quarta-feira, novembro 30, 2005

Covers on a dance floor


Tenho jeito não meu povo.
Preciso atender meus leitores formandos que já sabem o que usar no grande dia, mas agora me escrevem para saber o que usar na missa. Eu tenho as minhas observações sobre as mulheres “maduras”, que vão render três textos. Tudo alinhavado. Como o raio não perdoa, tenho até uns diálogos da fila.
Amanhã tenho uma audiência às 8:20 da madrugada, processo VIP, trouxe para estudar em casa. Aliás, no quesito trabalho, essa semana está, digamos, meio negligenciada. Não sei se é o calor, mas alguma coisa ta meio amarrada nos últimos dias. E ainda tem o aniversário do meu pai. Vamos receber em casa, como sempre, e eu vou cozinhar. A gente recebe só amigos e família, todo mundo de casa, tudo simples. Mas receber aqui em casa é assunto levado a sério. A gente gosta de gente feliz.
Mas hoje eu estou especialmente disperso. A tal ponto que saí no meio da tarde para comprar taças de coquetel, caso eu resolva servi-los na sexta-feira. Estava pensando em Cosmopolitans, que a minha mãe gosta. Tão Sexy&city. E agora, ao invés de estudar o tal processo, fiquei ouvindo música e escolhendo um terno para usar amanhã. Daí me deu uma coisa meio MTV, e eu resolvi bancar o crítico musical. Não, não, não mudem de blog. Eu não troquei de ramo (se é que eu tenho ramo), mas sabe como é, deu vontade.
A questão é a seguinte, faz mais de duas semanas que eu escuto o novo da Madonna. Confessions on a dance floor. Em casa, no carro, no trabalho. E acabei cheio de opiniões. Tudo bem, Madonna não é mais uma questão musical. Eu não a encaro assim. Madonna pra mim é fenômeno de cultura. Mesmo que a gente não goste da música precisa conhecer o disco. Então, lá vai.

Confessions on a dance floor é um disco, no máximo, mediano. E mesmo assim não dá para parar de escutar. Madonna. É isso o que ela faz. COADF, me parece, já nasce pronto para seu próximo passo, o álbum todo pode ser remixado. E confesso, mal posso esperar, já que para mim ele ainda soa meio lento para dançar. Ok, eu sei que eu não tenho mais pique para dançar um álbum inteiro da Madonna, nem mesmo o Something to remember. Mas deixa eu pensar que eu conseguiria se COADF fosse um pouco mais batido.
Já andei lendo que o álbum é uma colcha de retalhos em que Madge plagiou todo mundo, inclusive ela mesma. Não acho. Não é bem isso. Para mim COADF é um disco de covers.
Já que vocês leram até aqui, vou abusar da sorte e defender a tese do cover, faixa a faixa. E ainda dar umas dicas de dança. Depois disso vou pegar os classificados e procurar ajuda médica.

1 – Hung up
No primeiro dia, eu estava convencido de que era a melhor faixa do CD. Cover do ABBA, com sample de GimmeGimme e tudo. E é bem ABBA mesmo, é muito brega, mas não dá pra ficar parado. Mas depois de uns dias começa a ficar meio chata.
Já ta pronta para ser traduzida e gravada por qualquer banda de aspirantes a capa da playboy. É daquelas de dançar fazendo coreografia com os braços e coordenando com a cabeça.

2- Get Together
Dessa eu gosto. Parece Missing do Everything but the girl, verão 2005. Tem até aquela batidinha de fundo perfeita para gogo-boy de boate gay. Para enquadrar o quadril e dançar com os ombros.

3- Sorry
O refrão gruda. Eu fico cantarolando o dia inteiro. Mas é cover do Lasgo, ou de qualquer coisa que tocasse na Jovem Pan por volta de 2001.

4- Future lovers
I feel love. Donna Summer. Ray of Light, Madonna. Para dançar de quadril encaixado e braços para cima.

5- I love New York
Cover de Austin Powers. Beautiful stranger com rap de loira. Shag me baby. Braços soltos ao longo do corpo. Controle o movimento da pélvis a partir do umbigo.

6 – Let it will be
Let it be. Pode pular essa. Ta, escuta o comecinho que é pra lembrar de Papa don´t preach.

7 – Forbidden love
Meio pesada. Parece alguma coisa que eu ouvia nos 80, mas não identifico. Meio cover de PetShopBoys com lexotan. Para ouvir no lounge.

8 – Jump
Pianinho de churrascaria e na seqüência mais Pet Shop Boys, sem lexotan, mas ainda longe do prozac. Pra dançar meio bêbado. Corpo parado, mexa só a cabeça. Mas o refrão é cover do Gorillaz.

9- How High
Cover da Kylie Minogue. Dá para fazer coreografia completa, dança do robô e tudo.

10 – Isaac
Sabe por que essa foi a primeira música da gerar polêmica nos jornais, dizendo que Madonna estava ofendendo a cabala? Porque a música é MUITO CHATA, e precisava de um pouco de mídia para justificar sua existência no CD. Madonna é isso. Algum talento e muita transpiração. Em marketing ninguém ganha dela. Maria Rita é uma amadora.
Mesmo assim, parece cover da Shakira.

11 – Push
Cover da Jennifer Lopez, é só regravar. Com sample brinde do Every Breath you take, do Police. Para coreografar todinha.

12 – Like it or not
Talvez seja a melhor do CD. Madonna fazendo cover dela mesma. You give me fever. Fever, da Peggy Lee, que, afinal, poderia ter sido gravada desde o original por ela. Prontinho para virar apresentação ao vivo no VMA. A gente pode dançar fazendo caras e bocas, agarrado no poste.

Sem falar no visual da diva, que como a Ale já matou, é cover da Olívia Newton John. Xanadu. A place where nobody dares to go.

terça-feira, novembro 29, 2005

Formandos e convidados. Derretendo com classe


Antes que eu seja demitido do mundo da moda. Vestidos para formatura.
Já estamos no fim de novembro. Falta pouco mais de um mês para a temporada de formaturas. E com a quantidade de faculdades que estão sendo abertas por anos, e na mesma proporção a quantidade de cursos criados, a temporada promete.
De cara, acho um grande sacanagem essa coisa de formatura em janeiro. Quem é agüenta tanta produção num calor de quase quarenta graus? Mas paciência. Não é culpa nossa. Eu, pessoalmente, fiz a minha parte. Formei-me um semestre antes, em pleno agosto, um friozinho gostoso. Minhas avós, muito faceiras, arejaram os casacos de pele. A materna, mais faceira ainda, usou uma daquelas estolas de raposa, com zóinho de cristal e tudo. Ai que meda.
Bom, você não teve essa delicadeza com sua família e não fez doze cadeiras por semestre e agora vai se formar no meio do inferno tropical. Agüenta, não vai dar pra ir pelado. Então, vamos descobrir com que roupa.
Teoricamente, formatura é uma ocasião informal, no máximo auto-esporte. Mas ninguém liga para isso. Eu não sei exatamente onde foi que a coisa se perdeu, mas se perdeu totalmente. Minha melhor hipótese é o medo de que os filhos não casem. É, antigamente, antes mesmo do meu tempo, era natural que os filhos casassem. Aliás, era mais comum casar do que fazer faculdade. Então as famílias tinham essa oportunidade de fazerem uma grande festa, chamar todos os parentes, amigos, conhecidos. Contratar buffet, garçom, mandar fazer vestido. Era assim que funcionava, as famílias se reuniam para casamentos e para enterros.
Nossa geração quase acabou com a oportunidade do casamento. Não discuto. É bem razoável. Afinal a gente acaba descobrindo que a festa do casamento pode custar mais do que um carro novo, ou que a entrada de um apartamento.
Mas, a família sente falta. E pelo jeito transferiu tudo para a formatura. Formatura, hoje, é mega-evento. Exige figurino à altura.
Então, não adianta eu ficar aqui dizendo que é ridículo você ir de vestido longo, e seus convidados meterem um terno e gravata no meio de janeiro. Não tem mais jeito, agora é assim que funciona.
Na verdade, tem uma chance, caso você se forme e depois faça uma festa simples, só sua. Mas se tiver no convite a menção que depois tem baile, daí danou-se, o povo se empolga e dê-lhe pedraria.
Portanto, formandas, liberou geral, podem usar vestido longo, com fenda, saia esvoaçante, bordado, tomara-que-caia, modelo exclusivo, de alta-costura. Não tem limite. Amigo formando, você está lascado. Vai usar terno escuro, camisa branca e gravata de boa qualidade, sapato amarrado de solado de couro. Inventou de se formar em janeiro? Agora agüenta.
Mas isso é o que você vai usar na festa. Na cerimônia, geralmente se usa a toga. Então, vamos a algumas dicas. A toga é uma roupa larga, sem forma, e preta. Na cintura tem uma faixa larga, colorida e brilhosa. No lugar do pescoço, você terá um colarinho branco e muito, muito babadinho. Entendeu? Eu desenho: é roupa de gorda. Deixa qualquer um gordo. E é muito quente. Ainda mais quando você soma que vai usá-la sob luzes especiais para as fotos e vídeo. A toga quase sempre é de viscose, tecido ordinário, que além de quente, marca tudo. Portanto, por baixo da toga use o menos possível. É não dá para usar o seu vestido, muito menos um terno. Mulheres, usem meia calça e combinação. Homens, usem calça comprida – PRETA- e camiseta. E ambos, sapato e meia PRETOS. Não, não tente dar um toque pessoal, não queira se destacar, a única coisa que você vai conseguir é estragar as fotos de todo mundo.
Sandália pode? Até pode, mas fica esquisito. Você toda tapada com o pé quase de fora. Dá um desequilíbrio.
Se aparecer é o seu destino, você não aguenta, nem se controla. Invista num belo brinco.
Homens, sugiro não usar relógio, pela mesma razão de não usar camisa: o punho aparecendo chama muito a atenção.
Quando for provar a toga, marque a bainha pelo meio da canela. É um comprimento ingrato, mas dá certo com qualquer sapato PRETO que você queira usar. E nos caso dos homens, deixa parecer a porção correta da calça PRETA que você vai usar (com sapato social e meia PRETOS).
E mais, sabe o capelo? Aquele chapeuzinho ridículo cheio de pluminhas? Pois é, você vai ter de caminhar com ele do reitor até o seu lugar. Então, lembre-se disso quando for escolher seu penteado. Portanto, um coque no alto da cabeça é uma péssima escolha, porque o capelo vai cair e você vai pagar mico. Falando em penteado, e junto maquiagem, é bom testar tudo uma semana antes, caso vá fazer algo diferente. Também é bom lembrar que você pode ser surpreendida no dia com um calor mais forte ou com chuva, e aquele cabelo lindo e liso ficar parecendo uma espiga de milho. Evidentemente, uma data tão importante não é a melhor ocasião para testar um novo visual, como um novo corte, uma nova tintura. Afinal, de cerro ou não, você vai ter que comparecer na sua própria formatura. E também não esqueça que você vai ser filmada e fotografada como se estivesse na ilha de Caras, portanto informe isso para o maquiador. Os doutos formandos, que larguem não de ser tão machos e cogitem a hipótese de passar um pouco, um POUCO, de pó compacto, só para tirar o brilho do nariz e da testa nas fotos. E já que a ocasião merece, uma limpeza de pele uma semana antes é uma bela idéia. Não na véspera, que você vai ficar todo vermelho e inchado.

