quinta-feira, setembro 29, 2005

Laranja pitagórico

Recebi alguns e-mails escandalizados com a questão da cor. Aliás, vocês viram que eu inseri um link de e-mail ali do lado? Sim, sim, agora o “com que roupa” tem seu próprio 0-800, ou seu SAC. Usem, e até abusem.
Deixa eu esclarecer, então, que também nesse assunto eu sou um dissidente da corrente universal dos personal stylists. Por quê? Porque eu acho que é proibido proibir. Aliás, eu acho que tudo é divino e maravilhoso. E não temos que temer a morte!
Enfim, não gosto da idéia que uma cor seja proibida para uma pessoa. Apenas é preciso saber usá-la, combiná-la e afastá-la da pele ou do cabelo, conforme o caso.
Vejamos o meu exemplo preferido: eu mesmo.
Pela cor da minha pele, laranja é uma cor que devo evitar, porque deixa minha pele com um aspecto de “sujo”. Mas um estudo de numerologia pitagórica associada à cor revelou que eu não tenho nenhuma letra de valor 2, 7 e 8 em meu nome e portanto, para um melhor equilíbrio, eu deveria usar roupas nas cores correspondentes. O 7 corresponde ao violeta e o 8 ao rosa. Tudo bem, são cores que estão na minha paleta e das quais eu gosto. Mas o 2 corresponde ao laranja, uma das minhas cores supostamente proibidas.
Para ser franco, nem gosto muito laranja. Mas sua ausência em minha numerologia pode ser fonte de ansiedade, impaciência e dificuldade de adaptação. Enquanto seu uso “traz as emoções à tona, mas de maneira tranquila. Revigora a mente e produz uma sensação de bem-estar”. Além disso, bronquite, asma, problemas renais e musculares são as síndromes físicas que o laranja ajuda a combater. Meu Deus, eu não posso abrir mão do laranja.
Mas o que fazer? Como eu usaria uma cor que não me cai bem?
A solução mais simples, começar em pequenas doses. Depois, o segredo é afastá-la do rosto, portanto camisas e camisetas estavam fora de questão. Tudo resolvido, precisava de um sapato laranja – mas não encontrorei até hoje o ideal. Então comprei uma gravata.
Ok, mas como usá-la? Bom, uma das formas de combinar as cores é se manter na mesma família. Laranja, amarelo, vermelho. Não, camisa vermelha e gravata laranja com um terno amarelo, definitivamente não. Outra maneira é cobinar a cor com sua complementar primária oposta, no caso do laranja, o azul. E o azul é uma das minhas melhores cores. Descubro que usando camisa bem azul e gravata laranja, as duas cores se neutralizam. Então, só me faltava combinar com um cor neutra. O bege não me ajuda e mas fica perfeito na combinação, porque a camisa azul sozinha ilumina meu rosto. Costume bege, camisa azul e gravata laranja. Resolvido.
Num dia mais frio, descubro que a mesma combinação também funciona com os ternos marromns e com os cinzas e até com os azuis-marinho, desde que o sapato seja marrom.
De repente, viro um comprador de gravatas laranjas.
Bem mais seguro, compro um pulover de decote V (= longe do rosto), para usar com calça e camisa jeans em lavagem azul.
Já um mestre do uso do laranja, parto para o desafio final: a combinação em tríade. Sim, três cores, sem nenhuma base neutra. A combinação triangular do laranja é verde e violeta.
Ainda não consegui. Fico lembrando daqueles salas dos anos 70, com papel de parede abóbora e bordô e carpete marrom.
Trouxe de Londres uma uma calça de veludo verde-claro que ficou bem com o meu pulover laranja, mas não tive coragem de usar com uma camisa violeta, mas como o verde é claro, tentei uma camisa azul (minha cor segura, hehehe) e gostei do resultado.
Laranja nunca vai ser minha cor preferida, mas eu prefiro Toddy ao tédio. Usar cores exige sim um bom senso pitagórico. Mas é um risco calculado. E quando se usa, ah, daí é aquela sensação do comercial de sabonete em que a uma mulher de vermelho anda no meio de várias outras de branco - a “sensível diferença para mulheres especiais”.

