domingo, julho 31, 2005

É diferente ser feio?

Recebo um convite inusitado: uma festa pelo dia do Orgasmo, num clube moderninho, ao som de rock e electro. Não, não acho o Dia do Orgasmo inusitado; não acho que uma festa nesse dia seja inusitado; e muito menos acho música eletrônica inusitada, na verdade acho a melhor para dançar.
Inusitado no convite é a sugestão de um dress code. Embora festas onde se pede que os convidados respeitem uma identidade visual já não sejam novidade, afinal até a Cláudia Raia já exigiu que seus convidados só usassem preto em um aniversário do marido. Eu mesmo já recebi convites com pedidos como “a touch of red”, ou “traje fashion”.
Mas fiquei pensando na idéia do dress code e conclui que toda a festa tem uma espécie de código, mais ou menos rígido, de vestuário. Talvez seja o que os sociólogos chamam de tribos, cada qual com sua pintura de guerra e sua arte plumária. Curioso, mas a roupa aqui serve como veículo de comunicação de massa, ainda que a massa em possa ser uma minoria.
Então vem a festa do orgasmo e o clube modernoso e o tal dress code. Então consigo entender como a música eletrônica, uma sofisticada trama sonora, foi se associar a uma imagem estética de estravagância luxuosa e ao mesmo tempo minimalista.
Admito que fiquei fascinado com o primeiro clubber que eu conheci. Ainda hoje lembro da maravilhosa combinação de pantalona de cetim grafite com minúscula camiseta azul celeste com uma flor em estampada no peito. Uma composição andrógina e sem idade. Naquele momento, para mim, um novo padrão estético se revelou. A harmonia do excesso, o exagero do mínimo.
Alguns anos se passaram, e então eles chegaram: os novos seres da noite, entendam, mais novos que eu. E com eles trouxeram um novo dress code que simplesmente não combina com a música. De repente todo mundo ficou muito feio, muito pobrinho, muito sujinho. E o curioso é que dá pra perceber que eles levaram horas “se arrumando”.
Sou péssimo para citar fontes (fiz minha última ficha de leitura na faculdade), mas certa feita li alguma coisa sobre a estética do feio como arma do alter-ego repressão psicológica. A partir daí formulei uma das minhas teorias mais empiricamente comprovadas e ovacionadas em rodas de amigos:

ALTERNATIVO É AQUELE QUE NÃO CONSEGUIU VENCER NO MUNDO DOS BONITOS!!!

É um pouco radical, mas é verdade. Quem conhece uma pessoa tradicionalmente bonita que tenha optado por uma concepção estética alternativa????
Tá certo, até Melanie Klein valoriza a perda do eu como forma de amadurecimento, mas o enfeiamento como defesa estética é uma saída, ao meu ver, covarde. Ok, você pode gostar de ser diferente, você pode se identificar de corpo e alma com uma estética alternativa, você pode até achar que a sua vida inteira vai acontecer after hours, mas você pode ser diferente sem ser desarmonioso, você pode ter seu próprio código, mas ele não precisa ser ilegível.
Tenho uma amiga super qualificada academicamente em cibercultura e subculturas. Preciso conversar com ela e descobrir se já alguma teorização sobre a perda de glamour na estética eletrônica...
TUDO ISSO É SÓ PRA PODER DIZER QUE AINDA ESTÁ PARA NASCER A MULHER QUE VAI FICAR BEM DE TÊNIS ALL STAR E SAIA CURTA RODADA!