E os convidados? Homens, paciência, terno e gravata. Se a festa na seqüência for oficialmente informal, calça, camisa e blazer. Calça jeans, em hipótese nenhuma. Mulheres, deixem de ser competitivas, pelo menos dessa vez, a estrela da festa é a formanda. Vestido longo só para ela. O seu vai ter de ser pelo joelho. Tudo bem, pode ser assimétrico, ter pontas, mas deixe o da formanda ser um pouquinho melhor.

Feitas as concessões, o que se pode sugerir?
Homens, os ternos risca de giz, embora sejam clássicos, foram muito usados nos últimos dois anos, portanto, estão um pouco desgastados. Eles também podem ficar estranhos nas fotos. Se for usar riscas, escolha as mais largas. Terno escuro, que é regra. O cinza é sempre mais poderoso e o azul-marinho mais jovial. Camisa, invariavelmente, branca para os cursos mais formais. Os demais aceitam os tons bem claros de azul e lilás. Gravatas da moda, já falei nelas outro dia, tem listas diagonais. A cor do momento é, de novo, o lilás. Os colarinhos estão mais abertos e os nós mais largos. So british, indeed.
Mulheres. Aproveitem o calor e descubram que hoje a moda é braços de fora. O decote V anda bem cotado. E a estrela da hora é a cintura, que voltou para o devido lugar, ou mesmo acima, logo abaixo dos seios, o tal corte império. Vestidos justos estão fora de moda, o corte atual é, no mínimo, evasê, podendo chegar até o godê. As cores são fortes e claras. O laranja tem agradado muito. Os azuis escuros são muito sofisticados. Se eu tivesse de excluir alguma cor da atual paleta de moda festa, excluiria os verdes frios, aqueles puxando para o azulado. Bordôs também andam meio em baixa, assim como o próprio vermelho. Definitivamente, esse verão não é do preto.
As sandálias seguem metalizadas. Bolsa de festa é sempre pequena, e nãoprecisa combinar com o sapato, basta combinar com o conjunto.
A dica final é a mesma de sempre. Não adianta a roupa ser bonita no cabide se não lhe vestir bem e lhe deixar com o mínimo de liberdade de movimento. E sempre é bom levantar o assunto nas reuniões da turma, que é para ninguém chegar no baile parecendo Carrie, a estranha.
Inspire-se. Versace, Tessuti, Carlos Miele, Iódice, Raia de Goeye.

domingo, novembro 27, 2005

Amor, laranjas e pedaços

Existe, afinal, um tempo certo para o amor?
Faz quase cinco meses, eu fui informado de forma definitiva sobre a finitude da vida. E ao mesmo tempo acabei confirmando a própria infinitute do amor.
Sim, o amor, amor de verdade, esse nunca acaba. Ele transmuta, permuta, difere e divaga, mas simplesmente não acaba. O amor, por sua própria essência e forma, sua característica de energia vital, não pode acabar. A ele só se admite transformar. Mas amor é um sentimento meu para com outro. Quem ama sou eu. Há no amor certo domínio, que nos permite, em sã escolha, priorizar o outro no melhor pedaço. Mas não há nesse gesto um detrimento do eu. Pelo contrário, o amor nos eleva e nos faz eu mais superior que cede, que aceita, que dá.
Amor é sentimento da pessoa, que de tão bem que se sente dedica ao outro aquilo que muitas vezes nega para si. Quem ama não vê só a beleza, mas enxerga em cada defeito um inevitável traço de também isso eu quero. De até assim me serve. Amor é isso, é uma roupa que nos serve, nos aquece e embeleza.
Amor sentiremos o mesmo sempre na vida, ou sentiremos vários,ou um de cada vez. Amor por um que se transformará em mais amor lembrado e novo amor transmutado. Amor é coisa do eu. Amor é querer cuidar, é querer estar do lado é ser tão eu a ponto de duplicar.
Diferente, acredito, é a paixão. Paixão transborda da dimensão do eu. Paixão é bom, e dói. A paixão não é doação do eu, é assalto. Na paixão não é o eu que sente, o eu só sofre. Paixão tira do eu o ar, que o amor lhe dá. O amor nos faz respirar não só por nós mesmos, mas também pelo outro se preciso for. A paixão é uma falta de ar de ambos, que só respiram quando se beijam, e ainda assim falta ar. Paixão não é ato de entrega. Paixão é falta de controle, de opção. A paixão não nos traz a sensação do amor. A paixão nos traz uma anestesia ao contrário, a paixão nos potencializa, e emburrece. Por isso é tão bom. Paixão nos deixa torpes, onipotentes e inimputáveis. Paixão é um estado químico, enzimático e carnal. Amor é tudo isso, mas de forma quase sensata, com segurança e certeza. A paixão é carro veloz e desgovernado indo em direção ao penhasco. Amor é esse mesmo carro veloz, mas que com navegador de bordo.
Então, hoje, acredito, que podemos sim amar de novo, e amar mais. Podemos amar as pessoas, as coisas, os animais. Podemos amar idéias, posturas, convicções. Porque isso nos faz bem, nos completa e harmoniza. O amor nos faz melhores, maiores e nos faz mais. Já a paixão nos priva de certos controles e sentidos, paixão é, assim, algo mais forte, portanto, mais difícil. De certa forma, nosso organismo, físico e/ou psíquico, deve ter um mecanismo protetor, que com a idade ou qualquer outra forma de desgaste, nos preserva de ficarmos apaixonados. E isso em nada interfere na nossa infinita capacidade de amar. Amaremos sempre, e de diferentes formas. Mas paixão não tem modalidade, nem graduação, nem tonalidade. Paixão é sempre avassaladora, e ninguém agüenta tantas.
Daí minha plena convicção que o amor nunca nos fará sofrer. O amor, quando é ele mesmo, simplesmente dá certo. Inclusive porque o amor não implica em sua caracterização, em ideal correspondência. Amor é assunto privativo do eu. Pouco importa se somos amados. O amor quando nos preenche é, para nós, satisfatório. Evidente que ao ser correspondido, o amor em todo se completa, como metaforicamente conhecemos a tal metade da laranja. E mesmo que eu saiba que isso é pura ilustração da concepção platônica da esfera, eu acredito muito na laranja. Mas hoje, ainda que em teoria, eu me permito acreditar que talvez a fruta do amor seja outra. Amor não é assunto de laranja. O amor pode ser, quem sabe, uma bergamota, ou se quiserem, uma tangerina. Quem sabe é isso? Será absurdo admitir que a gente possa se completar aos gomos? Ou, vá lá, fiquemos com a laranja. O importante é rever o mito da metade. E se minha laranja não foi cortada ao meio, mas acabou sendo fatiada? Será que não serei eu o eu completo só quando encontrar não só um único pedaço, mas toda a minha fruta?
E mesmo assim, será uma fatia mais importante do que a outra? E será que são todas do mesmo tamanho? E mesmo quando se vem cortado na metade, será que não dá para essa fruta ter mais uma folhinha?
E a paixão seu Lutti? Como é que fica? A paixão, pequenas crianças, talvez não tenha nada a ver com a fruta. Talvez a paixão seja uma goma de frutose que às vezes cola um gomo na marra na minha tangerina. E a paixão é algo de tal maneira indecifrável, que pode inclusive, colar o gomo certo. E tem gente que fica tão confusa com essa história, que na verdade é tão simplinha, que faz da paixão uma senhora gorda que apalpa e machuca a fruta. Não, não façam isso. Paixão, eu bem já disse, pode não ter nada a ver com a fruta. Não vamos perder a fé no amor porque as paixões não dão certo. Ou o que mais dói, para muitos, porque elas simplesmente não acontecem.
Vejo pessoas todos os dias maldizendo a vida porque não encontram um grande amor. E é esse o problema, o amor não se encontra na vida, o amor está primeiro dentro de nós mesmos. Quem não acha em si a capacidade de amar não reconhecerá o amor nem que ele venha espremido num copo. As pessoas querem que o amor venha na forma da paixão, que venha se impondo e que se faça mais forte. As pessoas querem que o amor se lhes imponha. Não. Não é assim que ele funciona. O amor, embora sempre simples e inegável, exige certo preparo, uma predisposição. Quem nos atropela é a paixão. Amor nos exige estarmos lá na hora certa. O amor, diferente da paixão, não nos tira a responsabilidade. Não somos vítimas do amor. O amor não nos prende ou seqüestra, o amor nos dá escolhas e no exige decisões.
Quem sabe, não seja tudo isso só um epílogo do que eu já falei sobre o medo. O amor nos dá medo, porque ele não pode ser usado como desculpa. A paixão pode. Apaixonados não têm escolha, não se lhes pode cobrar nada, não se lhes pode querer pessoas melhores ou mais nobres. Apaixonados, somos todos bestas. Nada pode dar errado, e se der, foi a paixão que acabou.
O amor não acaba.
A paixão nos tira o medo do abismo. O amor nos ensina a voar. Mas isso de nada adianta, se ainda temos medo das próprias asas.

sábado, novembro 26, 2005

Medo

O grito, Munch, 1893.