terça-feira, setembro 27, 2005

Negro Gato

Sou chamado para resolver a crise de meia-idade de uma bela mulher. Estou ficando especialista no assunto, mas meu rígido senso prfissional e minha boa educação não permitem especificar o quanto é a meia-idade em questão.
Enfim, me deparo com uma mulher comum, mas esforçada. Cabelos castanhos na altura dos ombros, levemente repicados, com mechas acobreadas e loiras. Olhos castanhos claros, quem sabe até esverdeados, um pouco inexpressivos apesar das várias camadas de rímel preto. A pele, que provavelmente está atrás de toda aquela maquiagem, deve ser do mesmo tom amarelado das mãos. A analisada tem 1,64m declarados e 57 kg confessados. O corpo parece bem distribuído, apesar do busto ter sido turbinado e dos culotes não estarem sendo disfarçados pela calça black jeans justa até os tornozelos e coordenadas com bota preta de bico fino. Na parte de cima, uma malha básica, também preta, de gola alta. Como acessórios, uma bolsa preta e um cachecol lilás...ãhn, como direi...combinando como batom.
Ela me parce realmente preocupada com a questão estética. Pede um cappucino, mas pergunta se o leite é desnatado. Enquanto coloca meio sachê de adoçante em seu café me fala sobre seus dramas. Apesar de ter colocado silicone e ter feito uma lipospiração, ainda se acha gorda, por isso só usa roupas escuras. Na verdade, praticamente só usa preto, e “quebra” com algum detalhe bem colorido. Faz luzes nos cabelos a cada 20 dias, em quatro tons de dourado, acredita que isso ilumina o rosto. Diz que tem um sério problema com olheiras fundas e roxas, não importa o quanto durma. Já fez algumas sessões de laser, mas ainda não esá satisfeita. Algo me diz que ela nunca vai estar satisfeita...
Mais tarde, ao estudar o caso, me concentro no capítulo das cores.
Várias pessoas passam suas vidas inteiras sem perceber a importância da cor na composição de suas imagens. Acreditem, cada um de nós tem sua própria paleta de cores. E acreditem, mesmo que seja preciso muita fé, nem todo mundo fica bem de preto.E por falar em preto, eu juro, do fundo de minha alma, que preto com um toque de cor não funciona.
Eu poderia escrever páginas sobre cores. E talvez eu até o faça outro dia. Mas hoje quero apenas falar sobre o lado negro da força. O popular, o fashion, o chique, o coringa, o básico, o sensual, o emagrecedor, a escolha de 9 entre 10 pessoas para a noite: o preto.
A primeira lenda sobre o preto é que ele emagrece. Bom, a única forma eficaz de emagrecer é fazer dieta. Roupas e cores podem, no máximo, disfarçar um pouco, ou não deixar você parecer maior ainda. O aclamado efeito emagrecedor do preto só funciona se o look for totalmente preto e opaco. E nesse caso, vai funcionar da mesma forma com qualquer outra cor escura. E até com algumas cores claras.
A segunda lenda mitológica do preto é que ele combina com qualquer pessoa. Se você tem qualquer nuance da família do vermelho na pele ou cabelo, ou se sua pele tiver qualquer nuance azulada, o preto não é para você. Por quê? Porque vai lhe deixar com ar doente, com a pele amarelada e sem qualquer brilho nos olhos ou cabelos. Portanto, salvo se você for gótica, evite o preto, especialmente perto do rosto.
O que acontece, é que todas as cores têm variações de tonalidade ou valor (claro/escuro) e de intensidade ou saturação (vivo/pastel). Isso nos permite encontrar, dentro das cores que nos favorecem, a melhor nuance, e naquelas que não nos ajudam, a menos negativa. Mas com o preto não temos essa possibilidade.
O terceiro embuste sobre o preto é essa herança new wave de que ele é o par ideal das cores vivas. Não, não e não. O preto vulgariza qualquer cor, justamente porque afeta seu elemento essencial: a luminosidade. O preto tira a riqueza da luz das cores, e transforma o que deveria ser brilhante e alegre em chapado e massante. E quanto mais claro for o tom da cor, pior o resultado.Para os que apostam no visual monocromático com um detalhe de cor, vale explorar outras bases neutras como o cinza, o marrom, o bege e o branco. Em compensação, para os fiéis ao preto, se pode fazer maravilhas explorando justamente o elemento luz/sombra, ou seja, preto e branco, preto e cinza e, coragem, preto e um pouco de marrom.
Para minha cliente em crise vou sugerir uma nova paleta pessoal de cores, mais rica e luminosa. Vão-se os pretos, rosas e azuis, que deixam as olheiras mais evidentes. Surgem cores preciosas como bordeaux, e marrons e verdes escuros, fazendo a base monocromática escura e emagrecedora desejada. Somam-se detalhes quentes em vermelho e mostarda. Ilumina-se com a sofisticação do bege cru e vamos encontrar um tom luminoso de laranja.

sábado, setembro 24, 2005

A festa nunca vai acabar

Champagne no gelo
Salgados, doces
Prepare os talheres
Os discos e as poses
Escolhe o teu melhor vestido e vai
Com duas gotas de veneno, não mais
A boca vermelha, sensual
O brilho nos olhos
Você está demais!
Toda essa gente louca, alegre
E sedas a se desnudar
A festa nunca vai acabar


Eu não comemoro meu aniversário. Não, não tenho nenhum problema com ele. Só acho que é uma data comum. Um dia como outro qualquer. Talvez isso faça sentido para mim, porque meus dias nunca foram quaisquer. Nos últimos dez anos todos os meus dias foram uma festa. Todo e cada dia, eu me vesti, eu me inspirei e me excitei, como se estivesse indo para uma festa. Meu aniversário sempre foi todo dia, porque todo dia eu celebrei e agradeci a vida. E todo dia eu quito minha conta com a vida. Eu estou sempre pronto.
Mas eu adoro festas. Adoro casa cheia, mesa arrumada e amigos. Mesmo amigos dos outros.
Nem todo mundo se dá conta, mas o sucesso de uma festa está muito ligado a sua comunicação estética. Pequenos detalhes, como sempre, fazem toda a diferença. O cardápio mais saboroso o mundo pode ser prejudicado por uma sequência equivocada de cores e texturas. Por exemplo, se todos os alimentos de uma refeição tiverem a mesma referência de cor e textura, nossa interpretação pode ser de que todos terão também o mesmo gosto.
E se as flores escolhidas para a decoração tiverem um perfume que interfere nos pratos. Ou forem da mesma cor da sobremesa???
Infelizmente, as pessoas estão perdendo o maravilhoso hábito de receber em suas casas. Tá bom, as ditas áreas sociais dos apartamentos de hoje não permitem grandes festas, e é muito mais fácil reunir os amigos num restaurante. Pode ser mais fácil, mas não tem o mesmo charme.
Também acho tristes essas mega-festas produzidas por equipes estreladas com ambientes e ilhas oníricas. Sou de um tempo em que as pessoas cozinhavam, arrumavam os próprios arranjos de flores, sobrescritavam os próprios convites. É claro que ninguém consegue organizar um casamento para 300 pessoas sem ajuda profissional, e eu entendo que se queira uma festa nababesca, mas toda essa ostentação teatral que se criou em torno das celebrações é muito artificial, impessoal, padronizada. E se eu ver mais um casamento com lounge e ilha de sushis, eu jogo vinho no vestido da noiva.
Em contra partida, quem não promove essas festas de opulência vulgar também não se dá ao trabalho de fazer uma reunião de amigos em casa. Isso é preguiça pura e de certa forma, é uma privação de um dos maiores prazeres da vida: o de dar carinho a quem amamos.
Na verdade, nossas high society das páginas semanais apenas repete ciclos históricos. Na Idade Média, quando as grandes fortunas das famílias então reais se formavam, havia a ostentação dos banquetes. que aliás eram associados ao verbo “encenar”. Sim, encenavam-se banquetes elaborados, com variedades gastronômicas exóticas e belas (que podiam, ocasionalmente, serem gostosas). Quem “estava podendo” servia iguarias que vindas de longe, o fino era servir tal coisa de tal lugar. Ainda, os banquetes proporcionavam experiências sensoriais com números musicais, cenários temáticos e listas de convidados vips. Qualquer jantarzinho envolvia algumas centenas de criados e outras várias centenas de convivas. Ai, como era bom gastar dinheiro!!!
Acredito que, seguindo o inexorável ciclo histórico, em algum tempo vamos redescobrir o receber vitoriano, doméstico mas litúrgico. Talvez, não mais tão rígido e detalhado, mas com a mesma idéia privada de sofisticação.
Aprendi a receber com o mestre dessa arte. O segredo do seu sucesso era o ponto de partida: você não recebe pensando no que é melhor para você, mas sim no que é melhor para seus convidados. Pressuponha que se alguém merece ser convidado para estar com você, é porque merece o melhor que a sua companhia pode oferecer.
Então, para faze uma ocasião especial, pense na inequívoca mensagem de que você quer que aquelas pessas estejam ali naquele momento, que você prestigia o fato de que elas estejam na sua vida.
Meu mestre me ensinou a pensar em coisas como, ao reunir amigos num bar ou restaurante, escolher um lugar onde todos pudessem ficar à vontade, onde houvesse espaço suficiente e opções de cardápio para todas as fomes e bolsos. Observar se o ambiente não é formal demais para algum dos convidados ou muito “descontraído” para outros. E mais, como é a música e a luz? Dá para as pessoas conversarem?
E me ensinou lições ainda mais preciosas, como sempre reservar um espaço no local, ou pelo menos uma mesa grande e combinar com alguns amigos mais próximos para que eles cheguem um pouco antes e você não corra o risco de ver seu espaço liberado pela gerência do estabelecimento. E me doutrinou a dedicar igual atenção a cada um dos convidados e apresentá-los um aos outros e a iniciar assuntos que permitam a participação de todos. Detalhista, como ele só, sempre cuidou de nunca, nunca mesmo, marcar algo num lugar que ainda não conhecesse. Uma última gentileza, inerente ao mundo moderno, escolhia lugares seguros para que seus convidados pudessem chegar e sair, fosse no próprio carro, fosse de táxi.

