Quarta-feira, Novembro 11, 2009


Aos persistentes leitores esclareço que fui logo ali fazer aniversário, e então minha mãe fez aniversário e daí que tivemos uma manutenção doméstica e por fim – ufa – a viagem se aproxima e várias providências pedem atendimento.
Essas ocasiões festivas acabam sempre me devolvendo às pessoas que amo, ou àquelas que teoricamente devo amar. Gosto muito da tese de laços indissolúveis, só não me agrada a necessidade de forçar a prática no âmbito familiar. A verdade é que eu não sou bom de laço. Ou sou bom em pequenas doses. Mas o fato é que não consigo manter muita gente por muito tempo. Só posso manter poucas pessoas, poucas mesmo, por anos.
No mais as pessoas passam. Perdem seu lugar em minhas urgências. Ou talvez – se não mais provavelmente - percam o interesse em mim.
Tantas vezes já passei por isso que cuido de me precaver da única forma que se revelou eficaz: aproveito a máximo o tempo que me é dado.
Então, nessas festas de família, vivo o tempo que me é dado com as nossas ainda crianças. Não exatamente que eu goste de crianças, ou de qualquer criança, pelo menos. Em geral acho-as cansativas e cínicas. Odeio criança que sabe que é criança e sabe como tirar proveito disso.
Mas me comovem certos aspectos do mundo infantil. Comovem-me, a qualquer tempo, as descobertas. Laís que gira freneticamente fazendo inflar a saia do vestido. Ao ser perguntada se usa sempre vestidos, responde do alto de seus três anos: só quando tem festa. Ou a Júlia ao provar um morango da pavlova com algo que ela nem sabe que é chantily, fecha os olhos e diz: como fica bom morango com esse creme! E nesse momento, Carême bate palminhas no céu dos chefes.
É bonitinho. Julia é uma criança, ela ainda não tem o conceito cultural sobre morangos e chantily. Ela só achou gostoso. Não achou clássico, não achou chique, não achou divino, achou gostoso, e o que mais os morangos precisam ser?
Sim, sim, ela também ficou fascinada com idéia de que a nata ficou fofa e doce. “Parece merengue!!!!”. E sim, ela achou a pavlova bonita, mesmo tendo ficado preocupadíssima com as rachaduras no suspiro.
Laís também fez uma descoberta: as cerejas. Elogiei as bolinhas vermelhas da sua sandália e fui prontamente corrigido: “são cerejinhas!”. Minha irmã pergunta se ela sabe o que são cerejas, ao que ela responde que sabe e que já comeu. Julia corrige, esclarecendo que aquilo eram pitangas. Levamos Laís para cozinha para que ela prove, então, uma cereja. Ela não hesita e coloca um pedaço na boca, mastiga, engole e conclui que não gostou. Descobriu e não gostou. Mas não deixou de provar!
Não que eu ache que devemos provar de tudo... acredito que podemos ser mais inteligentes que isso...ou simplesmente instintivos. E isso eu admiro em crianças, esse instinto puro e eficiente que nossas avós chamam de anjo da guarda.
E isso a gente reaprende vendo as crianças. A gente reaprende a testar o chão com a pontinha do pé antes de sair correndo. A gente reaprende a rodopiar porque é festa. A gente reaprende a provar antes de dizer gostei. E principalmente a gente reaprende o prazer de simplesmente dizer não, não gostei.
Pena que esses momentos são poucos, já que definitivamente não se fazem mais crianças como as de antigamente...

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Sexta-feira, Outubro 23, 2009


Minha semana é um esforço direcionado à sexta-feira. Sempre adorei as sextas-feiras. Muitas vezes me vejo eufórico já na quinta.
No trabalho, tento – às vezes em vão - não deixar nada importante para a sexta.
Em casa é o contrário. É dia de preparar o final de semana. Fazer pão, bolo, sobremesa, jantinha especial, fazer a programação.
E nessa programação, tenho que incluir a peregrinação das mães. Apesar de toda negociação, não conseguimos escapar, no mínimo, da visita semanal. Domingo, chova ou faça sol, almoçamos na sogra. Minha mãe fica com a janta de sexta ou de sábado.
Daí que lendo o texto anterior me dou conta de que algo aconteceu. Ou melhor, não aconteceu. Pela primeira vez, não estou apaixonado por meus pais. Não me reapaixono por eles há algum tempo. De certa forma, nossas vidas estão tão calmamente parecidas que nos vemos sem assunto. Os relatórios do que fizemos na semana se esgotam logo. Depois, não somos o tipo de família que se alimenta de tragédias, doenças ou de passado. Tão pouco nos distraímos por muito tempo falando da vida alheia. E – felizmente – não consumimos nosso tempo juntos em brigas.
Então, às vezes tenho um quê de tédio. Sei lá, não exatamente triste. Estranho.
Mais estranho é sentir que há nisso alguma reciprocidade.
Coisas de adulto, vai saber?