Dizem, eu concordo, sou muito observador. Vocês já sabem, sempre li muito, embora tenha esquecido a maior parte. E acima de tudo, eu fui bem criado. Meu pai me deu Bertrand Russell aos treze, já tinha me dado Rousseau, Voltaire, Sthendal e Tolstoi , um ano antes, e antes deles Emile Bronte, Charles Dickens e os nacionais. Depois disso partimos para o Freud, o resto eu já achei sozinho. Minha mãe me criou sem barra da saia, mas com muito beijo e carinho. Minha mãe me criou um homem cortês. A primeira frase que me lembro é: não há nada pior do que um homem que vê através da gente, como se a gente não existisse.
Aprendi direitinho. Depois a escola de arte acabou de me treinar. Sou um observador cuidadoso. Cabelo mais curto, vestido novo, cara de choro. Nada me escapa. E tem essa coisa meio inata, de escorpião curioso, sei lá, uma coisa no meu olho, mas eu sempre acabo enxergando um pouco mais fundo, às vezes até mais do que fui autorizado.
E eu, que sempre me achei meio antipático, me pego ouvindo segredos de pessoas estranhas. Será que eu inspiro confiança? Por que as velhinhas no supermercado me perguntam onde estão as coisas?

E o que eu mais noto nas pessoas é o medo.
As pessoas têm medo uma das outras. E no mais das vezes, têm medo de si mesmas. E todos nós temos medo da verdade.
As pessoas têm medo da morte, medo do futuro, medo da mesmice e da novidade. Medo de envelhecer, medo de ficar sozinhas, medo da gravidade. Medo da rejeição, da compaixão, da piedade. Medo de parecerem fracas, de se revelarem chatas. Medo de serem enganadas, de serem amadas. Medo da responsabilidade. Medo de barata. Medo de engordar.
O medo começa desde cedo. Medo do escuro, do bicho-papão. Medo do pecado, da serpente. Medo do bichinho da maçã. Medo do chinelo, do castigo, daquela coisa verde. Medo de cair da bicicleta, de levar bilhete, de caligrafia. Medo da matemática, da sistemática, da ortografia.
E o medo cresce.
Medo de primeira vez, medo de nunca mais.
Medo do óbvio. Medo do “isso vai dar certo”, do “isso deu errado”. Medo de dizer oi, medo de dar tchau. Medo do primeiro passo e do passo final.
Medo de olhar no espelho e medo de gostar. Medo de cortar o cabelo, de mudar. Medo de ser sempre o mesmo, medo de ir e de voltar.
Medo de errar a roupa. De errar a música, de se atrapalhar.
Temos medo das calorias, das agonias. E dos vírus. Vírus da galinha, da vaca louca, do computador. Vírus do beijo, do desejo, vírus do amor. HIV, HPV, os tais bacilos e tantos vacilos. Medo de engravidar. Medo de perder a hora, medo de atrasar.
Medo de andar na rua, de ficar na sua, de ficar nua, de se humilhar. Medo de janela aberta, medo de pergunta indiscreta. Medo da resposta certa. Medo de UVB e UVA.
Medo do depois, do antes e até do durante. Medo de gozar depressa, ou de não gozar.
Medo de dirigir, de ir a pé. Medo de se encontrar. Medo de andar de ônibus, de dormir no ponto, de acordar.
Medo de tudo um pouco e medo do próprio pouco. E de tudo. E medo do já.
Medo dos contras. Medo de não ver os prós. Medo de não dar chance. Medo de dar. Medo da bola, da bola nas costas, medo de chutar.
Medo. Medo de encarar os fatos. Medo de aceitar a morte. Medo de esquecer a voz. Medo de esquecer a curva da coxa, o joelho, a boca. Medo de esquecer o primeiro beijo, o primeiro ato. Medo de esquecer o último. Medo de lembrar.
Medo de começar de novo. Medo de comparar. Medo de acertar no alvo. Medo de não dar em nada. Medo. Medo.
Medo de olhar em volta. Medo de não te achar. Medo de que o telefone toque. Medo de que alguém me encoste, que alguém me toque. Medo de que não passe.
Medo que me impediria de tanta coisa.
Medo de amar que eu perdi amando.
Medo que eu tenho é de ter medo.
Não medo do abismo. Nem medo de voar.
Mas medo das próprias asas.

As velhinhas do supermercado não se enganam. Eu não tenho medo de gente. Eu tenho mais é vontade.
E se for para tudo dar certo, eu tenho mesmo é pressa.

sexta-feira, novembro 25, 2005

What it feels like for a girl?



25 de NovembroDia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher



Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
'Cause it's OK to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
'Cause you think that being a girl is degrading
But secretly you'd love to know what it's like
Wouldn't you
What it feels like for a girl


O Museu de Arte Moderna do Rio grande do Sul é um dos prédios mais bonitos de Porto Alegre. Foi o primeiro museu que eu conheci na vida. É lá que ela mora, A dama de branco, um óleo sobre tela do carioca Arthur Timóteo da Costa, pintado em 1906. Eu visitei essa mulher uma vez por semana durante alguns anos. Eu a desenhei muitas vezes, a pintei outras tantas. Foi olhando para ela que formulei uma das perguntas que pode ter mudado a minha vida, e que anos depois ouvi na voz de ninguém menos do que a Madonna: Do you know. what it feels like for a girl? Qualquer coisa como: você sabe como se sente uma garota?

Não eu não sei. Eu nunca vou saber. Ser homem já é complicado o suficiente.

Mas A dama de branco foi de certa forma a minha Monalisa.
Afinal, ela está feliz ou não? Sempre a achei meio desconfortável nessa roupa. Mas eu não sei por que. Fiz mil teorias. Seria o espartilho apertado para fazer a cintura de vespa? Seria o incômodo pelo quadril grande e a saia branca? Teria ela sido forçada a posar para o retrato? Estaria cansada? Estaria casando contra a própria vontade? E por que erguer a saia atrás? Por que essa pose meio forçada? Há algo de sexual na Dama?
E o olhar? E o sorriso? Ela está triste, aborrecida, conformada? Ou ela está feliz e orgulhosa? Ou acho que ela olha com certo desdém para o pintor intrigado por sua beleza e ousadia ao erguer a saia? Ou é um riso de nervosa, de vergonha?
Eu era só um adolescente que estudava arte. Mas balizei a questão de que eu nunca iria saber o que uma mulher realmente estava sentindo. Mas não me dei por vencido, passei a observá-las de perto e isso já foi suficiente, então, para me tornar um homem com livre trânsito no universo feminino. Eu as enxergava, ouvia, estudava. Elas me amavam. Eu deixava.
Já na faculdade de direito, eu tive dois semestres de medicina forense. Fazia parte da cadeira uma série de visitas ao Instituo Médico Legal. Foi lá vi pela primeira vez uma mulher logo após um estupro. Foi lá que eu vi uma mulher que havia sido espancada pelo marido com uma barra de ferro. Foi lá que eu vi outra que havia matado o marido bêbado que a havia mutilado um mamilo com uma faca de cozinha, enquanto ele dormia, usando um travesseiro. E todas elas tinham um coisa em comum: um olhar de vergonha. Não, elas não tinham raiva no olhar, elas tinham vergonha. Elas tinham quase uma melancolia. Um olhar baixo, onde, será, eu estava vendo um quê de culpa? Mas por que elas não tinham raiva? Por que elas estavam ali, sujas e humilhadas se deixando fotografar, apalpar, interrogar?
Foi um golpe. Eu era um daqueles homens, só que minha forma de violência era outra. Eu não respeitava as mulheres. As tratava como seres complexos e incompreensíveis, mas manipuláveis. As manipulava com gentilezas, com atenções e com uma postura viril do arquétipo do príncipe encantado. E depois, tal qual um médico plantonista do IML, eu as estudava, dessecava, anotava onde estavam os machucados, quais eram os pontos mais frágeis. E partia para a próxima.
Anos depois vem a Madonna e joga na minha cara que garotas podem usar jeans/E cortar os cabelos curtos /Usar camisas e botas /Porque é legal ser um garoto Mas para um garoto se parecer com uma garota é degradante /Mas você acha que ser uma garota é degradante / Mas secretamente você adoraria saber como é / Não adoraria?/ Como se sente uma garota"
É isso. Homens não entendem as mulheres. Nossas mães nos ensinaram que nós somos homens, que somos diferentes. Vocês e as revistas que vocês escrevem para vocês mesmas nos cobram a compreensão de um universo que nos é totalmente estranho. São muitas preliminares, pontos, times. Já as revistas que nós escrevemos para nós mesmos nos mostram mulheres que são simplesmente máquinas. Dispostas e expostas. Elas não nos cobram nada.
E, eu sinto muito, mas nem todos os homens tem a paciência, ou sorte, que eu tive, de me fascinar por esse universo proibido. E eu conheço bem minha relação masculina com tudo que me desafia. O carro que não pega ganha chute no pneu, o computador que trava leva um soco no gabinete, o meu time quando não joga como eu quero leva palavrão. E homens em geral são bem sistemáticos, lêem o manual, conectam todos os cabos, ligam o aparelho e quando tudo dá certo a gente fica orgulhoso. Se dá errado, a gente dá um soco.
Por que as mulheres não funcionam assim?
Não, não quero justificar a violência doméstica contra as mulheres com a maniqueísta distinção entre os sexos. Tudo isso é só para concluir que o homem que agride uma mulher é um homem fraco, confuso e derrotado pela sua própria incapacidade de entender aquele universo.
Mas não posso deixar de questionar se as mulheres não poderiam fazer alguma coisa por nós. Custaria muito dizer que estamos no caminho certo, com a mesma freqüência em que dizem que estamos fazendo tudo errado.? Custaria muito falar claramente, e simplesmente aceitarem que não somos capazes de deduzir o óbvio? E não é patético, mas evidente, que muitos de nós não suportam isso?

Mas se vocês quiserem ler quem realmente tem o que falar sobre o assunto, não deixem de acessar a lista completa de blogs que participam, hoje, da blogagem coletiva sobre o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.

quinta-feira, novembro 24, 2005

E eu pensando: com que roupa?

Depois de ser flagrado usando sapatos Prada, o papa Bento XVI apareceu em público com óculos de sol Gucci.A preferência do papa por roupas de grife tem chamado a atenção da mídia internacional. Bento XVI despediu o alfaiate Annibale Gammarelli, cuja família fazia as roupas do Vaticano desde 1792, e agora compra peças de marca.Enquanto seu antecessor João XXIII pregava a simplicidade no vestir, o papa atual prefere a extravagância. Será que ele leu "O Diabo Veste Prada"?
Central de Notícias – MixBrasil - 23/11/2005 - 13:50

O papa cansou de ser pop. Agora ele é chic!!!
E eu preocupado com a soberba?
Desse jeito, posso ficar tranqüilo! Meu closet tá abençoado.
Pobre Adão, aquela folha de parreira era totalmente out!




