domingo, dezembro 18, 2005

Fechando a rima

Meu avô materno, 64
Minha avó paterna, 74.
Meu tio, 52.
Outro tio, 59.
Amor, meu grande amor, 32.

Hoje, um velório, 61.

E eu cada vez mais, tenho pressa. É muito pouco tempo. E muito a ser feito.
E acima de tudo, eu tenho urgência.
Não, não podemos nos dar ao luxo de perder nenhum tempo, de poupar nenhum beijo, de escolher qualquer palavra. Vamos, vamos, em frente, e com pressa. Viver, viver muito, com vontade, com verdade, como deve ser a vida.
É incrível, para não dizer óbvio, como os ciclos se fecham. Cinco meses atrás, a expressão perdida que hoje vi em outros rostos, era a dor que tomava conta de mim. Não, minha dor não passou, não toda, não ainda. Jamais. Mas eu já sei viver com ela. E já descobri que ela se acalma, cada vez que eu dou um sorriso.
A vida nos trata como merecemos. E onde as pessoas vêem injustiça e desespero, eu vejo dádivas. Morrem cedo os que estão prontos, ficamos nós que estamos perdendo tempo.
E há nisso tudo certo requinte. Daqueles clássicos, pois extremamente simples. As pessoas que estão prontas seguem sua viagem com perfeita sincronicidade e com absurdo requinte. Sim, são elas premiadas, ou melhor, recompensadas. Morrem (como me dói usar essa palavra!) na hora exata, e no lugar certo. Não o nosso certo, não esse certo mesquinho dos vivos, mas o certo dos que estão prontos.
Meu amor cuidou de esperar passar a hora visita, e dois dias antes tratou de me dizer adeus. Não quis fazer passar por essa hora ninguém de nós, que ficaríamos muito assustados. Escolheu um dia em estava de plantão uma amiga de infância. Meu avô cuidou de casar as filhas e de deixar encaminhado o primeiro neto. Minha avó quis voltar para casa e resolver umas pendências. Meu tio esperou a formatura da sobrinha. O outro só se foi depois do almoço com a família.
E o de hoje, foi de tal forma iluminado que escolheu um dia de festa, para que todos pudessem estar por perto. Igualmente delicado, esperou que o filho resgatasse seu grande amor. Amor que hoje estava lá, de mãos dadas. Amor que, faz seis meses, passou pela mesma barra, e agora está forte para segurar a mesma mão que antes segurou a sua. Se isso não é perfeito, eu não sei o que pode ser.
As pessoas têm sua hora. Eu sei que essa frase é clichê. E qual clichê não é verdade? Infelizmente, nessas horas, não conseguimos perceber a poesia que a vida faz. Temos, enfim, dificuldade com os detalhes.
Eu sou, então, um entusiasta da vida. E dessa perfeita métrica que lhe caracteriza. E sigo agradecendo todos os sinais e agradecendo ainda mais meus olhos estarem suficientemente abertos.
Hoje eu sei que o sorriso que agora voltou a minha cara, é o sorriso que vaza da minha alma. Sorriso que sempre esteve lá e que foi revelado por um grande amor. Missão cumprida. Agora, é comigo. E eu, insisto sempre, não me nego.
E, portanto, que venha a vida. Que venha forte, que venha rápida. Que eu quero. Que eu preciso.
E não há, meus queridos, nenhum motivo para se estar vivo, que não o ser feliz. Não, essa vida não é uma passagem, não é uma escola, não é para aprender nada. Tudo isso é balela. Essa vida é para ser vivida. E se fizermos isso, já estamos quitados. Não me venha com essas histórias de resgates, de carmas, de darmas, embora eu acredite em todas elas. A vida é simples e exata. E óbvia. A gente nasce, a gente vive, a gente morre. Só isso, mais nada, a não ser, exatamente, pelo enquanto isso.
E hoje, vejam só, vejo se fechar mais um ciclo. Dirijo pela mesma estrada pela qual dirigi naqueles que poderiam ter sido os meus anos mais felizes. E sozinho no meu carro, canto e sorrio. Penso que tudo que eu pensei que tivesse perdido está ainda dentro de mim. Mais do que uma pessoa, quem esteve dez anos do meu lado foi uma energia boa. E a energia, sabemos desde o colégio, não se perde, só se transforma. E pelo jeito, em boa parte, se absorve.
E não fosse suficiente, tanta poesia. Hoje, enquanto eu chorava, senti que ventava muito. Caminhei meio sem rumo e cheguei a um gramado. Ora vejam, se não é óbvio, que a grama estava coberta de flores. Não as roxas, mas as amarelas.
Digam o que quiserem. Mas são esses, sim, os meus sinais.
Querem mais?
A vida tem sempre mais para dar.
Cheguei agora de uma festa de família. E qual festa não seria, que o chá-de-fralda da Laís? É, meu dia começou num velório e acabou numa foto de família. A barriga enorme da minha prima. A Júlia correndo para me dar um abraço. Meu avô todo bobo porque vai ser de novo bis-avô. E eu? Chorando, é claro. Tem jeito mais sincero de dizer obrigado?
É isso.
Fecham-se os ciclos.
Vivi meu próprio inverno.
Vieram as flores roxas me trazer a primavera.
Agora as amarelas me trazem o verão.
Seguem caindo os raios. Mas também são raios os que vêm do sol.
Sim, eu sei, terei frio de novo, outras vezes, em certos momentos. Mas também terei calor.
Meu couro é grosso. Minha carne é fraca. E minha alma precisa de amor.
Tenho minas dores, meus amores. Tenho a minha história. Que é linda. Que me serve bem. E que está quitada. Não, não há nisso crueldade alguma. Como seria poesia se não se fechasse a rima?
E sabe o que é mais engraçado? Ontem, a festa à fantasia, que acabou cancelada. Eu ia de anjo. Por que anjo? Por causa das asas.
Venham os novos versos. Venham as novas páginas. Tudo vai dar certo. Já deu certo tantas vezes. E cada vez foi tão melhor. Vai acontecer de novo. Eu sei. Inexorável. Inevitável. E tão bom.
Porque eu mereço. Porque eu não me nego.
Sigo, juntando as flores que seguem caindo.
Sigo, olhos abertos, sem medo dos raios do sol.
É esse o meu caminho.
É assim, que tem dado certo.
Sigo sorrindo, porque, assim, eu sou mais forte.