E quando recebia em em casa? Bom, o pior medo eram aquelas festas em que fica todo mundo sentadinho na sala, com cara de visita em casa de tia. Daí a necessidade de fazer as pessoas circularem. O truque: criar “caminhos de interesse”, por exemplo uma mesa de comindinhas longe do sofá, uma central de bebibas na bancada da cozinha. A festa ficava mais fluída e o grupo mais à vontade, além disso o espaço ficava maior e as pessoas interagiam melhor. Televisão ligada, nem pensar, melhor uma boa trilha sonora (em volume controlado para não atrapalhar a conversa). O que dava a cara de festa? A decoração, nem que fosse um simples vaso com flores naturais (ok, a decoração nunca era simples).

Chega, quem estou enganando? Eu escrevi esse texto dias atrás e não achei bom. E não acho que ele esteja melhor agora. Tudo isso é porque hoje eu deveria estar organizando uma festa para umas 50 pessoas. Uma festa de aniversário para comemorar o melhor dessa vida, das anteriores e das próximas. Uma festa temática cujo enredo, esse ano, seria o prazer do champagne. Durante anos esse foi o meu presente de aniversário perfeito: uma festa artesanal. Hoje essa festa está acontecendo num outro andar, e o tema, eu acho, é o prazer de ser eterno, como uma bolha de champagne.
Eu, hoje, mesmo sem festa, faço um brinde ao prazer de ter te conhecido e de ter sido convidado para a festa da tua vida.
Ainda e sempre, eu também.


Eu espero
Acontecimentos
Só que quando anoitece
É festa num outro apartamento
Todo amor
Vale o quanto brilha
E o meu brilhava
E brilha de jóia e de fantasia

E o meu erro foi crer
Que estar ao seu lado, bastaria
Ai meu Deus! Era tudo que eu queria
Eu dizia seu nome
Não me abandones jamais