“Não tenho vergonha de falar o que tenho de falso. O peito é falso, os cabelos são megahair e até o louro é falso. A pele eu compro no consultório da dermatologista. Até o bumbum em breve será diferente, mais em pé”
Deborah Secco – atriz 25 anos, em entrevista dominical do jornal O Globo, confessando que gasta R$ 10 mil por mês em cuidados com beleza

Zero Hora – Segundo Caderno – Contracapa – 23/11/2005

O loiro é falso? E eu nem tinha notado, hahahaha
Tà, claro, o bronzeado é que é natural!
Pena que talento, a gente não compra.

Prostitutas aderiram ao projeto de revitalização da praça Tiradentes, um tradicional reduto da boemia no centro do Rio de Janeiro. Com medo de serem "desalojadas", as cerca de 150 prostitutas da área deram início a um "mutirão" na região. Desde o ano passado, a ONG Davida, que defende os direitos das prostitutas no Estado e é dirigida por uma delas, realizou uma série de intervenções na praça
(...)
Uma outra iniciativa da ONG Davida é o lançamento de uma grife de roupas para "profissionais do sexo e simpatizantes": a Daspu. Segundo as 22 prostitutas do Estado do Rio, sócias no empreendimento, o nome é uma brincadeira com a milionária loja de São Paulo, a Daslu. A primeira peça da nova grife será a camisa do bloco carnavalesco Prazeres Davida, que deverá começar a ser vendida no ensaio da próxima segunda na praça Tiradentes. Inicialmente, as sócias investirão cerca de R$ 5 mil no projeto.
Terça, 22 de novembro de 2005, 06h21 - Notícias Terra

DASPU? Achei lindo. Eu quero!!!
Será que o Papa Chic vai encarar?

Diálogos da fila III

Dá licença.
Mas eu tenho razão.
A teoria do raio é implacável. Inexorável. E indispensável.
Sabe quando o dia da gente parece um episódio do Sexy&City?

Lá vai.
Lutti hoje levantou mais cedo, comeu mamão, tomou um solzinho. Tomou banho na temperatura certa, e até o cabelo secou direitinho. Leu um pouco, riu do horóscopo. Se arrumou todo bonitinho, colocou calça de marca, sapato importado, camisa ajustada. Almoçou salada e peixinho. Foi trabalhar, teve uma grande idéia, salvou a pátria e foi chamado de geniozinho. Dia bom no trabalho. Mesa limpa, pilha baixada. Chefe contente que conta piada.
Lutti recebe e-mail, dá entrevista, marca visita.
Dia diferente, parecido com os de antes. Merece uma comemoração. Lutti corre ali no shopping, só para dar uma olhada. Quem sabe um sapatinho?
Lutti pensa, que dia lindo, tanto sol, tanto calor. Nem dá vontade de ir pra casa. Lutti sai pela calçada, sacola branca com letra prateada, outra verde com logo dourada, e acaba num café. Senta na melhor mesa, queria só um cappuccino, acabou com uma taça de vinho.
Lutti ganha uma encarada e depois uma intimada.

- É terceira vez que eu te vejo aqui.
- É verdade, também pensei nisso. Mas é que eu trabalho aqui perto.
- Eu sei, eu já te vi saindo. E tu sempre vinhas aqui nos sábados, mas nunca vinhas sozinho.
- Péssimo caminho (pausa). Já sabe o meu CPF, minha identidade?
- Não, nem o teu telefone.
- Melhorou, quase me pega. Mas não vai ser tão fácil. Ainda não.
- Então fica com o meu telefone, daí quando tu quiseres vir aqui de novo, a gente combina. É melhor que deixar sempre pro acaso.

Cartão bonitinho. Lutti sorri.
Mas, e seu quiser tomar um café sozinho? Eu recém to aprendendo a sair sozinho! Calma, calma. Devagar com o andor que o santo é de barro. Ou de porcelana cara?
A garçonete, pessoa de antes conhecida, que era fã da outra novela e não gostou do final sem beijo, traz mais uma taça de vinho. Olha pra Lutti e da risada.
Lutti dá de ombros e pergunta: afinal, o que está acontecendo comigo?
A resposta é simples e engraçada. “É que tu andas especialmente lindo, sei lá, o corpo, a pele boa, o corte da cabelo, a barba. Essa camisa linda. E esse teu olhar, mais docinho, meio perdido. Tu andas mais desarmado”.
Minha vez de dizer: “ah, tá”. Tá boa, sei. Especialmente lindo? Peraí bucadinho, quin casdi Lutti tem ispelho.
É, mas eu ando mais desarmado. Isso é verdade. Perdi meu escudo
Esse negócio de fila é sempre assim eu sou eu que tô novo no mercado?

quarta-feira, novembro 23, 2005

Festa da empresa


Final de ano chegando. Shoppings com decoração Natalina desde o final de outubro. Tempos modernos. Tudo acelerado. Slow neles
Caixa de e-mail-s cheia de dúvidas sobre as benditas festas de encerramento do ano. Todo mundo faz festa de fim de ano, a firma, o escritório, o pessoal da yoga. E tem festa para todos os gostos. Tem coquetel na sede da empresa, tem churrasco para as famílias no domingo, tem jantar de confraternização em galeteria. E todos se perguntam: com que roupa?
Sabe aquelas roupas que você usa todos os dias para trabalhar? Não servem para a festinha de fim de ano da empresa. Sabe aquelas roupas que você nunca usaria para trabalhar? Também não servem.
Na verdade a verdade, como sempre, é bem simples: essas festas de fim de ano são eventos de trabalho, portanto você deve manter sua imagem profissional.

Atendendo a inúmeros pedidos, voltamos com nossos Manuais. Nessa edição especial de pré final de ano:

FESTEJANDO NO MUNDO CORPORATIVO –PORQUE ONDE SE GANHA O PÃO NÃO SE PISA NA JACA, NEM DE SALTO – A IMAGEM DA PROFISSIONAL QUE SABE QUE AMANHÃ PEGA ÀS OITO

1 – DESCASCANDO AS NOZES
Quando você pensa em roupa de festa, sua primeira idéia é vestir algo mais sensual e sofisticado, não é? Seus colegas de trabalho também estão com essa idéia. Talvez você e o cara do financeiro que fica te olhando no elevador estejam até com outras idéias para essa festa. Mas não vamos esquecer que o resto da empresa também vai estar lá.
Então o que vamos oferecer aos olhos curiosos e céticos, que duvidam que atrás daquela mulher de negócios também bata um coração? Resposta simples: o primeiro osso de junta imediatamente disponível depois daquele que todo mundo já conhece. Exemplo: se você trabalha sempre de calças, todo mundo conhece seu tornozelo, então nessa ocasião festiva, brinde-os com seus joelhos. Se você sempre usa mangas compridas, pode mostrar os cotovelos, ou se eles já forem conhecidos, os ombros. Eles já conhecem seus joelhos? Paciência, Papai Noel não trará mais nada.
Decotão, não.
Minissaia, não.
Mentaliza. Para quem só vê você séria e compenetrada, já vai ser demais ver você descontraída e levemente, eu disse levemente, alcoolizada. Será que essa é uma boa ocasião para você administrar decotão ou, e é sempre OU, minissaia?
Tá, o cara do financeiro é imperdível e tímido. Vamos liberar um tomara-que-caia. Não um corpete tipo espartilho, bem longe disso. Tomara-que-caia reto, que cobre todo o seio e tem uma boa barbatana vertical por dentro. A idéia é oferecer o seu pescoço e aqueles ossos que você passa fome para fazer aparecerem.

2 - PERUA, SÓ NA CEIA, BEM ASSADA E CHEIA DE FAROFA.
Então é festa. Você quer usar aquele colar maravilhoso, aquele brinco que custou uma fortuna, aquela sandália linda e aquela bolsa que vai fazer a sua colega morrer de inveja. Use, é a sua chance, mas escolha só uma das opções.
Lembre-se, é um evento de trabalho.
E o cabelo? Pois é, será que o pessoal que te vê todo dia crespa não vai te estranhar lisa e chapada? Já tô vendo suas colegas dizendo: essa aí pensa que engana quem???? Na verdade, essas transformações radicais podem não pegar muito bem no ambiente de trabalho, ainda que festivo, parece, sim, que você quer chamar mais atenção do que deveria. Para manter a regra, o meio termo é o caminho. Você trabalha sempre de cabelo preso, use solto, o mais natural possível. O mesmo vale para maquiagem, carregue só um pouquinho mais do que o normal.

3 – NÃO BAGUNCEM O PRESÉPIO
Mesmo nesse agradável clima de confraternização, Maria é Maria, e a vaquinha fica lá atrás. Ou seja, não se perca da hierarquia. Desenhando: seus estagiários não estão preparados para ver você como uma colega de balada, e no dia seguinte você terá de ser a chefe de novo.
Portanto, quanto mais alto for seu cargo, mais sóbria e formal será sua roupinha festiva. E de melhor qualidade.
Não, meu senhor, nem se for churrasco no domingo, seus empregados precisam conhecer suas pernas cabeludas numa bermuda. Aliás, bermuda só se você não resistir ou tiver uma muito bonita, sem estampa e discreta. Sabe aquele calção e aquela camiseta do timão que você usa nos churrascos de família para sacanear o seu cunhado, não foram convidados para o churrasco da firma. E pelo amor do ser supremo e em nome da raça humana. Se rolar um futebol, na seqüência rola um banho e troca de roupa, sentar-se à mesa direto, nem na sua casa!
Pequenas estagiárias, ricas e bem nascidas, infelizmente não é dessa vez que vocês vão dar o troco na megera usando uma roupa mais poderosa que a dela. Lembre que segunda feira ela manda vocês pagar conta e fazer xérox.