6 Comentários:

Blogger sam disse...

q lindo acreditar q as pessoas se vão na hora certa, lutti. colocou em palavras o q eu levei anos para assimilar. um acidente parece algo tão absurdo e sem sentido. mas eu tive meu adeus, eu tinha minha despedida tb. e eu, como tu, tb acredito q ela estava pronta. eu q não estava...
siga em frente com esses sorrisos e essas lágrimas, por favor. ver a poesia de flores amarelas e roxas é algo q poucos conseguem fazer.

18/12/05 10:39  
Blogger Cássia disse...

Lindo, Lutti...

18/12/05 11:26  
Blogger Adri Amaral disse...

eu pensava justamente sobre isso ontem, quando tive a notícia, enfim, as coisas são como tem que ser... beijos e nos falamos

18/12/05 14:33  
Anonymous Renata disse...

Seguir sempre sorrindo é o q de melhor vc pode fazer por si mesmo. Um lindo texto p se ler num domingo. Vc escreve cada dia melhor, ou eu q to me encantando cada vez mais?? Gde beijo! Rê.

18/12/05 21:26  
Blogger Alessandra disse...

Lutti, num momento em que eu vejo a vida de uma pessoa que eu amo se esvaindo cada dia um pouco, esse texto cai como uma pedrada. Isso não é uma acusação, apenas uma constatação de que o ciclo da vida é o mesmo para todo mundo, por mais que às vezes a gente sofra por isso. Cada vida acontece de um jeito, mas quando ela é maravilhosa, plena, feliz e de uma hora para a outra está escorrendo pelo ralo... é duro, é muito duro.

19/12/05 11:45  
Anonymous Raquel disse...

Absolutamente lindo!

19/12/05 16:28  

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