quinta-feira, setembro 22, 2005

Depois do depois

Leitora assídua desse espaço me liga só para me xingar (como se eu precisasse, ou merecesse!). Argumenta que eu sou um monstro insensível, porque não bastasse a preocupação com a perda de colágeno na pele, agora ela vai ter de cuidar da alma.
Pois é amiga. A ignorância é libertadora.
Mas ela me xinga ainda mais. Diz que eu não posso saber o que sente uma pessoa que é obrigada a ver no espelho uma imagem que não é sua. O que é ser linda e jovem por dentro e ter que ver um exterior velho e feio (é óbvio que eu não sei! eu não sou lindo e jovem por dentro – só por fora, hahahahaha).
Parte em defesa das mulheres sem peito, das com muito peito, das que perderam um peito. Assume a defesa dos narizes tortos e das orelhas de abano. Resgata todos os traumas de infância possíveis e toda a discriminação que a velhice traz no mercado de trabalho.
Como tese final de seu discurso lança o argumento fatal: “tu nunca assistiu aqueles programas de transformação? Como aquilo muda a vida das pessoas?”
Ok, confesso. Eu assisto. Eu assisto vários. Eu sou louco por um antes e depois. Eu acompanho programas de transformação, sejam radicais, extremas, sejam programas de semanas para perda de peso. Eu assisto.
E me lembro do meu avô assistindo uma novela que ele achava muito imoral e dizendo que só asssitia para poder criticar com razão.
Então não posso perder esses programas. Vejam, eu me disponho a apresentar às pessoas novas opções visuais, a ajudá-las a ter uma nova imagem, ou melhor, a comunicar melhor a sua verdadeira imagem. Portanto, tenho o dever de estudar toda a oferta de transformações que a TV nos oferece. E tenho o dever de esclarecer, que a vida não é como na televisão.
O que mais me chama a atenção nessas transformações é que, em geral, a grande mudança se resume a um bom corte de cabelo, um pouco de maquiagem e uma roupa bem escolhida. Todo o resto é só o espetáculo da dor, do sangue e da publicidade das clínicas de operações plásticas. Mas então não sai mais barato, e menos dolorido, renovar o guarda roupa e ir ao salão de beleza uma vez por semana?
Mas a minha grande questão é realmente O QUE ACONTECE DEPOIS DO DEPOIS?
Tudo parece muito simples: abre-se uma porta e surge o “depois”, que não sabemos se é bonito ou não, mas que está realmente diferente do “antes”, e, supostamente, melhor. Sabemos que o “depois”, que não parece com o “antes”, parece muito com o “depois” da semana anterior, e aliás, parece muito com quaqluer “depois”, de qualquer programa, ou pelo menos tem o mesmo nariz.
E depois? E quando a criatura descobre que seus dentes super brancos ficaram super sensíveis ao quente e ao frio, e que suas maravilhosas jaquetas de porcelana não servem para morder uma maçã? E quando a transformada envelhecer e engordar e descobrir que a gordura vai deformar seu corpo por que a cicatriz da cirurgia vai ficar sempre mais funda?
E o que será que o “depois” dirá ao seus filhos quando esses se sentirem adotados?
Tô indo muito longe, né? Tá bom, vamos simplificar. E quando o “depois” tomar banho? E quando aquele cabelo repicado, escovado e brilhante for lavado em casa e secar ao vento? A coitada que antes tinha um cabelo comprido e reto, que na pior das hipóteses, pelo menos, podia ser preso, agora tem uma juba repicada e indomável, e que sua antiga amiga e cabeleireira jamais vai conseguir reproduzir.
Bom, depois do depois, vem também tudo aquilo que escrevi no outro dia. Quando o “depois” chega em casa e vai encontrar a sua vida de “antes”. E onde quer que vá, não importa o que estiver vestindo, o “depois” vai levar dentro de si toda a história de “antes”, goste dela ou não.
Concordo, e defendo, que todos nós temos direito, se não o dever, de enfrentar transformações, de buscar ser e ter o melhor de nós mesmos. Acredito, sim, que uma roupa nova pode mudar nosso dia, que uma cor pode mudar nosso humor, que uma escova pode dar cofiança. Mas acredito que tudo isso só funciona quando o interior também está na transformação. As transformações do exterior podem ser o primeiro passo para uma mudança de concepções. Mas prefiro que elas sejam o último.
Já disse outras vezes que trabalho a imagem como instrumento de comunicação pessoal, daí achar que a melhor imagem pessoal será sempre a que for mais honesta. Nada é mais ridículo, sim estou usando essa palavra mesmo, ridículo, do que alguém que mente com a própria imagem.
Um corte de cabelo pode ser a simbologia de uma ruptura em nossa vida. Pode ser o corte das amarras do passado e o passaporte para um futuro iluminado e com movimeto. Mas os cabelos não farão nada sozinhos. O corte de cabelo pode ser o passaporte, mas não é a passagem. E os cabelos crescem de novo.
Não era isso que eu pretendia com esse blog. A semana de moda de NY acabou e a de Londres já começou e eu não escrevi nada. O Emmy foi entregue, os vestidos estavam ótimos, e eu, nada. Calma, tão logo eu encontre a luz, correrei para ela tal qual Caroline em Poltergeist.
Mas insisto, as almas também ficam secas, enrugadas e sem brilho. Algumas ficam flácidas, outras ficam muito pequenas em relação ao corpo. Almas adquirem cicatrizes, ganham peso e ficam pesadas. Ou viram anoréxicas e não absorvem mais nada. Outras simplesmente envelhecem. Mas só elas sabem o que realmente acontece depois.

terça-feira, setembro 20, 2005

Pessoas que tanto amo, e que muitas sequer conheço.
Ainda não encontrei o botox da alma. Mas minhas pesquisas indicam que os médicos recomendam a proteção solar para evitar o envelhecimento da pele. Então, concluo que o carinho dos amigos é o protetor solar da alma.
Desculpem, eu sou muito orgulhoso e prepotente para pedir ajuda.
Mas é que, apesar de saber a importânica do protetor solar, eu nunca adquiri o hábito de usá-lo, nem mesmo enquanto o sol brilhava., agora que o tempo fechou, ficou ainda mais difícil.

Tudo azul
No céu desbotado
E a alma lavada
Sem ter onde secar
Eu corro
Eu berro
Nem dopante me dopa
A vida me endoida

Eu mereço um lugar ao sol
Mereço
Ganhar pra ser
Carente profissional
...Frejat/Cazuza

sexta-feira, setembro 16, 2005

Marca de amor não sai

- Oi, tá ocupado?
- Bom, tô saindo pra uma reunião. É importante?
- Muito. Eu quero, sei lá, fazer alguma coisa...dar uma levantada no visual.
- Quer fazer compras pro verão?
- Também, mas eu queria mesmo era fazer uma plástica.
- A história do silicone de novo?
- Não!!!! É o meu rosto. Tô com essa marca do lado da boca muito funda. Fui numa médica.
- E daí, o que ela disse?
- Que eu não preciso de plástica. No máximo um preenchimento ou um laser.
- Acho que não vale à pena.
- Mas eu já tenho mais de trinta!!! Quero salvar antes que caia tudo.
- Mas tu não precisa. Tu tá ótima pra tua idade.
- Não interessa. Abre teu e-mail e depois me liga.
- Tá, mas agora eu tenho a reunião.
- Certo, então me liga mais tarde.

