
Essas ocasiões festivas acabam sempre me devolvendo às pessoas que amo, ou àquelas que teoricamente devo amar. Gosto muito da tese de laços indissolúveis, só não me agrada a necessidade de forçar a prática no âmbito familiar. A verdade é que eu não sou bom de laço. Ou sou bom em pequenas doses. Mas o fato é que não consigo manter muita gente por muito tempo. Só posso manter poucas pessoas, poucas mesmo, por anos.
No mais as pessoas passam. Perdem seu lugar em minhas urgências. Ou talvez – se não mais provavelmente - percam o interesse em mim.
Tantas vezes já passei por isso que cuido de me precaver da única forma que se revelou eficaz: aproveito a máximo o tempo que me é dado.
Então, nessas festas de família, vivo o tempo que me é dado com as nossas ainda crianças. Não exatamente que eu goste de crianças, ou de qualquer criança, pelo menos. Em geral acho-as cansativas e cínicas. Odeio criança que sabe que é criança e sabe como tirar proveito disso.
Mas me comovem certos aspectos do mundo infantil. Comovem-me, a qualquer tempo, as descobertas. Laís que gira freneticamente fazendo inflar a saia do vestido. Ao ser perguntada se usa sempre vestidos, responde do alto de seus três anos: só quando tem festa. Ou a Júlia ao provar um morango da pavlova com algo que ela nem sabe que é chantily, fecha os olhos e diz: como fica bom morango com esse creme! E nesse momento, Carême bate palminhas no céu dos chefes.
É bonitinho. Julia é uma criança, ela ainda não tem o conceito cultural sobre morangos e chantily. Ela só achou gostoso. Não achou clássico, não achou chique, não achou divino, achou gostoso, e o que mais os morangos precisam ser?
Sim, sim, ela também ficou fascinada com idéia de que a nata ficou fofa e doce. “Parece merengue!!!!”. E sim, ela achou a pavlova bonita, mesmo tendo ficado preocupadíssima com as rachaduras no suspiro.
Laís também fez uma descoberta: as cerejas. Elogiei as bolinhas vermelhas da sua sandália e fui prontamente corrigido: “são cerejinhas!”. Minha irmã pergunta se ela sabe o que são cerejas, ao que ela responde que sabe e que já comeu. Julia corrige, esclarecendo que aquilo eram pitangas. Levamos Laís para cozinha para que ela prove, então, uma cereja. Ela não hesita e coloca um pedaço na boca, mastiga, engole e conclui que não gostou. Descobriu e não gostou. Mas não deixou de provar!
E isso a gente reaprende vendo as crianças. A gente reaprende a testar o chão com a pontinha do pé antes de sair correndo. A gente reaprende a rodopiar porque é festa. A gente reaprende a provar antes de dizer gostei. E principalmente a gente reaprende o prazer de simplesmente dizer não, não gostei.
Pena que esses momentos são poucos, já que definitivamente não se fazem mais crianças como as de antigamente...





