesta. E definitivamente não precisava ter perdido tanto tempo...
2009 fica como o ano de idas e vindas de mim mesmo. Um ano em que tive reações típicas, mas nem por isso justificáveis e em que tomei decisões certas, mas que me custaram mais preocupações do que o necessário.
Não à toa chego ao final do ano exaurido.
Mas, ainda que no último dia do ano, enfim compreendo a lição que 2009: o eu que construí para mim mesmo não é o eu com medo.

Que venha 2010, para que eu possa vivê-lo da única maneiro que sei viver: desesperadamente. Que venha 2010, para que eu o viva como se fosse o último ano de minha vida, ou no mínimo o melhor.
Que 2010 venha sem medo de mim, porque eu não tenho medo dele.
Eu tenho é pressa.
É urgência.
Urgência de ser eu mesmo.
Porque, em 2010, sabemos, eu vou fazer por merecer e não hei de me negar.

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Quarta-feira, Dezembro 23, 2009


É um fim de ano atípico, ainda que tudo o que tradicionalmente acontece nessa época esteja acontecendo.
Tem esse calor excessivo que me faz mal ao corpo e a alma e que me deixa com um humor estranho. Tenho preguiça de tudo durante o dia e uma disposição de férias durante a noite.
Preparativos para o Natal sob controle. Não tenho que comprar mais nada! Todos os presentes já estão embaixo da árvore. Para os que viajarão, os presentes já foram inclusive entregues. Igualmente já foram distribuídos cupcakes de quatro sabores e mini panetones feitos com exclusivamente com levain (que sim, sobreviveu às férias na geladeira).
O peru já descansa em seu tempero. Costeletas de porco serão assadas com geléia de abacaxi até ficarem caramelizadas.
Os trabalhos terão início com coquetéis frescos com espumante e abacaxi, espetinhos de pepino com salmão e gengibre, folhados de parmesão, pão sueco com queijo de cabra e, para completar a variedade, nachos com guacamole e roquefort.
As sobremesas serão feitas amanhã. Pavlova, com morangos, mirtilo e framboesas e minibolos com sorvete de nozes e chocolate branco.
E ainda vai dar tempo para mais uma comemoração com os amigos.
Festas de final de ano têm esse ritmo meio frenético, e de certa forma meio ansioso, quase compulsivo. Vai ver é por isso que tanta gente não gosta delas... e talvez seja por isso que eu goste tanto...
Ou vai ver a grande questão do fim de ano seja a questão de todos os finais: o tal balanço. Será disso que temos medo? É que tem sempre a vida sempre acontecendo e nos mandando recados sobre o quão rápido ela pode acontecer.
Pois é, faz tempo que eu não falo dos tais sinais. E os sinais mais uma vez me lembram que a gente precisa mesmo é viver.
Se alguma mensagem de Natal cabe aqui seria essa. Viver. Viver o ano inteiro, viver o final de ano, viver o que - e quem - nos for dado viver. E viver sempre a sua própria verdade. Viver com orgulho.
No inevitável balanço que esse fim de ano traz eu tenho só o que comemorar.
Sim, sim, sou eu mais um ano cheio de orgulho. Orgulho de mim mesmo, da minha vida, das minhas escolhas. Orgulho da família que me foi dada e da que me foi dado escolher. Orgulho das pessoas que eu tenho e das que me tem. Orgulho de estar vivo e de fazer o melhor que posso da minha vida.
Orgulho de merecer e de não me negar.