Vou para a reunião e na volta abro o e-mail. Descubro uma lista de 20 procedimentos para o rosto. Não conheço 5 deles. Pessoalmente, faria uma “microdermoabrasão com diamantes”. Não sei se eu preciso, mas achei muito chique.
Sou, é claro, a favor da estética. Acredito num mundo melhor. Acredito em gente bonita. Adoro gente feliz. Mas odeio medicina estética. Odeio as fontes químicas da juventude. Odeio prolongamentos artificiais, sejam de cabelos, sejam de fases da vida, sejam da vida ela mesma.
Nossa geração é definida como hedonista, como cultuadora da perfeição corporal e da juventude eterna e a qualquer preço. E tem gente que acredita mesmo nisso.
Acho tudo meio neurotizado. Acredito que não envelhecemos em anos, mas sim em blocos. Fisicamente não há muita difrença entre estar com 27 e 34. Mudamos de 20 para 30, mas não de 29 para 31. De repente somos todos pitagóricos convictos, e definmos nossa existência em números. Como se simplesmente no dia de nosso aniversário nossa bunda caísse e surgissem todas as rugas de uma só vez.
O pior de tudo, é que uma pessoa de 40 anos com várias injeções de toxina NÃO parece uma pessoa de 30.Parece uma pessoa de 40 com botox!!!! E quanto mais o tempo passa, pior fica. Aos 60 uma plástica não vai fazer você parecer mais jovem, vai fazer você parecer uma pessoa velha que fez plástica, e talvez alguém pense que você tem 70 e fez plástica.
Narizes, rugas, gorduras, fazem da gente aquilo que somos, pelo que nossos pais nos deram, e pelo que vivemos. São marcas de nossa história pessoal, de nossa passagem, são os sinais, não do tempo, mas do nosso próprio tempo. Não me parece lícito apagar o que a vida nos deu. A plástica é uma lavagem cerebral de fora para dentro? Será que isso funciona? Será que dá pra lipospirar tudo que fizemos de errado? Tudo o que sofremos? Será que toda a ansiedade que nos fez comer tanto vai embora pelas cânulas?
Ou será que a plástica nos devolve o tempo? A recauchutagem nos permite viver tudo outra vez? Será que tirar as rugas que fizemos de tanto rir nos dá a chance de rir de novamente? Ou nos devolvem as horas que passamos no sol olhando o mar? A plástica vai nos devolver as melhores férias da nossa vida?
Eu já tive 10 anos. Tomava sol ao meio dia usando bronzeador. Comia coisas que não tinham prazo de validade impresso na embalagem.
Já tive 15. Era nerd. Tinha espinhas. Lia Freud e ouvia Bach. Não fazia esportes, mas eu comia muitas frutas.
Já tive 20 anos. Estudava 10 horas por dia. Saía todas as noites, mas bebia pouco. Transava muito e beijava ainda mais. Fazia sexo por antropologia. Dormia pouco e dirigia muito rápido.
Eu já fiz 30. Eu nunca plantei um árvore, mas cuido das floreiras da minha mãe. Eu não tenho filhos, nem quero ter, mas ajudei a criar o Nene e o Zuzu, as crianças mais incríveis do mundo. Eu não escrevi um livro, mas já publiquei contos e poesias. Eu já vivi meu grande amor do tipo felizes para sempre. Amor incondicional. Eu fui casado por 10 anos, e não perdi nenhum dia “de mal”. Eu ainda uso minha aliança. Eu nunca “dei um tempo”, eu discuti a relação até amanhecer nos primeiros dois anos. Eu disse todos os “eu te amo” que tive vontade, mesmo que a vontade fosse no meio da noite. E eu ouvi todos os “eu te amo” que precisava.
Eu tenho 30. Eu moro com meus pais, mas agora vou comprar um apartamento para os finais de semana. Eu já gastei um apartamento em viagens e outro em roupas e sapatos, mas eu amo NovaYorque, Londres, Paris. Eu já fui feliz em Buenos Aires (meu melhor reveillon), São Paulo e no Rio de Janeiro (as melhores férias). Eu adoro Gramado e odeio o Nordeste. Eu amo fazer compras. Na Louis Vuitton e no mercado da esquina. Eu adoro dar presentes.
Eu gasto, eu pago meus impostos. Eu gero empregos, eu faço a economia mundial girar. Mas eu não sou politicamente correto ou engajado. Eu não sou ecologicamente sustentável. Eu uso peles naturais e como coisas transgênicas. Eu deixo a torneira aberta, mas eu separo o lixo reciclável.
Eu vou fazer 31. Meu nariz é igual ao do meu pai, e ao do meu avô.
Eu não tenho nenhuma ruga, minha pele é oleosa e minha carga genética é boa. Tenho uma mancha na mão, fruto de uma queimadura com óleo quente. Prova de um amor doméstico que fazia o almoço correndo.
Esse ano eu perdi 20 quilos, que tinha ganho em 3 anos de musculção e 2 de curtição gastronômica. Enjoei da comida. Minhas roupas prediletas não servem mais.
Meu corpo nunca esteve tão dentro dos padrões. Eu recebo cantadas. Sou um homem de trinta, com dinheiro, cabelos, e sem barriga!!! Eu tenho um bom papo e sei até dançar... Agora eu uso barba, e meu ohar está carente. Mas eu quero ficar sozinho.
Eu não quero comprar roupas novas. Eu não quero ter de me vestir depois de fazer sexo. Eu não quero beijar bocas que eu não sei o que jantaram. Eu não quero menos do que eu já tive. Eu não acredito que eu possa ter mais. Eu só quero a minha vida como ela estava poucos meses trás.
- Oi, li teu e-mail. Acho que o melhor é o laser. Sabe, eu também preciso fazer alguma coisa, levantar...Preciso de botox , botox para a alma.