Bom, hoje jantaremos com meus pais.
Farei a janta inclusive. Comida ainda é uma linguagem que qualquer família entende. A minha entende muito bem.
Como já está virando um costume por aqui, me lembro de um livrinho muito bom que li semana passada: O Último Chef Chinês, de Nicole Mones, com tradução de Ana Ban (Objetiva, 2008).
Trata-se de uma estória bem equilibrada para amantes da leitura e amantes da cozinha, onde uma coisa prescinde a outra.
Em mim o livro desencadeou uma reflexão sobre receitas de família. Curiosamente, ainda que eu venha de uma linhagem que alimenta a quem ama, não temos receitas de família. Não dessas que passam de geração para geração. Temos, sim, pratos que são associados a uma pessoa. E que morrem com ela. Não nos atrevemos a tentar perpetuar um sabor que jamais será igualado. Direitos autorais póstumos, ou uma reserva de sentimentos com os quais preferimos não mexer.
E entre nós, amor com amor se paga. Ou pão/pão, queijo/queijo. Eu sei qual prato do meu repertório cada um gosta, e sempre o faço para as ocasiões especiais. Da mesma forma, minha mãe, e igualmente meu pai, não seriam capazes de me privar dos exatos pratos que eu adoro.



Essa coisa de tradições me diverte. Afinal o que define uma tradição? Quantas vezes algo precisa acontecer para ficar “tradicional”?
A tevê a cabo começou a passar Mamma Mia. A gente assiste toda vez que passa. Já tínhamos visto no cinema. Já assistimos duas vezes no West London. E resolvemos que será inevitável assistir uma terceira. Será essa uma nova tradição???


Mother says I was
A dancer before I could walk
She says I began
To sing long before I could talk
And I've often wondered
How did it all start?
Who found out that nothing
Could capture a heart
Like a melody can?
Well whoever it was, I'm a fan


So I say
Thank you for the music
The songs I'm singing
Thanks for all the joy
They're bringing
Who can live without it
I ask in all honesty
What would life be
Without a song or a dance what are we?
So I say thank you for the music
For giving it to me

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Terça-feira, Outubro 20, 2009


Não vou falar em falta de tempo. Eu nem mesmo acredito nessa coisa de falta de tempo.
Acho que as coisas se explicam melhor por escolhas de interesses. Ou prioridades, enfim.
Então que na minha lista de coisas que podem – ou precisam – ser feitas, escrever não está conseguindo uma boa colocação.
Sim, há o trabalho, a desculpa moderna oficial. O ano custou a começar e agora está panicando com a idéia de acabar. Todo mundo quer tudo agora. E tem esse monte de gente que não faz nada a não ser coordenar o que os outros fazem. Eu sou à moda antiga, eu faço eu mesmo. Acho que o trabalho feito é mais importante do que o trabalho relatado. Mas isso sou eu naquele mundo estranho onde eu vivo.
E sim, há um monte de outras coisas acontecendo. E são todas boas, ainda que a sua maneira. Pois, que entre tantas coisas há coisas excelentes. Minha amiga mais querida que virá me ver, em menos de um mês. A viagem que cada vez mais se aproxima. E a paixão. A paixão que se reinventa.
Não sou o tipo de pessoa que faz loucuras de paixão. Mais que isso, vivo nas paixões a minha sanidade. É quando não estou apaixonado que posso fazer loucuras. Por puro tédio.
Nisso uma das coisas que mais fascine em estar casado: a possibilidade de se reapaixonar pela mesma pessoa. Se bem que nunca somos a mesma pessoa...então que seja a possibilidade de nos apaixonarmos pela nova pessoa que surge, de tempos em tempos, do nosso lado.
E disso que eu tanto gosto nos relacionamentos longos. Acho que é aquela coisa meio existencialista, ou ano menos sartreana, de escrever a própria história, ou de vivê-la como se fosse ser lida. Faço disso um exercício de escolhas, de seleção de lembranças, de sempre querer resolver as coisas, sempre querer fechar os capítulos. Mas sem perder um enredo que conte toda uma história, a minha história.
Vai ver é por isso que eu goste tanto de romances biográficos. Vai ver é por isso que eu tenha devorado (em dois dias) Orgulhosa demais, frágil demais – A vida de Maria Callas, de Alfonso Signorini (Record, 2009).
Callas pode ter sido a estrela explorada pela própria mãe, a diva excêntrica que conheceu o apogeu e o ostracismo, pode ter sido a amante escandalosa e preterida de Onassis. Ou pode ter sido uma mulher de incrível talento para cantar, para viver e para amar. Pode ter vivido uma história da amor que durou duas décadas, e que não teve um final convencional, mas que não nos cabe julgar como infeliz.
A Callas de Signorini é explicitamente retratada com olhos de devoção, mas de certa forma é isso que acrescenta a esse trabalho seu melhor mérito: o de enxergar a mulher antes da artista. E fazer daquela a grande protagonista.