Quarta-feira, Dezembro 16, 2009


Então, eu estava de férias.
Merecidas e aguardadas férias. As primeiras em um ano, o que para mim (que poderia parar a cada três meses) foi exercício cruel de superação.
Então, férias. Londres e Paris.
Sim, sim, de novo. Mais uma vez. Definitivamente não a última.
E ainda que não me pareça necessário explicar aos raros leitores as razões de minhas escolhas, faço-o mesmo assim, afinal essa explicação é dada tantas vezes, que me parece prático reduzi-la a termo.
Daí que mesmo havendo um mundo inteiro a conhecer, eu fico voltando sempre para as mesmas cidades.
Mas fazer o que se é lá que eu sou mais feliz?
Londres faz meu coração bater permanentemente acelerado. São dias de pura e permanente excitação. Fico acelerado, empolgado, criativo, consumista. Tenho vontade de beber, de dançar, de ser feliz de um jeito infantil. Londres me faz rir. Ando rindo pelas ruas comerciais lotadas durante o dia e quase desertas durante a noite. E amo os londrinos e seu papo fácil. Acho-os lindos em suas roupinhas modernas. As londrinas são as mulheres mais interessantes do mundo. Mais do que realmente bonitas e rigorosamente produzidas, são simpáticas, divertidas e tem o sotaque mais gostoso que eu conheço.
E é em Londres que compro roupa e sapato. É tudo perfeito. E o melhor, veste como uma luva. As calças não precisam nem de bainha! Lá o fast-fashion ganha sentido. E pelo preço certo.
Em Paris a vibe é bem diferente. Não falo de melhor ou pior, falo absolutamente de diferente. Paris me acalma de um jeito transcendental. Muitas vezes me vejo chorando de felicidade pelas ruas iluminadas de Paris. Sou demasiado sensível ao belo. E Paris é sublime.
Lá eu consigo andar devagar, ver a mesma vitrine várias vezes, comer a qualquer hora do dia, entrando em cada padaria que tenha fila.
Em Paris, eu vou à Igreja e rezo.
E faço feira, compro queijo, cheiro frutas. Reabasteço a casa de temperos, essências, utensílios. Na verdade, eu me reabasteço. Reabasteço de beleza, de ordem, de civilidade, de bom gosto, de mim mesmo.
E o mais importante: eram férias. Precisávamos descansar, nos desligar completamente da rotina. Não queríamos o compromisso de ter que conhecer um lugar novo, queríamos o aconchego que só os lugares conhecidos trazem.
Sem falar que cidades como Londres e Paris são inesgotáveis. Refizemos nossos roteiros tradicionais, repetimos nossos sabores habituais, mas também descobrimos coisas novas e já temos listas de coisas para fazer na próxima estada.
Que há de ser em breve...

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Quarta-feira, Novembro 11, 2009


Aos persistentes leitores esclareço que fui logo ali fazer aniversário, e então minha mãe fez aniversário e daí que tivemos uma manutenção doméstica e por fim – ufa – a viagem se aproxima e várias providências pedem atendimento.
Essas ocasiões festivas acabam sempre me devolvendo às pessoas que amo, ou àquelas que teoricamente devo amar. Gosto muito da tese de laços indissolúveis, só não me agrada a necessidade de forçar a prática no âmbito familiar. A verdade é que eu não sou bom de laço. Ou sou bom em pequenas doses. Mas o fato é que não consigo manter muita gente por muito tempo. Só posso manter poucas pessoas, poucas mesmo, por anos.
No mais as pessoas passam. Perdem seu lugar em minhas urgências. Ou talvez – se não mais provavelmente - percam o interesse em mim.
Tantas vezes já passei por isso que cuido de me precaver da única forma que se revelou eficaz: aproveito a máximo o tempo que me é dado.
Então, nessas festas de família, vivo o tempo que me é dado com as nossas ainda crianças. Não exatamente que eu goste de crianças, ou de qualquer criança, pelo menos. Em geral acho-as cansativas e cínicas. Odeio criança que sabe que é criança e sabe como tirar proveito disso.
Mas me comovem certos aspectos do mundo infantil. Comovem-me, a qualquer tempo, as descobertas. Laís que gira freneticamente fazendo inflar a saia do vestido. Ao ser perguntada se usa sempre vestidos, responde do alto de seus três anos: só quando tem festa. Ou a Júlia ao provar um morango da pavlova com algo que ela nem sabe que é chantily, fecha os olhos e diz: como fica bom morango com esse creme! E nesse momento, Carême bate palminhas no céu dos chefes.
É bonitinho. Julia é uma criança, ela ainda não tem o conceito cultural sobre morangos e chantily. Ela só achou gostoso. Não achou clássico, não achou chique, não achou divino, achou gostoso, e o que mais os morangos precisam ser?
Sim, sim, ela também ficou fascinada com idéia de que a nata ficou fofa e doce. “Parece merengue!!!!”. E sim, ela achou a pavlova bonita, mesmo tendo ficado preocupadíssima com as rachaduras no suspiro.
Laís também fez uma descoberta: as cerejas. Elogiei as bolinhas vermelhas da sua sandália e fui prontamente corrigido: “são cerejinhas!”. Minha irmã pergunta se ela sabe o que são cerejas, ao que ela responde que sabe e que já comeu. Julia corrige, esclarecendo que aquilo eram pitangas. Levamos Laís para cozinha para que ela prove, então, uma cereja. Ela não hesita e coloca um pedaço na boca, mastiga, engole e conclui que não gostou. Descobriu e não gostou. Mas não deixou de provar!
Não que eu ache que devemos provar de tudo... acredito que podemos ser mais inteligentes que isso...ou simplesmente instintivos. E isso eu admiro em crianças, esse instinto puro e eficiente que nossas avós chamam de anjo da guarda.
E isso a gente reaprende vendo as crianças. A gente reaprende a testar o chão com a pontinha do pé antes de sair correndo. A gente reaprende a rodopiar porque é festa. A gente reaprende a provar antes de dizer gostei. E principalmente a gente reaprende o prazer de simplesmente dizer não, não gostei.
Pena que esses momentos são poucos, já que definitivamente não se fazem mais crianças como as de antigamente...