4 - TRADIÇÃO É TUDO
Festas de final de ano têm cara de tradição. Portanto não invente, no inove. Não faça diferente. Pelo menos não na frente de todos os seus colegas de trabalho e chefes.
Portanto, siga as regras mais tradicionais. Para festas à noite mulheres usam vestido simples de tecido caro, ou tailleur de tecido nobre, ou terninho de tecido mais nobre ainda, ou uma blusa sofisticada com pantalona ou saia. Sempre com um bom sapato (com algum salto) e bolsa pequena. Homens usam calça reta, camisa, blazer e, é claro sapato.
Os tais bailes de final de ano seguem as mesmas regras. Em algumas profissões, como advogados, médicos e administradores, exigem terno escuro e gravata, e as mulheres podem optar por vestidos ma altura dos tornozelos.
Para festas de dia, só mudam os tecidos, que ficam mais leves. Esse ano o linho está com tudo.
Festas mais informais, tipo galeto, pizza, churrasco exigem menos produção. Mulheres podem arriscar calça ou saia dom uma bela malha, blusa simples ou vestidos leves. Homens podem usar jeans, camisa pólo e tênis street.
O que você nunca vai usar: roupa de ginástica, roupa de balada, roupa já usada no trabalho, roupa alugada.

terça-feira, novembro 22, 2005

Slow motion bossa nova dream

Estava lendo uma resenha do livro Devagar (Como um Movimento Mundial Está Desafiando o Culto à Velocidade) do Carl Honoré. A idéia é desacelerar, relaxar um pouco, deixar um pouco de tempo livre na agenda, desligar um pouco das tantas opções tecnológicas.
A primeira vez que ouvi falar do livro foi numa revista que o relacionava com um outro movimento o SlowFood, que surgiu na Itália, no final do anos 80, como reação de um crítico gastronômico contra o McDonald´s que estava abrindo uma filial na Piazza di Spagna em Roma.
Minha estréia na slowfood foi em Paris, onde fiquei três horas almoçando num bistrô defensor dessa culinária elaborada e orgânica. O prato principal foi o tradicional pot-au-feu, uma espécie de cozido com tudo dentro, que leva dois dias para ficar pronto. Delicioso. Tà, não estamos discutindo o que leva a pessoa a ficar três horas comendo cozido em Paris. Mas foi bom.
Aliás, quando a dieta francesa, recentemente, entrou em discussão mundial com títulos como “Por que as mulheres francesas não engordam?”, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: porque elas comem devagar. Comer com um francês é um exercício de paciência. Eles mordem um pedaço minúsculo, e mastigam, mastigam, então param, fumam, bebem e começam tudo de novo. E eles não engordam mesmo. Conheço franceses que tem o mesmo peso há mais de 20 anos.
Arrisco que o segredo seja esse ritmo. Para que nosso corpo leve a informação de saciedade do nosso estômago até o cérebro, são necessários 20 minutos. Ou seja, só depois de 20 minutos da primeira garfada seu cérebro vai parar de acusar fome. Então, se você levar 20 minutos para comer uma salada, não vai ter vontade de comer a sobremesa.
Já minha estréia na slowness, que é como essa nova “filosofia” de vida está sendo chamada, se deu há uns dois anos atrás. Na época eu tinha um cargo de chefia importante numa regional. Trabalhava 10 horas por dia. Dirigia outras duas (usava um gravador no carro para não perder nenhuma idéia). Malhava quatro. Dormia seis. As duas horas restantes eram para coisas como tomar banho, comer e me queixar. Para que o casamento não acabasse mantinha o fone do celular incorporado a minha orelha o tempo todo. E nos finais de semana não parava um minuto. Depois de manter esse ritmo por mais de três anos, recebi um convite para um cargo maior, nacional. Recusei, entreguei o cargo que já tinha e pedi remoção para cinco minutos de casa. Perdi 20% do meu salário, mas ganhei minha vida de volta.
Na mesma época tomei uma das melhores decisões da minha vida: não tenho mais agenda pessoal. Tenho uma agenda no trabalho, com capa de couro e tudo, onde mantenho meus prazos anotados, mas agenda pessoal não tenho mais. Nenhum compromisso que não fique na minha cabeça merece ser cumprido. Já consegui passar três férias sem levar o celular. Meu próximo passo é não usar relógio nos finais de semana.
E se a gente observar, vai descobrir que realmente estamos ultrapassando a barreira do workaholic e muitos de nós já são speedaholics. Estamos sempre achando tudo muito lento, muito demorado, estamos sempre achando que a conexão podia ser mais rápida. Onde será que estamos indo com tanta pressa?
Acho que vou lançar dois novos movimentos o slowdress e slowcomb. Conforme esse novo estilo de vida, as pessoas vão dedicar mais tempo para se vestir e pentear. Observem quantas aberrações estéticas seriam evitadas se as pessoas simplesmente se olhassem no espelho antes de sair de casa.
Em homenagem aos sempre fiéis amigos e colegos leitores, que não comentam, mas me mandam e-mails com perguntas do tipo: “fica legal usar calça jeans sem cueca?”, seguem os passos básicos para se vestir sem pressa e não sair por aí com uma meia de cada cor. Ou se der preguiça de ler, vê o filme, mané.
1- Planejamento.
Escolha a roupa no dia anterior. Simples, primeiro pense nos compromissos do dia seguinte, depois consulte um site de previsão do tempo e acredite (o infotempo do uol nunca me deixa na mão). Separe a roupa, de uma conferida se está limpa, com todos os botões e bainhas firmes. Separe os sapatos e, se preciso, passe uma escova para dar brilho.
Outro truque, combino as cores olhando através do espelho, porque dá uma visão mais ampla do que a que tenho se simplesmente encostar um peça na outra.

2- Ordem
Eu já deixo a roupa empilhada, na ordem em que vou vestir: cueca, meia, camisa, calça. E tudo, embora pareça pura neurose, tem uma lógica. Primeiro a cueca, por causa da janela, depois as meias, antes da calça que é para poder esticá-las e antes da camisa para não me dobrar todo e amassá-la. Então a camisa, eu costumava prende-la por dentro da cueca, mas agora com as cinturas cada vez mais baixas não dá certo. O objetivo é manter as fraldas da camisa o melhor possível dentro das calças, para não ficar aquela coisa meio embolada. Então as calças, com o cuidado de antes de abotoar arrumar a camisa e endireitar os bolsos. Depois os sapatos e só depois o cinto, porque já de sapatos eu posso controlar a altura da bainha da calça.
Se eu for usar gravata, só posso colocá-la depois de ter colocado o cinto (na altura que acertou a bainha da calça), porque a ponta da gravata deve tocar a fivela do cinto. E agora dá para colocar o relógio, por que antes ele atrapalha para fechar, ou dobrar, os punhos camisa. Por último, quando for o caso, o paletó.
E tudo isso não leva nem cinco minutos, porque já estava tudo empilhado na ordem certa. E ainda consigo escutar umas duas músicas ou um noticiário.

3 – Conferência
Depois de pronto, dou uma olhada geral no espelho. Como já comentei em outra ocasião, eu não gosto de visual todo certinho, eu gosto que alguma coisa desafie a compreensão de quem me vê. Então nessa hora do espelho eu cuido disso. Qualquer coisa já serve, como uma passada de mão no cabelo, ou às vezes um lenço de lapela mais colorido (sim, eu uso lenço de lapela, cato eles pelo mundo, e nem na Europa eles são fáceis de encontrar – Será que eu sou medieval? Oh, baby, eu me acho um cara tão atual).

segunda-feira, novembro 21, 2005

Assim sou eu sem você

Pessoas que cada vez mais eu amo,
Eu levei uns dois anos para ter um e-mail. Eu nunca entrei no Orkut ou no MSM. Até o blog, eu só descobri faz quatro meses. Mas eu me rendo. Esse mundo, que se convencionou chamar de virtual, é realmente uma esfera onde o inimaginável pode acontecer. A gente fica aqui, sozinho em frente da tela, e a tela reflete, meio como um espelho, daí a gente escreve. E de repente tanta coisa acontece. Alguém que tu amas reaparece, alguém que tu nem conheces se apresenta. A gente volta a ser criança e se vê batendo na porta do vizinho e perguntando: "oi, cê qué sê meu amigo?".
Definitivamente, a gente devia fazer isso no mundo convencionalmente chamado real.
Obrigado e obrigado sempre pela companhia que vocês têm me feito.
E tudo que eu escrevo é para dizer sempre a mesma coisa: acreditem. Acreditem no bonito, acreditem no infinito, acreditem no amor. Nesse amor de clichês, aspas e dias de faxina. Acreditem no amor que vai dar certo, no amor que vai chegar. Acreditem nas fadas encantadas, nas borboletas e nas filas.
Aquela estória do príncipe encantado é verdade. Mentira é o castelo e o cavalo branco. O príncipe pode vir a pé, de ônibus, de carro do ano. O princípe pode estar ali na esquina, no andar de cima, na fila do cinema. Ele pode até ser uma princesa.
Obrigado por todos os links, aspas e comentários. Pelas ligações telefônicas, e-mails e palavras.
E como em tudo sempre há um paradoxo, recebo um e-mail, anônimo e carinhoso, que não resisto por entre aspas:

"eu não sei nem se tu lembra de mim, pq eu te conheci naquele dia em q tu mais chorava q qq outra coisa.
na verdd eu jah te conhecia da janela da m+a. eu ficava vendo tu chegar de carro antes das 6h, e não era soh qdo chovia. eu tb jah sabia qdo era tu que ligava. e qdo vcs tinham almoçado juntos. quer saber? a inveja eh uma merda.
e uma vez eu vi vcs no iguatemi, num sabado de tarde, cheios de sacolas. dai vcs sentaram para tomar um cafeh e eu subindo a escada vi esse tal olhar de vamos pra casa. puta merda, se um homem me olhasse desse jeito, eu num esperava ateh em casa.
no dia seguinte perguntei na cara qual era a historia e a qto tempo rolava. tomei na cara: 9 anos. a inveja eh mesmo uma merda.
eu leio esse blog direto, e por tua causa nunca mais usei piranha no cabelo e comprei uma blusa azul e uma sandalia. e num sei se tu jah notou, mas sabado tu sempre vem com um texto fudido. mas esse ultimo foi demais. vai tomah no teu cuh.
sorry, mas to aqui toda borrada. tenho rimel ateh no peito. eu jah tava arrumada e o palhaço desmarcou. fui pro pc e li teu texto.
cara, tudo o q tu teve tu mereceu, vcs dois mereceram, vcs se mereceram. porra, sabe qual eh a merda? tu vai ter tudo isso de novo. e antes de mim. pq tu jah sabe o caminho. pq um cara q consegue escrever essas coisas sabe o q tah falando, viveu todas elas. a otaria aqui nem sabe quem eh esse camus.
A inveja eh uma merda. E tu eh um lindo q merece amr e ser amado"


E eu não sei o que dizer como resposta. Não sei o que cabe melhor do que um obrigado.