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Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Hoje faremos uma comemoração em família.
Minha irmã fez 30 anos.
Não que isso mude muita coisa sobre a minha opinião sobre ela. Ou sobre a opinião do resto da família. E talvez sobre a opinião dela mesma. Enfim, ela sempre será adolescente. E deixar de vê-la como criança já foi uma evolução considerável.
É curiosa a maneira como medimos a vida das pessoas. Temos uns balizamentos cravados na nossa concepção do que a vida deve ser. Aos trinta estima-se que a pessoa já tenha construído algum currículo, não só profissional, mas também afetivo.
Entre irmãos os currículos serão sempre comparados.
Muito embora tenhamos não mais do que 5 anos de diferença, somos definitivamente de gerações diferentes.
Eu aos trinta me fiz adulto. Não tive muita escolha. Feitos meus trinta anos eu já trabalhava há mais de seis anos na exata área para a qual me prepara desde a adolescência. Já tinha esgotado as ambições financeiras típicas da juventude: tinha tido carro e grana e monte de convites para qualquer lugar. Tinha feito as viagens protocolares, NY, Londres, Paris. Estava casado com meu primeiro amor, era urgentemente feliz. Seis meses depois eu estava viúvo, anoréxico e em pânico. O resto da história vocês conhecem.
Minha irmã entra nos seus trinta anos com o mesmo currículo, mas com outros resultados. Já foi casada, já morou na Europa, trabalha na sua área e não liga muito para dietas, embora ame um tratamento cosmético.
Só que para todos há um abismo entre nós. E acho que para nós também.
Eis que nossos currículos econômicos são diferentes. E isso serve para que nossas vidas sejam medidas por réguas absolutamente distintas. Nossa diferença essencial parece ser o quanto cada um ganha. Sabemos, eu e ela, que nossas diferenças são bem outras, bem mais sutis, e por isso tão difíceis de serem superadas.
Da minha parte, ainda que isso possa parecer fácil sendo o irmão mais rico, não me parece que o ser bem sucedido se meça no quanto ganhamos. Da minha parte, desejo profundamente que minha irmã seja cada vez mais feliz.
Feliz com ela mesma, sobretudo.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Grandes projetos