Ela é linda. Ela não tem mais 20. Ela ainda não tem 40 (?). Ela não tem rugas. Ela nem tem expressão.Ela é feliz? Ela tinha uma carreira de segunda. E um casamento que acabou. Ela teve romances estranhos. O ex-marido está noivo



Será que ela sofre? Ou já sofreu? Será que ela tem lembranças? Será que ela lembra dela mesma? Será que ela conseguiu esquecer?

domingo, setembro 11, 2005

Tem japonesa no samba

Eu adoro a Gisele Bündchen.
Não, não cheguei atrasado. Sei que Gisele já deixou de ser assunto há pelo menos três anos. Mas eu a adoro mesmo assim. Mas adoro por duas razões específicas. Claro que reconheço nela todos os atributos já difundidos, de beleza, verstailidade, postura, efim tudo aquilo que fez delaum novo conceito fashion: uma über model.
Porém, há duas razões pelas quais acho que ela merece ter seu nome gravado no Olimpo da moda, se é que ele existe. Uma razão filosófica. Outra estética.
Filosoficamente, Gisele é um ícone da ontologia, da ciência do ser enquanto ser, considerado em si mesmo, independente do modo pelo qual se manifesta. Gisele Bündchen não É uma super modelo. Ela TRABALHA como uma super modelo. Tudo o que sei sobre Gisele, o ser, é que ela tem uma família cheia de irmãs, namora um ator e tem uma cachorra. Não sei quantos vestidos ela tem. Não sei que xampu ela usa. Não sei quantas toalhas brancas ela exige em seu camarim. Mas sei que ela trata uma campanha de creme hidrante com a mesma seriedade que trata um contrato de exclusividade com uma das maiores grifes do planeta. Sei que ela desfila para uma grife nacional com o mesmo trote dos salões de alta-costura de Paris. Nunca ouvi que ela tenha se recusado a fotografar – profissionalmente - com quem quer que seja. Nunca soube que ela tenha bradejado em qualquer lugar: “Mas eu sou a Gisele Bündchen!”
Li, certa feita, uma entrevista na Vogue sobre o fenômemo das super tops dos anos 90, Naomi, Linda, Cindy, Claudia... Foram elas as protagonistas do lançamento dessa nova carreira. Seu sucesso foi atribuído ao seu envolvimento no processo de moda como um todo. Mais do que modelos, elas foram agentes de um novo conceito de fashion que se firmava. Não apenas nas passarelas e fotos eram modelos, mas também fora delas respiravem moda e estilo. Conheciam e firmavam laços de convivência com fotográfos, estilistas, fashionistas. Jamais eram vistas desarrumadas, desmontadas, descaracterizadas. E como o poder é a forma mais pura de vaidade, as poderosas tops perderam sua condição humana e viraram divas. Passaram a SER aquilo que faziam.
Gisele, ao que tudo indica, não se prestou a virar diva. Preferiu continuar sendo ela mesma, independente da sua personagem profissional. Ela, enquanto trabalha, personifica a über model, mas quando as luzes do estúdio se apagam, temos apenas um ser humano, com seus vícios e virtudes e que não quer atrair para si nenhum interesse coletivo. A Gisele depois do expediente não nos pertence, não se submete a nossas críticas, não nos deve satisfações. E isso é maravilhoso! Nesse ponto, Gisele é, para mim, um modelo.
A razão estética de minha admiração, caso se possa ter apenas uma razão estética para admirar Gisele, é o cabelo. Sim, aquela juba bicolor e desgrenhada, que parece estar sempre caminhando à beira mar.
Primeiro, Gisele não é loira, pelo menos não é loira platinada. Isso, por si só, já seria suficiente para torná-la única. Ela venceu, ela resistiu, Gisele não cedeu à tentação do loiro dinamarquês. Aliás, dá pra acreditar que a cor dela é “natural”. Mesmo com o efeito “sun kissed” que deixa as pontas mais claras, como se tivessem sido queimadas pelo sol. Na Califórnia, o efeito é chamad “Brazilian Lights”.
Segundo, Gisele conseguiu acabar com o império da chapinha. Eu não tenho nada contra cabelos lisos, acho que eles são mais elegantes, refletem melhor a luz alongam a silhueta e emagrecem. Mas o cabelo alisado com chapinha tem um efeito perverso: envelhece e deixa qualquer mulher bochechuda. E ainda pode transformar um nariz marcante em um nariz de bruxa má.
Deixa eu explicar que não admito cabelos naturais. Acho que o cabelo do tipo lava e sai é uma lenda urbana. Sem falar na voz da minha mãe que fica latente na minha cabeça: mulher honesta não sai na rua de cabelo molhado, isso é coisa de quem sai de motel. Para mim secador de cabelo é artigo de higiene pessoal, que nem escova de dentes.
Mas a chapinha é outra história. O cabelo fica sem movimento, colado na cabeça. A tal “moldura do rosto”, vira um nadinha, deixando a descoberto todos os defeitos da criatura. Na falta de cabelo, nossos olhos vão à procura de qualquer outra coisa, até mesmo de um pé-de-galinha. O cabelo chapado só funciona para quem tem cabelos repicados, e mesmo assim precisa marcar as pontas com cera. Outra possibilidade é o cabelo bem liso com franja reta. Mas isso só funciona para índias e mulheres com menos de 25 anos. Nenhuma mulher que já tenha se aproximado dos 30, nenhuma mesmo, fica bem de franja reta. Ah, mas a Rita Lee usa!!! Tá, mas Rita Lee é, ou era, sei lá, Rita Lee.
Então Gisele, que tem bochechas e nariz bem “definidos”, tão logo adquiriu um rosto adulto, soltou um cabelo escovado com as pontas irregularmente enroladas. Tem volume, mas a ponto de alterar a proporção do corpo; tem balanço e movimento, mas não dá pra passar a mão, porque estraga; parece bem natural, mas é inegavelmente elaborado. Enfim, tudo o que um cabelo precisa ter. E com a vantagem de ser mais resistente ao vento e à umidade do que uma chapinha, sem ficar com cara de cabelo amanhecido.
Profissionais do ramo dizem se tratar de uma releitura do antigo cabelo das misses, escovado e depois enrolado com rolos grandes. O cabelo da Gisele (o penteado não tem nome técnico próprio, é chamado assim mesmo: cabelo da Gisele) é trabalhoso, requer ser lavado, escovado com mousse, quiçá chapado, e depois modelado com babyliss em três diferentes larguras, por fim, pomada e uma leve ajeitada com os dedos. O processo completo, num cabelo comprido, pode levar mais de duas horas.
Toda essa coversa, como resposta a uma querida que, desavisada, perguntou minha opinião sobre o alisamento japonês. Ora, ora, o alisamento é JAPONÊS, ou seja, não dá certo para quem não tem cabelo oriental, porque a raiz fica ridícula em vinte dias, porque o cabelo ocidental é mais fino do que o oriental e depois do alisamento fica com textura de cabelo de múmia, porque a gente percebe de longe que o cabelo tem química, porque a pessoa fica definitivamente bochechuda, nariguda e velha.
Conheço umas 50 mulheres e uns 4 homens (!) que se submeteram ao processo, destes, só 15 mulheres repetiram o processo. O restante? Escolheram cortes radicais ou estão com o cabelo preso há meses.
Meu único medo é a Cléo Pires virar a nova sobrinha do Brasil e todas as mulheres resolverem ter o cabelo liso que ela herdou da mãe. Mas atenção: o cabelo da Cléo se mexe, já o cabelo com chapinha japonesa...