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Sexta-feira, Outubro 23, 2009


Minha semana é um esforço direcionado à sexta-feira. Sempre adorei as sextas-feiras. Muitas vezes me vejo eufórico já na quinta.
No trabalho, tento – às vezes em vão - não deixar nada importante para a sexta.
Em casa é o contrário. É dia de preparar o final de semana. Fazer pão, bolo, sobremesa, jantinha especial, fazer a programação.
E nessa programação, tenho que incluir a peregrinação das mães. Apesar de toda negociação, não conseguimos escapar, no mínimo, da visita semanal. Domingo, chova ou faça sol, almoçamos na sogra. Minha mãe fica com a janta de sexta ou de sábado.
Daí que lendo o texto anterior me dou conta de que algo aconteceu. Ou melhor, não aconteceu. Pela primeira vez, não estou apaixonado por meus pais. Não me reapaixono por eles há algum tempo. De certa forma, nossas vidas estão tão calmamente parecidas que nos vemos sem assunto. Os relatórios do que fizemos na semana se esgotam logo. Depois, não somos o tipo de família que se alimenta de tragédias, doenças ou de passado. Tão pouco nos distraímos por muito tempo falando da vida alheia. E – felizmente – não consumimos nosso tempo juntos em brigas.
Então, às vezes tenho um quê de tédio. Sei lá, não exatamente triste. Estranho.
Mais estranho é sentir que há nisso alguma reciprocidade.
Coisas de adulto, vai saber?


Bom, hoje jantaremos com meus pais.
Farei a janta inclusive. Comida ainda é uma linguagem que qualquer família entende. A minha entende muito bem.
Como já está virando um costume por aqui, me lembro de um livrinho muito bom que li semana passada: O Último Chef Chinês, de Nicole Mones, com tradução de Ana Ban (Objetiva, 2008).
Trata-se de uma estória bem equilibrada para amantes da leitura e amantes da cozinha, onde uma coisa prescinde a outra.
Em mim o livro desencadeou uma reflexão sobre receitas de família. Curiosamente, ainda que eu venha de uma linhagem que alimenta a quem ama, não temos receitas de família. Não dessas que passam de geração para geração. Temos, sim, pratos que são associados a uma pessoa. E que morrem com ela. Não nos atrevemos a tentar perpetuar um sabor que jamais será igualado. Direitos autorais póstumos, ou uma reserva de sentimentos com os quais preferimos não mexer.
E entre nós, amor com amor se paga. Ou pão/pão, queijo/queijo. Eu sei qual prato do meu repertório cada um gosta, e sempre o faço para as ocasiões especiais. Da mesma forma, minha mãe, e igualmente meu pai, não seriam capazes de me privar dos exatos pratos que eu adoro.



Essa coisa de tradições me diverte. Afinal o que define uma tradição? Quantas vezes algo precisa acontecer para ficar “tradicional”?
A tevê a cabo começou a passar Mamma Mia. A gente assiste toda vez que passa. Já tínhamos visto no cinema. Já assistimos duas vezes no West London. E resolvemos que será inevitável assistir uma terceira. Será essa uma nova tradição???


Mother says I was
A dancer before I could walk
She says I began
To sing long before I could talk
And I've often wondered
How did it all start?
Who found out that nothing
Could capture a heart
Like a melody can?
Well whoever it was, I'm a fan


So I say
Thank you for the music
The songs I'm singing
Thanks for all the joy
They're bringing
Who can live without it
I ask in all honesty
What would life be
Without a song or a dance what are we?
So I say thank you for the music
For giving it to me

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