Grandiosidade me aborrece. Grandes projetos sempre me dão uma preguiça freudiana: afinal o que se quer compensar?
Acho que não tenho muita paciência nem para esse papo de sonhos.
Gosto mesmo é de realizações. Conquistas, vitórias. Mas as do cotidiano. Pequenas e constantes doses de alívio. É isso mesmo: doses. Como um remédio – quiçá um antidepressivo? – diário e necessário.
Coisas que dia a dia e todo dia me dão essas pequenas e indispensáveis alegrias. Ah, o cotidiano e sua magia. Ah, a lógica reconfortante de certas rotinas. Fazer de conta que se vence o tempo, a natureza. Brincar de ter controle. Recolher um varal de roupa seca momentos antes da chuva. Ver a massa de o pão dobrar de tamanho. Acertar o tempero da comida, o ponto do macarrão. Assar uma torta para o final de semana. Acender o abajur da sala no exato momento em que anoitece. Pequenas vitórias que me fazem o senhor do meu castelo. Um senhor feliz. E o que mais importa?
Daí minha falta de paciência com a vocação para super-herói. Ainda mais em causa própria. Querer salvar o mundo das cáries já é cansativo, mas se acreditar iluminado é insuportável.
Vejam bem, queridos leitores, que sou o primeiro a acreditar que somos o que queremos ser, que podemos – se é que não devemos – fazer a própria diferença. Mas daí a querer que todo mundo entre na nossa é outra coisa.
É bem complicado isso... É bem necessário ter sonhos, é muito importante ter objetivos e melhor ainda ter projetos. Mas pés no chão também têm seu valor!
O problema dos grandes projetos de vida é que eles podem virar grandes frustrações ou, pior, grandes desculpas. Quantas pessoas passam a vida apenas lamentando o que deveriam ter sido? E quantas mais fazem um monte de (grandes) besteiras abonadas pela sua condição de (grandes) predestinados?
Não, não, comigo não. Por que diabos ninguém tem vocação para coisas simples? Por que todo mundo veio predestinado a ser artista, modelo, manequim, cantor, apresentador, celebridade? Por que não há sonho que exclua ser famoso?
Como é do meu estilo, ligo alguns pontos: as Olimpíadas no Rio em 2016 (ou a Copa do Mundo em 2014), o Grupo Corpo e Benjamin Disraeli.

Bom, meu orgulho patriótico não se acendeu em verde e amarelo com a escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 (tão pouco, ou ainda menos, com a Copa do Mundo de 2014). Simplesmente porque não acho que o Brasil precise de mais estádios, hotéis ou vilas esportivas. Não antes de hospitais, escolas e moradias populares dignas. Não mesmo. Não acho que o Brasil precise – no seu atual contexto – estimular o turismo. E definitivamente não acho que mais brasileirinhos precisem sonhar com carreiras no esporte. Não antes de sonharem em ler e escrever, em ter uma boa profissão, em serem produtivos e poderem obter seu próprio e viável sustento. Não precisamos de novas revelações no cenário esportivo, não antes de formarmos mais médicos, professores, técnicos.
É o Brasil com grande s projetos. E eu com medo que esse seja o cenário para grandes inversões de prioridade. Porque circo sem pão não dá certo desde o Império Romano.

Em compensação, as luzes em anil varonil piscam eufóricas cada vez que vejo o grupo Corpo. Sábado revi Bach e fui apresentado a Imã. Aquele mais emocionante que este. Estranhamente, Imã ficou “Corpo” demais. É que o que fascina no grupo mineiro é sua capacidade de dar a qualquer trabalho não só a sua já suficiente identidade, mas de imprimir uma indelével marca de brasilidade sem cair na caricatura tropical do meu ganzá faz chicachicabunch. Então “Imã” com sua batida cheia de sambas, suas cores cheia de flúor quase ofusca a coreografia cheia de “Corpo”. Foi o “Corpo” demasiado “Corpo”.
Mas isso não muda o tanto que a trajetória do Corpo serve ao que estou dizendo. É que o Corpo nunca pareceu querer ser maior do que seu real objetivo: a dança. O Grupo Corpo é um grupo de dança que dança. Não é celebridade, não é famoso, não faz nu artístico, não excursiona pelo Brasil fazendo palestras motivacionais sobre sua história de sucesso. Digno, enfim, mui digno.

E então o homem que fez de sua ambição pessoal o patriotismo de seu país. Li, quase sem respirar, A vida de Disraeli: Primeiro-Ministro & Amigo da Rainha Victória, de André Maurois (Nova Fronteria, 2009), numa tradução “redondinha” de Gleuber Vieira.
A grande lição que tiro da vida de Disraeli é a história do homem que fez, sim, História. Ou como os grandes projetos, mesmo realizados, não substituem - ou saciam - nossas pequenas necessidades humanas. Ou como o sucesso não esquenta a cama...ou, paradoxalmente, o quão solitária pode ser a própria vitória. Ou simplesmente que na grandiosidade cabem também os extremos: o topo da montanha e o fundo do poço.
A montanha que erguemos.
O poço que cavamos.