Nem pra ela dá certo!!!!

terça-feira, setembro 06, 2005

Another town, another train

O comqueroupa faz as malas e inicia sua temporada portenha.
Explico. Fui contactado para uma missão de relevante caráter para a estabilidade do Mercosul: elaborar um guarda-roupa básico para um feriado em Buenos Aires de um casal na faixa dos 30 anos. Missão cumprida e com prazer. Buenos Aires está entre as cidades do mundo que eu chamo de minhas. Adoro o ritmo da cidade, seus horários, e aquela nostalgia dos bons tempos – inclusive dos meus-.
Buenos Aires tem um segredo, um detalhe que faz a mais profunda diferença e que a deixa mais próxima de Paris do que qualquer outra cidade fora da Europa: guardanapos de tecido. Um carinho que a maioria dos restaurantes nos faz. Mesmo os arriscados tenedores libres (o nosso buffet bastantão) nos esperam com mesas postas, com taças e guardanapos de tecido cuidadosamente dobrados.
Outra peculiaridade de Buenos Aires: os homens se vestem melhor que as mulheres. E um fato incrível, talvez merecedor de estudos sociológicos: os hetéros se vestem melhor que os gays.
Mas em geral todos se vestem bem. Os mais velhos continuam usando os clássicos dos anos dourados. Os mais jovens saíram do catálogo da Puma.
Então o turista precisa corresponder à atmosfera de Buenos Aires. A cidade merece e você merece ter um figurino para entrar no clima e sair da rotina.
Vamos combinar que não importa o que você fizer ou usar, o quanto você estudar e se preparar, você vai continuar sendo um turista. Mas não custa tentar. E, em especial, ninguém vai se dar ao trabalho de enfrentar aereoporto em feriadão para chegar lá e pagar mico, né?
Sei, sei, o importante é que as roupas sejam confortáveis, não sujem, não amassem. Mas tá bom, então leve só aquele tênis super absorvente de impacto, com quatro cores metálicas e 57 molas de brilham do escuro que fica super confortável com aquela bermuda de moletom e e aquela camisa estampada que disfarça até mancha de mostarda. Daí, depois de uma tarde inteira caminhando em parques e feiras você está na frente daquele hotel que o seu guia diz que tem a melhor happy hour da cidade. E aí, vai encarar ou vai até o hotel tomar um banho e só chegar no bar na hora do jantar?
E a senhora? Vai entrar naquela loja bacanérrima que você achou por acaso usando seu tênis de ginástica, uma calça de suplex e uma camisetinha???? Claro que vai, você já viu Uma linda mulher 20 vezes a adora a cena em que ela é humilhada na Rodeo Drive. Faça melhor, vá pro hotel, tome um banho troque de roupa e volte, além de conhecer a loja que ficou aberta lhe esperando, você vai se tornar a primeira pessoa que eu conheço que consegue achar a mesma loja de novo numa viagem.
Ninguém precisa passar por isso. Hoje tudo ficou mais fácil. Primeiro porque com a tal globalização a idéia de moda ficou universal e a comunicação visal urbana básica é a mesma em qualque lugar o planeta. Segundo, com a variedade de sites de previsão do tempo você pode levar bem menos roupas para imprevistos.
Mas o que levar afinal? Para quatro dias, com tempo seco e temperatura média de 21ºC, montei a seguinte mala feminina, cheia de espaço para compras:
- Para o dia, inclusive para o vôo de ida e volta:
01 calça de gabardine caqui
01 vestido tipo chemisier jeans
01 casaqueto ou jaqueta tipo bomber de veludo ou tweed, de qualquer cor
03 blusas lisas em cores básicas
01 malha em tom pastel
01 sapato de couro tipo sapatilha ou salto baixo marrom, ou, se for mais a sua, um par de tênis street branco
01 bolsa de couro, da melhor qualidade possível, macia e de tamanho médio para grande
- Para a noite:
01 vestido preferido de cor escura, comprimento médio e tecido de qualidade (ok, pode ser o pretinho básico)
01 calça preta predileta, ou aquela calça jeans super justa que você pagou uma fortuna
01 blusa de tecido fluído, com tudo que vc tem direito: rendas, bordados, pedrarias
01 a mesma jaqueta que vc usa de dia
01 aquele sapato ma-ra-vi-lho-so que vc sabe que é comôdo e estava esperando uma ocasião para usar
01 aquela bolsa pequena combinando
- Coisinhas que podem fazer toda a diferença:
01 echarpe tipo pashimina
01 broche de lapela, ou uma flor
01 belo par de óclos escuros
01 chapéu, boina ou boné.
- Mais roupa íntima

Para a mala masculina:
01 calça tipo cargo ou chino
04 camisetas (brancas, pretas e cinzas)
01 camisa jeans
01 malha (azul-marinho, vermelha ou preta)
01 jaqueta ou colete (jeans, couro, veludo ou nylon)
01 sapato abotinado marrom, ou um tênis de couro
- Para a noite (teatros, restaurantes estrelados):
01 calça reta preta
01 camisa branca
01 sapato preto
01 blazer de couro ou veludo
- Para noite (bares, restaurantes em geral, boates)
01 calça jeans moderna
01 camisa branca
01 camiseta com estampa
01 tênis street de couro
- Coisas que pode fazer a diferença:
01 gravata preta
01 bolsa tipo carteiro
01 par de óculos escuros
01 camisa preta
- Roupa íntima