Eu sou eu e minhas circunstâncias.
Minhas amadas circunstâncias que me foram tiradas.
Eu que já fui demitido por um analista porque o estava manipulando. Por outro por que estava me manipulando. Eu fazia isso comigo. Eu sofria de auto-análise. Não, não é só autocrítica. Eu também me auto-justificava.
E agora, isso não funciona.
E eu gosto de mim.
Não como o idiota narciso.
Eu gosto de mim como um outro, um terceiro.
Eu gosto desse cara que está por vir, desse cara que pode ser melhor.
Eu gosto desse cara que pode me surpreender.
Eu gosto desse cara que ainda me é estranho.
Mas que me passa certa calma.
O que eu gosto em mim, hoje, é o fato de que eu não mais me conheço.
Então eu não posso me cobrar atitudes, nem exigir revanches.
Eu gosto de mim.
Eu gosto dos meus pés e das minhas mãos.
Eu gosto da minha barba.
Eu gosto quando as camisas marcam meus ombros.
E eu nunca tinha notado, até que alguém na fila falou, e agora eu gosto da minha boca.
E eu gosto do meu sorriso.
Eu ainda choro a falta todos os dias.
E eu ainda te amo.
Eu não estou preparado para não estar te amando.
O vazio me dá medo.
É covardia, eu sei. Mas eu não ligo.
A saudade me traz uma espécie de sorriso.
Tu sabes que eu já fui o eu mais feliz contigo.
Então, pensar no que está por vir é engraçado.
Lutti merece, ou pelo menos não se nega.
Lutti sorri, é mais forte que ele.
Ele aprendeu contigo.

sábado, novembro 19, 2005

Meu amor não vem entre aspas


Como ocorre toda a sexta-feira, a gente quase não trabalha. Não sei se são as calças jeans, ou o final de semana. Sexta-feira, ficamos todos mais íntimos. Nos visitamos, de sala em sala, nos sentamos nas mesas. Conversamos.

Um colega, que está fazendo mestrado, me pergunta se eu já li alguma coisa do Albert Camus. Camus, o que brigou com o Sartre. Sim eu li. Camus era uma leitura proibida na minha idéia de bom moço. Por isso eu li. Camus é meio chato. Meio amargo. Mas escreve de um jeito bonito. Nos perdemos num semi-debate sobre a indiferença em Camus e a ataraxia estóica. Nós também devemos ser meio chatos.

E amiga me pergunta se eu conheço a tal Madeleine Peyroux que vai se apresentar aqui na próxima terça. Sim, eu já ouvi alguma coisa. É mais uma nova Billie Holiday. Falamos sobre jazz, sobre blues. Sobre os vestidos das divas. Sobre as taças de champagne antigas, rasas e largas. Falamos de blinis e caviar. Prometo trazer minha receita de blinis.
Minha amiga suspira. E me olha de um jeito estranho. Pergunto o que foi. Ela diz que quem casar comigo vai ter muita sorte. Pergunto por que. Ela diz que é tão difícil encontrar um homem que conversa sobre tantas coisas. Diz que acha lindo homens que fazem citações. Ou que pelo menos conhecem os autores. Amor cortês. Por que eu sempre faço isso? Ou por que elas fazem isso comigo?
Devolvo-lhe meu melhor sorriso. E depois digo que, além de tudo, sou bom de cama e faço o café da manhã. Todo mundo ri. Melhor assim.
Falando sério.
Meu amor não vem entre aspas.
Eu não lembro quem escreveu os últimos cinco livros que eu li. Eu nunca sei quem é o diretor dos filmes que eu assisto. Eu nunca sei qual é a música.
Eu não tenho trechos do Neruda, do Pessoa, ou de qualquer outro poeta que impressiona as mulheres de 30. Nem o Caio Fernando Abreu me diz muita coisa. Não é que eu não ache o que eles escrevem bonito, ou que eu não entenda. Pelo contrário, eu entendo bem. Mas que eu não preciso das palavras deles. Eu tenho minhas próprias lembranças. Eu tenho aquela caixa de cartas.
Minha cultura é uma fraude. Minha memória é curta, seletiva, distorcida e convencida. E muito focada no meu umbigo, e no de quem estiver comigo.
Meu amor não vem entre aspas. Mas ele vem com todos os clichês.
Eu respeito os clichês do amor. Eu respeito os clichês em geral.
Eu sou um homem comum. E de verdade.
Eu sou um homem que traz flores de supermercado. E que traz junto o rancho da semana. E escolhe o pão com a pontinha torrada, porque é assim que tu gostas. Eu não sou um homem de grandes frases compradas, nem de jogadas ensaiadas. Sou um homem de dias da semana. Sou um homem de comida na mesa, de sexo na cama, e de vice versa.
Eu não sou de serenatas, de dúzias de rosas. Sou do mais do tipo que te olha dormindo e chora. Sou daqueles que atravessam a cidade para te buscar porque está chovendo. Não sou do tipo que te compara com pinturas raras, mas num sinal fechado vou te olhar sorrindo e passar a mão no teu joelho e te perguntar se tu sabes que eu te amo.
Não sou homem de lingeries sexy, de fantasias alugadas. Não sou do tipo que diz coisas safadas. Sou mais do tipo que te quer de repente, com a tevê ligada. Que te olha sem vergonha nos restaurantes, que diz que quer logo chegar em casa.
Não, não faço o jogo da conquista. O meu forte é manutenção. Não te mando cartas cifradas, mensagens truncadas. Não, nada disso, eu vou de Vinícius, de Chico. Eu descubro teu favorito. Eu estudo teus álbuns de fotografia. Decoro o nome de todas as tuas tias. Eu leio sobre o teu trabalho. Eu te alimento.
Eu pico bem a cebola, tiro a pele do tomate. Eu nunca erro as colheres do açúcar, eu sei quantas pedras de gelo. Eu conheço teus joelhos. Conheço aquela pinta, embaixo do mamilo. Eu nunca aperto a tua barriga.
É, vai ver eu sou mesmo um chato. Mas eu não uso desses truques complicados. Eu não te dou os espanhóis, os russos, os franceses obscuros. Eu te dou a certeza. Ti dou o melhor de mim. O pior é brinde.
Eu sou desses homens óbvios. Não do tipo padrão futebol/cervejada. Não do tipo reserva jazz/autores malditos. Não, nada disso. Sou no máximo um cara comum /melhorado. Esforçado, apaixonado.
Meu amor não vem entre aspas. Vem de louça lavada e paninho na pia. De cara limpa, de rotina, de faxina no sábado. Meu amor é amor de sofá da sala. De compra parcelada.
Meu amor é de todo dia. E de cada dia mais.
Meu amor é desses de hora marcada, sem espera angustiada. Meu amor é desses de me liga qualquer hora, que eu largo tudo e vou aí te dar um beijo. É desses de nem me liga, que tu sabes a hora que eu chego.
Meu amor é de sábados inteiros na cama. Amor de hoje ninguém cozinha, a gente come ali na esquina. Meu amor é desses bobos. Amor de e se a gente viajasse no feriado?
Meu amor é de coisinhas. De hoje eu vim dormir aqui. Meu amor é de detalhes. De olha só o que eu te trouxe. De adivinha aonde nós vamos.
Meu amor não vem entre aspas. Ele vem comigo. E não vai embora.

Saudade.
Saudade de ti. E falta.
Tua foto aqui me olhando.
Eu falando de amor.
Amor que tal qual tu aceitastes.
Amor que eu dei pra ti.
É que o que de ti ficou comigo

sexta-feira, novembro 18, 2005

Opções de planta

Essa semana fui ver um desses apartamentos em construção. Uma corretora pouco sorridente confinada numa salinha pré-fabricada na frente da obra me recebe. Ela está usando uma dessas calças de tecido sintético que marcam cada relevo da pele (e no caso dela eram muitos) num tom de bege amarelado e uma camisa rosa que não ajuda muito. Cabelo bem escovado, sem maquiagem alguma e usando mais perfume do que o necessário para um ambiente fechado.
O apartamento era horrível, desses que da porta de entrada se consegue ver toda a sala, inclusive a sala do vizinho. A maldita sacada integrada que fica quente como uma estufa tropical. E o mini quarto em que você tem de optar se vai querer cama de casal ou guarda-roupas. E um segundo quarto que nem opção tem. Pergunto se é possível alterar a planta. A corretora responde que sim, e inclusive tem uma arquiteta na obra que pode conversar comigo. Antes que eu consiga dizer que é desnecessário, ela já está gritando ao celular.

Enquanto ela me serve um café entra pela porta lateral algo muito próximo de uma modelo. Uma mulher alta e magra, com cabelos castanhos presos num rabo-de-cavalo, brincos de argola em ouro vermelho. Está usando uma impecável calça jeans escura de corte reto, camisa branca sobreposta por uma regata verde com bordados dourados, uma jaqueta curta marrom claro e maravilhosas botas estilo cawboy de croco marrom, totalmente cobertas de poeira. Acho que fiquei muito tempo olhando para as botas, porque ela se desculpa pelo pó, me explica que está sempre com os sapatos sujos por causa das obras que visita. E ainda me diz que o pior está por vir: o verão, não tem o que vestir.

Esqueço o apartamento. Tenho uma nova missão, salvar a arquiteta. Ofereço ajuda.
Seu maior problema para o verão é conseguir vestir algo que seja fresco e confortável, mas também, suficientemente elegante para o escritório, clientes e fornecedores e, ao mesmo tempo, seja resistente à sujeira, e sóbrio o bastante para um canteiro de obras cheio de homens que não ligam muito para o diploma dela. E, só para facilitar, se fosse possível, que pudesse no final de tarde fiar sofisticado e feminino para que ela possa dar uma passada no bar onde o namorado toca na happy hour.
Bom, saias rodadas, vestidos amplos e roupas brancas e pretas estão fora de questão. Nada disso resistiria à sujeira do canteiro de obras.
Pergunto se ela tem algum parâmetro de segurança para as roupas. Será que ela tem de trabalhar de braços e pernas cobertos? Ela diz que isso é mais rigoroso para os pedreiros. Ela pode usar o que quiser, desde que use o capacete.