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Quarta-feira, Setembro 30, 2009



Tenho conversas com os filhos que não terei.
Em grande parte não os terei por causa dessas conversas. Nunca saberei o que deve ser dito a uma criança. Não sei quais verdades poderiam lhe ser ditas. Não sei se conseguiria lhe dizer as mentiras eventualmente necessárias.

Numa dessas conversas, explicaria que o tempo é uma luz piscando no microondas da cozinha. E que depressão é quando falta luz.
A metáfora da coisa é que a depressão não impede o tempo de passar, só nos impede de perceber isso.

Tenho um imenso respeito pelo assunto depressão. E medo.
Venho de uma família com um importante histórico de depressão. Sei o que essa doença pode fazer na vida de uma pessoa e na dos que a cercam.
Por isso sou sempre atento a seus indícios.

E por isso aprendi que – felizmente – existe uma diferença entre depressão e tristeza.
Justamente porque depressão é um extremo patológico, mas tristeza é um sentimento inerente à condição humana. É um dos muitos lados da nossa holográfica moeda.
Pois bem, estive triste nos últimos dias. Por várias e repetidas razões. Por ciclos, que como ciclos que são, voltam de onde pararam. Sempre digo que a vida adulta traz uma certa simplicidade, e isso vale para os problemas: são sempre os mesmos, só mudam de apresentação. E, talvez por uma questão de sobrevivência, a gente aprende a viver com eles
Ou vai ver a vida adulta nos dê um mecanismo de convivência com a própria dor. As dores do corpo, do cansaço, da saudade, da desilusão. Ou a simples dor da perda. Perde de alguém que conhecíamos muito bem e de quem gostávamos muito: nós mesmos, só que cruelmente jovens.
Bom, só que agora isso realmente não importa. Ou não faz qualquer diferença.
Para mim o importante é não perder a noção do passar do tempo, mesmo que eu não possa ver a luz piscando no microondas da cozinha. O importante é que a tristeza seja não mais do que uma breve – ainda que necessária - pausa.
O que importa é aproveitar o tempo sempre da melhor maneira. Ainda que da maneira então possível.
Eu estava muito triste para escrever. Seria explícito demais. Preferi um conflito interno mais discreto e, até o suportável, silencioso. E no tempo que insistiu em passar triunfante, fiz o que me cabia fazer: viver.
Trabalhei, por mais penoso que isso tenha sido. E justamente por ser penoso foi necessário. Qual era o filme que dizia que o remédio precisa ser amargo?
E para chorar fui ver o melodramático Uma Prova de Amor, com a dispensável Cameron Diaz, a perfeita Sofia Vassilieva e a ainda promessa Abigail Breslin. Um filme da melhor tradição hollywood fazendo lágrimas e clichês, mas que me fez sintetizar uma lição que eu já sabia: amar é uma permanente despedida. A única maneira de se viver a plenitude de um relacionamento é fantasiar a iminência de sua finitude.
Não satisfeito, me rendi ao delicadíssimo O Contador de Histórias, para lembrar que nada pode ser mais mágico do que a realidade.
Para me provar o quão determinado eu sou, acabei o - agora frustrante – Paris – Biografia de uma cidade, de Colin Jones. Só para me lembrar que nada é mais perigoso do que grandes expectativas. Ou para que a história de Paris me lembre que somos diariamente responsáveis por nossas escolhas, por nossa história e pela construção de nossas lembranças.
Para não me perder de mim mesmo, comprei ingressos para o balé, presentes para os aniversariantes do mês, mais uns livros. Fui a uma festa. Usei uma combinação de cores que nunca tinha tentado, desfilei sapato novo, comecei a fazer ginástica, cortei o cabelo, fiz pão, bolo, bolinho. Lavei as almofadas, plantei hortelã, tentei consertar um relógio, perdoei uma batida de carro.
E voltei a escrever.
Porque eu mereço.
E com ou sem luz, não me nego.

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Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Eu não atiro pau no gato.
Eu não bato em cavalo morto.
Eu sou filho de peixe
Eu dou um boi para não entrar numa briga.
Eu nado de costas em rio que tem piranha.

Ta, eu cutuco a onça.
E no fundo eu quero que a vaca tussa.
E que importa a Mula Manca
se eu quero
A Dona Felicidade?

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