Acreditem, é o suficiente. No caso de um imprevisto, como uma traça gigante atacar sua mala, ou você esquecê-la aberta embaixo do chuveiro, você ainda pode recorrer ao coméricio local. E realmente, ao contrário da crença popular, a mala do homem precisa de mais coisas que a feminina, porque as combinações são menos versáteis. Além disso o dress code masculino é menos flexível.
Admito que não sigo exatamente esse esquema. Geralmente a única coisa que levo em minha mala é outra mala vazia para poder trazê-la cheia. Roupas, levo o mínimo possível, apenas o necessário para chegar,tomar um banho, me trocar e ir às compras. Mas isso é um problema meu, e do meu psiquiatra.

sexta-feira, setembro 02, 2005

América

Não sou um grande noveleiro. Faz muito tempo que eu não acompaho nenhuma. Mas às vezes assisto um pedaço de América.
A primeria coisa que me chama a atenção em novela é a síndrome de Minie Mouse. A pessoa está sempre com a mesma roupa, ainda que de cores diferentes. Fico imaginando o guarda-roupa de personagem de novela: tudo do mesmo e único estilo. A criatura acorda todo dia com o mesmo humor e com a mesma vontade de ser exatamente ela mesma. As glamourosas o são até depois de um pé na bunda. As sensuais são ousadas até quando vão levar os filhos na escola. Os executivos nunca usam um camiseta, nem nos finais de semana.
Outra coisa que eu adoro: as cinderelas. Sim, sim,a persaonagem pobrinha que do dia para noite descobre Givenchy na sua vida e vira uma lady. Num toque de mágica ela aprende a se vestir, a se comportar, a sentar, a usar uma bolsa de mão!!! E agora temos também a anti-cinderela, que num ato desvairado deixa de ser um catálogo ambulante da Forum e vira uma cachorra preparada, conseguindo inclusive achar a última calça da Gang não vendida para o Domingo Legal.
E a mais absurda: quem diabos é o arquiteto das casas de novela? Fico horas tentando imaginar como são os edifícios globais. Como apartamentos podem ter tantas janelas em lugares absurdos. Onde ficam os corredores do prédio? Onde fica o elevador? Se a porta da frente fica do lado de uma janela, onde fica o acesso ao apartamento? E vou sempre me lembrar de meu mentor estético me perguntando: por que os sofás de novela sempre ficam no meio da sala, e nunca encostados nas paredes como nas nossas casas? E quem sai de casa e deixa os abajures ligados para quando voltar? Aliás, quem, na vida real, tem tantos abajures em casa???
Mas tenho uma dúvida ainda maior: existirá, no mundo da teledramaturgia, algo mais brega do que novela da Glória Perez? Eu sei que tem aquele outro autor que faz as novelas sem camisa, mas o problema é que a Glória Perez sempre tenta fazer um núcleo podre de rico/chique, e daí é a coisa fica realmente brega.
Brega, especialmente porque sempre over, sempre caricata e inadequada. Brega porque associa a idéia de que as pessoas precisam ser absurdamente ricas para serem chiques. E brega porque ninguém com aquele corte de cabelo pode fazer algo chique.
Vejamos minha predileta: a Haydé, personagem de Cristiane Torloni. Ela definitivamente é chique, bem vestida, bem escovada. O figurino escolhido valoriza o corpo e o porte da atriz. A escolha da proporção triangular a deixa muito aristocrática. Os ombros são valorizados, o quadril é estreito e as pernas longas. Embora essa seja uma proporção masculina, tudo é compensado pela escolha de roupas ultra-femininas e impecavelmente cortadas. Os tecidos são preciosos, os acessórios são perfeitos, as jóias são soberbas. Mas então por que não dá certo? Porque é completamente inadequado. Haydé parece sempre vestida para um coquetel, para um jantar formal, mas nunca para a realidade, nem mesmo para a realidade da ficção.
Lembro de uma cena à beira-mar, com pedras e areia. Lá estava a linda Haydé com um vestido de shantung bege, uma longa pashimina na mesma cor, e bolsa e sandálias de salto agulha forradas de cetim. Coordenando tudo, é claro, com jóias em ouro amarelo e pérolas. Mas a novela se passa no Rio de Janeiro!!! Ninguém assaltou a perua? Ela nem ia poder sair correndo, quer porque o vestido era muito justo, quer porque não dá pra correr na areia de salto agulha!!! Deixa eu fazer uma denúncia, porque alguém deve ter enviado o rascunho desse texto para a Globo, já que no último capítulo que assisti Haydé estava usando um plausível terninho de oxford.
Preciso fazer um último comentário. Não sei quantos anos a Cléo Pires tem. Mas se ela ainda for menor de idade, é dever dos pais delas, que aliás são artistas experientes, procurarem imediatamente um advogado e processar a diretora de figurino pelo que ela está fazendo com a sua filha. A pobre menina deve ter assinado uma cláusula contratual que a proíbe de aparecer na tela com mais de 1,30m. Por que todas as roupinhas dela são de malha? Por que tudo é escolhido para deixar a menina mais baixinha e gorducha??? E o pior é que ela não é gorducha, só herdou o corpo da mãe.
Bom, o Bruno Gagliasso deve ter assinado a mesma cláusula. E enquanto ele não decide o que fazer com suas cuecas, podia ao menos comprar uma camiseta com mangas e tapar aqueles bracinhos fofos.
Ainda em tempo, alguém, por favor, avisa para a personagem da Cissa Guimarães que os anos noventa acabaram, e que ninguém mais usa aquele cabelo de entendida e muito menos aquele colar de fio de nylon com “ponto de luz”.
Pensando bem, eu sempre achei que não assistia mais novelas por causa da minha dificuldade em assumir horários fixos na minha vida, mas na verdade acho que não assisto mais porque meu senso estético anda muito sensível. Quem sabe as cenas do próximo capítulo não tragam algo melhor.