Esboço um plano rápido: bermudas de alfaiataria, uma pouco acima do joelho. Uma verde musgo, uma cinza e uma caqui. Se possível uma com fundo bege mais claro e riscas mais escuras verticais ou num belo xadrez, quem sabe até uma mescla de risca azul? Estampas camuflam a sujeira melhor.
Camisas de linho ou cambraia, em tons pastéis. Algumas camisetas tipo babylook, com bordados ou estampas. Uma bela jaqueta curta de algodão. Até um blazer leve. E sapatilhas, em todos os tons de marrom. Para os dias mais secos, até uma espadrilha.
Ensino a ela um dos meus segredos: lenços umedecidos para limpeza do painel do carro também servem para limpar sapatos empoeirados.

O último toque: uma bolsa grande e macia, onde ela pode levar a bela sandália de saltos para trocar no fim de tarde e garantir um novo visual para a happy hour.
Saio com três opções de planta para o apartamento e com dois projetos de decoração de brinde. O melhor é a sensação de missão cumprida.
A corretora até agora não entendeu nada.

Vendendo o peixe: Mara Mac, Maria Bonita Extra, Cacharel, Custo Barcelona, Stella McCartney. E Chanel, porque a gente se nivela!

quinta-feira, novembro 17, 2005

Gisele Bündchen é eleita a mulher mais influente da moda
no Brasil, pela revista Forbes
CAROLINA VASONE, UOL Moda

A
revista Forbes divulgará, nesta quinta (17), o resultado da edição 2005 do
prêmio "Mulheres mais influentes do Brasil".Gisele Bündchen aparece como a mais
poderosa do país na categoria moda, na qual concorreram também as consultoras de
moda Glória Kalil e Costanza Pascolato.A premiação, realizada anualmente, tem 25
categorias, englobando áreas onde é comum se ver mulheres, como Arquitetura,
Decoração, Saúde, e outras nem tanto, como Construção Civil e Mercado
Financeiro. Este ano concorreram 78 mulheres, três para cada uma das
categorias.A votação foi feita pelo site da revista e recebeu um total de 28 mil
votos, um aumento de 50% em participação com relação a edição do prêmio em
2004.
Tá, sei.
Agora alguém me explica qual é o poder da Gisele na moda brasileira? Será que é aquela sandália horrorosa que leva o nome dela? Isso me parece mais pesquisa tipo top of mind.
Não que eu ache que as outras concorrentes tenham mais a oferecer.
A Glória Kalil tem um grande mérito, com sua trilogia do Chic, ela colocou a moda na moda de novo. Mas talvez sua contribuição acabe por aí. Acho os tais manuais dela bem intencionados, mas me parecem úteis somente para o pequeno seguimento gerentes de banco e outros empregados com futuro promissor. E isso é bem diferente de moda. Glória Kalil caiu na fácil cilada do certo e errado, onde o certo é sempre morrer de tédio. Me explica como é que eu vou considerar uma mulher que diz que um homem só precisa de dois sapatos: um preto e um marrom?
Já Dona Constanza Pascolato é um barato, se não fosse irritante seria até divertida. Basicamente como toda a senhora na idade dela. Já reparou como ela está falando cada vez mais l e n t a m e n t e. Dona Constanza entende sim de moda, pelo menos da parte que ela ainda lembra. Mas acho que ela sofre do mesmo mal que eu: não reconhecemos a moda brasileira como produto acabado.
Pois é, tenho esse problema. Eu e a Dona Constanza. A gente vê, lê e compra (bem mais ela do que eu) moda estrangeira. E a diferença ainda é abismal. A moda brasileira ainda não tem personalidade. Não dá para reconhecer uma peça como sendo brasileira se ela não tiver um coqueiro bordado. Sem falar que a moda nativa ainda não passou pela prova final: criar um clássico. Clássico, leia-se, atemporal e universal. O mais perto que chegamos foi a tanga de praia. Mas isso não é lá uma grande credencial.
Talvez a grande dificuldade da moda brasileira seja a brasileira. Afinal, quem a é a brasileira, para quem essa moda é feita? Para as cariocas? Para as paulistas? Para as gaúchas? E as nordestinas? As caboclas do centro-oeste? E as mulheres do norte?
A moda, como linguagem que é, precisa de conceitos, significantes e significados. Precisa, então, chegar a alguns códigos que todo mundo reconheça e respeite. E como moda lida com imaginário, é preciso também que traga uma carga de arquétipos e mitos. E daí voltamos ao dilema anterior: qual é o conceito da brasileira para a moda?
A moda francesa se fez sobre a magreza característica da mulher parisiense. A moda italiana se diferenciou por respeitar a latinidade de seu público. A moda britânica só se descobriu quando descobriu as plebéias. Até a duvidosa moda norte-americana parece ter encontrado na cosmopolita mulher de NY a sua musa.
E a brasileira que não vive na praia? Que moda está sendo oferecida para ela? Outro “defeito” da nossa moda é ignorar que as mulheres podem ter mais de 20 anos. Sigo atento a questão de como vestir a mulher “madura”, e já descobri que existe um elo perdido nas lojas entre a seção lolita e a seção avó fofa.
E se eu tivesse de indicar a mulher mais influente do cenário de moda brasileiro? Indico a Marília Carneiro, aquela figurinista da Globo. É a da Porcina, a da Jade. É, porque moda que é moda desce da passarela e ganha as ruas.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Ginasial completo - eles


Mãe de formando me liga e se diz injustiçada.
E o filho dela, vai se formar pelado?
Não. Tio Lutti ajuda.
Homem é sempre mais fácil. Ou mais simples, já que não tem muita escolha.
Jovens formandos do 2ºGrau não têm muito como fugir da calça e camisa. Devem fugir, sim, de qualquer roupa larga, tênis e camiseta.
E apesar das colegas meninas se vestirem numa proposta meio Hollywood, ninguém vai convencer um adolescente de 17 anos a enfrentar um terno e gravata para se formar no segundo grau. Ainda bem!!!
Aliás, se quer saber, quando vejo essa gurizada na rua fico muito mais preocupado com as futuras mulheres do que com os homens. Repare bem que os garotos estão muito ligados em moda, e se atualizam super rápido.
Mas de volta à formatura. O mas simples é uma calça seca e escura e uma bela camisa slim-fit. Mas dá para usar uma calça jeans escura de corte reto (então, clara e rasgada não dá, ãhnnnnnn) com camisa e blazer.
E para quem segura a onda, vale calça branca ou bege.Vale também camisa e gravata,mas só se tiver uma sacada de cor, como por exemplo, camisa e gravata no mesmo tom claro.
Calça com prega na frente? Deixa pro seu pai. Ah, por falar nisso, não use nada do seu pai.
Camisa de manga curta? Eu acho meio vendedor de carro usado em filme americano. Nessa proposta mais “festiva” uma camisa de manga longa dobrada até o cotovelo vai melhor.
Camisa para fora das calças? Só se for a tal camisa mais justa e se a fralda for reta ou não passar do fim da bunda.
E claro, aquela ladainha de sempre: sapato engraxado, cabelo cortado e seja lá o que você tiver de barba, feita. Ah, e um relógio de adulto. Olha só, taí um presente bem legal para você ganhar, seu primeiro relógio de adulto.

terça-feira, novembro 15, 2005

Ginasial completo

Eu não gosto de adolescentes. Acho que eu não gostava nem quando eu era um deles.
Faço poucas exceções. Meus sobrinhos emprestados. Ela, desnaturada que nunca mais me comentou. Ele, com quem estou, no mínimo, em dívida, porque ele está segurando uma barra nova na vida dele e eu não estou lá para bater um papo. E a Bruna, que é densa e teimosa e escreve muito bem, e me faz lembrar de mim mesmo com a idade dela.
Há quase um mês atrás tive de atender uma chamada urgente de uma mãe desesperada que estava com a filha numa loja comprando a roupa para a festa de formatura de 2º grau. Estava rolando um stress entre mãe, filha e dona da loja, tudo por causa dos ajustes no vestido.
Chego lá e me deparo com um vestido muito bonito. Frente única em renda num tom de lilás e rebordado com cristais. Saia longa e evasê em cetim prata. A formanda, de dezessete anos, tem o busto grande e não estava satisfeita com a cava do vestido. Argumento que o vestido talvez seja um pouco exagerado para uma formatura, ainda mais para uma formatura de 2º grau. Mãe e filha se olham escandalizadas. A menina me diz que TODAS as colegas dela vão de longo, e que algumas inclusive mandaram fazer vestidos exclusivos.
Eu acho bonitinha essa história de formatura de 2º grau. Muitas daquelas pessoas, que a gente conhece desde criança, se perderão de nosso caminho. Até acho justo que a última lembrança fotográfica seja de todo mundo arrumadinho. Ninguém merece ser lembrado com aquela cara que a gente tem de manhã cedo, ou depois da aula de educação física. Ainda existe aula de educação física? Eu gosto de rituais, de cerimônias, acho que elas são importantes para encerrar e iniciar fases. Mas precisa usar um vestido que custa quatro dígitos?
Olha, não quero estragar a festa de ninguém, mas você ficou no colégio quanto tempo? Onze anos se tudo deu certo, né? Pois é, depois disso eu ainda estudei mais oito anos para começar a ganhar dinheiro de verdade. E olha que eu era da turma dos nerds!
Resolvemos o ajuste com duas barbatanas. E faço a menina prometer que não vai engordar, nem emagrecer, até o dia da formatura.
A formatura será seguida de um jantar para 80 pessoas e depois o baile com toda a turma.
Hoje a mãe da criatura me liga desesperada. A filha foi ver a prova do vestido de uma das colegas. O vestido era curto. Brilhoso e bordado, mas curto. A amiga faz uma lista de todas as colegas que vão de vestido curto. A menina entra em pânico. Faz 3 dias que não dorme direito por causa do megahair que colocou para combinar com seu vestido longo, ela está em recuperação e quase todas as matérias, e agora isso?
Tenho vontade de dar risada. Ou melhor, tenho vontade de levantar aquela faixa de “Eu já sabia!!!”.
Sabe o eu acho pior? Nem é o ridículo de se usar vestidos de se usar um vestido cheio de brilhos numa formatura de segundo grau, em dezembro às 18h30min com o sol a pino do horário de verão. Nem é o ridículo da menina teimar e discutir que o vestido deveria ser longo. É óbvio que não. Aliás, nem em formatura de faculdade o vestido deve ser longo. O pior mesmo, é que se organize um evento, da proporção que essas formaturas tomaram, sem um mínimo de coordenação visual. Será que era muito difícil fazer uma reunião para definir como o grupo vai se vestir? É aquilo que eu sempre falo sobre moda, certo e errado são uma questão de tempo e repetição. Uma coisa ridícula usada em grupo não deixa de ser ridícula, mas ninguém nota.
Fico preocupado com duas ou três meninas que vão a essa formatura usando leves vestidos de cor viva ou estampados e vão se sentir os gruminhos do mingau. Queridas, eu sei que nessa idade é difícil aceitar que suas amigas estão erradas e que diferente pode, sim, ser melhor. Mas, acreditem, vocês estão certas.
Ilustrando, a seleção Tio Lutti para formandas de 2º Grau. Forum, Zapping, Vide Bula, Sommer e Iódice. Não precisa mais do que isso. Mas se todas as suas amigas são pequenas peruas, paciência, renda-se. Ao menos que você seja melhor do que elas...

segunda-feira, novembro 14, 2005

Diálogos da fila II

Ou quem inventa, agüenta.
Ou da sincronicidade e o que você lança no coletivo.
Ou cuidado com o que tu pedes, porque tu podes ser atendido.
Ou eu desconfio de um complô.
Ou por que eu bebi tanto?
Ou a simples teoria do raio.