sexta-feira, julho 29, 2005

O cio das piranhas plásticas

E lá estava eu naquele bairro óbvio de nossa cidade óbvia. Obviamente eu estava naquele restaurante, ops, desculpem-me, bistrô!
Enquanto estava na fila observava o agradável conjunto do buffet, com quiches e saladas em alturas e cores bem equilibradas.
Na minha frente, uma jovem perto de seus 30 chama minha atenção. Belas botas pretas de salto e bico finos acabam na altura do joelho, levemente encobertas por uma saia godê de lã cinza rato. Na parte de cima, uma malha justa e com gola alta em tom de violeta. Provavelmente o sutiã estivesse um pouco apertado, porque uma dobrinha feia aparecia perto da axila, mas tudo bem, eu estava de bom humor. Então a jovem resolveu partir para o ataque e, sei lá como, conseguiu jogar todo o cabelo para trás enquanto o ajeitava com a mão (não me perguntem como ela segurou o prato e a bolsa enquanto isso). Apesar de cheiroso, o cabelo não devia estar muito forte, já que vários fios foram parar em cima do meu prato.
Ainda um pouco abalado, depois de trocar o prato e me servir vou para minha mesa de onde fico observando a selvagem. Sim, uma selvagem, ela faz aquela coisa no cabelo de forma compulsiva. E, não bastasse, antes de avançar em suas 3 folhas de alface ela dá o golpe final no meu humor: junta todo o cabelo no alto da cabeça, dá duas laçadas no ar e o prende com uma “piranha” de plástico. Perco o apetite, perco a esperança, perco a paciência e resolvo escrever sobre o assunto.
Chamem a Odete Roitmann. Isso só acontece no Brasil. As duas coisas. Mexer no cabelo o tempo todo e assassinar qualquer visual urbano com uma piranha de plástico.
Confesso que já viajei um bocado e nenhum outro lugar do mundo as pessoas mexem tanto no cabelo, e portanto vivem escabeladas. Aliás, em qualquer artigo da Nova a gente lê que quando a mulher passa a mão no cabelo ela está sinalizando seu interesse no parceiro. Deus, então as brasileiras estão sempre acesas? Algo como um cio tropical sem fim? Agora entendo porque tantos turistas europeus...
Da mesma forma, só aqui esse penteado “desestruturado” e preso com a maldita piranha sai dos limites da faxina em casa. E não se iludam: piranhas pretas, marrons, imitando tartaruga, não adianta, ainda são piranhas de plástico.
Há pouco mais de um mês eu estava em Londres e isso me chamou muito a atenção. Homens e mulheres gauleses têm cabelos impecáveis. Penteados, esculpidos, modelados com precisão, logo, nem eles têm coragem de passar a mão nos próprios cabelos e estragarem tudo. Não eles não parecem produzidos para uma festa, eles simplesmente parecem ter se penteado.
A idéia é bem simples: se você precisa prender seu cabelo, faça isso antes de sair de casa, use um pouco de fixador e grampos, ou uma presilha que faça sentido no contexto de sua proposta. Mas se você prefere cabelos soltos, escove, finalize e os esqueça!!!
E é claro, no momento clichê, cabelo bonito é cabelo limpo e saudável. E, mais, no momento segredo do sucesso, nenhum corte de cabelo dura mais de um mês. Nem para mulheres, nem para homens. Aliás, homens devem pensar nisso a cada 15 dias, porque além dos cabelos há pelos no nariz e nas orelhas, mas isso é assunto para outro dia, quando o meu humor estiver ainda pior.

Eu me pergunto: com que roupa?

Há pelo menos 15 anos tenho estudado compulsivamente aquilo que eu chamo de "comunicação visual". Estudo história, economia, psicologia, gastronomia, pintura, arquitetura, design, etiqueta, e moda, muita moda. Teses, livros, revistas, catálogos, viagens, tudo é material de pesquisa - e desculpa para fazer umas comprinhas. Tudo bem, confesso, tenho compulsão também por compras, sou vítima de minha própria teoria da comunicação estética.
Fiz Escola de Bela Artes, mas acabei advogado. Não adiantou, colegas e amigos sempre buscaram minha assessoria em seus dramas estéticos: escolher a melhor roupa, decorar a casa, organizar uma festa. Eu me divirto, eles ficam satisfeitos. E a brincadeira foi ficando séria.
Então surgiu este espaço, mais como uma coletânea de idéias do que como um diário virtual. A idéia continua sendo me divertir, escrever sobre assuntos que me dão imenso prazer. Não fosse o suficiente, talvez ainda possa ajudar algumas pessoas e, hahaha, por que não tornar o mundo um lugar esteticamente mais agradável?!
Não, não quero fazer mais um daqueles manuais "como se vestir como um gerente de banco". Acredito na imagem como veículo de comunicação pessoal, então não dá para dividir as pessoas entre as que podem usar listras horizontais e o resto. Quem quer ajudar os outros na missão visual, eu acho, precisa dizer: ok, você quer usar listras hoje? Então vamos escolher as melhores listras para você!
O importante e ser feliz (e não poluir esteticamente a vida dos outros).