Já falei sobre a teoria do raio? Não? É bem simples. Sabe aquela história de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? É mentira. Pela teoria do raio, descobri que quando um raio está por aí, meio sem destino, ele resolve cair num lugar conhecido. Em geral, minha cabeça.

Então, Lutti resolve, uns dias atrás, que vai pensar em francês.
Ontem, Lutti se permite enxergar a fila.
Ontem, à noite, Lutti enche sua sacola da Harrod´s de garrafas de espumante e vai para um jantar. Lutti vai de azul. Calça de veludo azul celeste da Burberry e camiseta azul-acinzentado com silk em dourado.

Lutti bebe. Não como um homem de 31 anos. Mas como um adolescente de 13. Não foi uma embriaguez estóica, foi porre mesmo. Premeditado.

Daí o que Lutti faz? Besteira, é claro. Lutti se mete na fila alheia, para dar palpite, para distribuir senha, para tumultuar.

Diálogo da fila:

- Então a minha pequena está com dúvidas.
- As mulheres sempre estão com dúvidas. Elas são mais inteligentes, elas pensam em hipóteses e possibilidades, por isso sempre têm dúvida.
- E os homens? Não têm dúvidas?
- Têm, mas isso não impede que eles ajam. Os homens sempre sabem o que querem. Porque eles sempre querem.

Algumas taças depois, as posições se invertem, Lutti é confrontado.

- E tu, tu és um homem inteligente, tu não tem dúvidas?
- Não, eu sou um homem objetivo, eu não tenho tempo para dúvidas. A vida já me mostrou que não se pode perder tempo. Ou talvez eu tenha bebido muito e já não esteja tão inteligente.
- Tu continuas inteligente e fascinante.
- Tu estás chegando muito perto (nota do tradutor: muito perto, no caso, significa visão fora de foco, distância inferior a cinco centímetros entre os narizes). Isso está ficando perigoso.
- (Sorriso e uma mão que sobe pela minha perna)
Olho para minha taça que está vazia, levanto e saio, em disparada, para enchê-la, pelo resto da noite.

Foi bom? Não é que foi!
Foi pouco? Foi não.
Detalhe: o diálogo todo se deu em francês.

Percebam. A vida é sempre boa com a gente. A gente que às vezes é ingrato. Os sinais estão sempre visíveis e são óbvios.
Pessoas, não fechem os olhos.
A vida é simples. Ou curta. Seja o que for, não dá tempo para ficar complicando.
O mundo é bão, Sebastião.
E mesmo contudo, a vida tem sido boa para Lutti. Provavelmente porque Lutti merece, ou, pelo menos, Lutti não se nega.
Lutti sorri, é mais forte que ele.

domingo, novembro 13, 2005

Diálogos da fila I

Lembram da Wanessa Camargo? Não, tudo bem, eu também não lembrava.
Não é que eu goste da Wanessa, ou de qualquer dos Camargos, mas é que eu gosto mais dela do que da Sandy. Sei lá, mesmo sendo filha da Cher Sertaneja, Wanessa é mais de verdade, mais gente como gente, entende? Ela fica gorda, faz barraco no meio da rua, até sexo ela faz!
Mas na minha revisão de back-ups achei o documento que deu origem ao mito para mim. Dizia Wanessa para Contigo, ao falar sobre uma das vezes em que acabou seu romance com o Dado Mala - Bella: “eu to viva e a fila anda!”.
Não, minha fila não tá andando. Na frente de Lutti há três tapumes de madeira, um na frente do outro, cada um com uma placa. No primeiro tapume, a placa diz: “Fechado por motivo de luto”. No segundo, “ Fechado para balanço”. No terceiro tapume, a placa nem mesmo está pendurada, mas se um dia ela o for dirá: “Desculpe o transtorno, estamos em obras para melhor servi-los”.
Só que Lutti vai fazer o que se esse povo não sabe lê e fica fazendo fila???

Bom, por enquanto nosso pequeno herói só pode escrever a primeira série fixa desse blog:
DIÁLOGOS DA FILA
E na estréia:
Lutti todo lindo e sozinho em casa resolve atravessar a praça da frente de casa e ir ao centro comercial em frente almoçar. No caminho Lutti passa por um grupode mulheres e seus cachorros. Uma delas comenta, um pouco alto, que gostou de Lutti indo (indo, de costas, entenderam?) Lutti pensa que mulheres só fazem isso quando estão em grupo. Lutti pensa que precisa comprar outra calça igual a que está usando, Lutti olha para trás e sorri. Elas caem na risada.
Lutti não tem culpa do único restaurante perto da casa dele ser um super badalado do tipo ricos e famosos locais. Lutti só quer comer alguma coisa sem sujar a cozinha. Lutti senta sozinho, pede uma salada, um suco e começa a ler uma revista. O lugar já está mais para vazio. Lutti percebe que um rapaz na mesa em frente está olhando pra ele. Lutti conclui que é sua camiseta azul que está chamando a atenção. Além da calça Lutti precisa de mais camisetas azuis.
Ou Lutti precisa se olhar no espelho e largar mão de ser exibido e ficar se gabando no próprio blog. Te enxerga bagulho!!!
Lutti sorri. Olha diretamente e não baixa os olhos depois. Lutti confessa, ele é escorpiano, portanto foi programado, ainda no útero de Giocasta, para flertar com qualquer coisa que se mova, seja homem, mulher, criança ou animal. É mais forte que Lutti. Ele sempre sorri, só por sorrir, porque acredita que não custa nada fazer a vida dos outros mais feliz. Lutti sorri para os velhinhos, para as crianças, para os feios, para as feias. Até para os bonitos e bonitas Lutti sorri. Lutti é assim, ele não se importa de ser querido, ele não se envergonha mais de ser sexy. Ai que meda!!!
Mas daí a dar o próximo passo, é mais samaritanismo do que Lutti pode dar.
O moço, levanta e vem até Lutti. Lutti pensa, homens só fazem isso quando estão sozinhos. Lutti pensa será que ele não viu os tapumes?
Diálogo:
- Do que tu estás rindo?
- Eu não estou rindo, estou sorrindo.
- Achei que tu estavas rindo de nervoso.
- Ahahaha, bons tempos. Não, a fase do nervoso já passou.
- E então, por que tu estavas sorrindo?
- Sei lá, acontece desde de criança, sempre fico feliz quando vejo gente bonita.
- Ah, tá.

Ah tá? Ah tá? Isso é resposta que se dê na fila?
O próximo, por favor!!!!

sábado, novembro 12, 2005

Bendito fruto e a mulher que acredita


Sigo dizendo, repetindo como uma agulha presa no arranhão de um LP de novela. Cada vez me interesso menos pelo gênero e fico mais fascinado com a espécie.
Lutti em noite bendito fruto. Com quem me lê e me merece. Com quem lê de tudo e quem merece sou eu.
Lutti e as mulheres. Gosto de mulheres. Elas tem cheiro bom, tem pele morna e falam sobre qualquer coisa. E como falam. Mas mulheres, diferente dos homens, falam porque acreditam que tem algo a dizer, e não pelo prazer de ouvir a própria voz.
Com uma delas, que tem incrível domínio dos próprios quadris e está sempre com a saia certa, discuto Platão e o amor. Ficamos indignados com a falta de registros sobre as mulheres gregas e com o descaramento do plágio no meio acadêmico (conversas entusiasmadas em mesas de par podem ser inescrupulosamente clonadas). Somos cúmplices nas virtudes do amor doméstico e no bizarro lado positivo das perdas.
Outra, que para disfarçar um blusa laranja recorre a um blazer rosa pink (!), divide comigo as delícias de escolher entre Freud, Lacan, Jung, Mapa Astral e Prozac. Nos deliciamos com histórias de um casamento em que ela descobre que usou um vestido mais caro que o da noiva, que aliás usou luvas sem dedo, que, agora me lembro, se chamam mintenes.
Conheci uma delas ainda hoje, e já gosto imediatamente, afinal poucas mulheres grandes sabem usar saia estampada. E não sei se por ela ser advogada, ou simplesmente por ser esperta, ela sabe o valor de um terno de shantung sobre medida na vida de uma mulher.
A quarta, tipo mignon, é nossa vítima da noite. Vendo algumas fotos, descobrimos que ela tem usado o mesmo vestido de festa em várias eventos nos últimos anos. Mas o melhor é que ela está sempre linda. Isso é o poder dos clássicos. Não é à toa que ela é fã da Audrey Hepburn. Minha amiga é pequena, tem pouco busto, pele alva e cabelos pretos, seu vestido perfeito é um longo vinho com cava americana, que simplesmente fica perfeito nela, e ficará para o resto da vida. Aliás, deixa eu referir que ela é uma das mulheres, que eu conheço, que melhor sabe escolher os próprios decotes.
De brinde, ainda me recomenda A História da Sexualidade, do Focault.
Conversamos sobre tanta coisa, que acredito que minha embriaguez foi pela quantidade de informações e não pelas garrafas que se esvaziavam no mesmo ritmo da conversa.

Encerro a noite com uma das daquelas conclusões que nascem em mesas de bar e nelas são repetidas até virarem dogmas: A PIOR COISA NA MODA É MULHER QUE ACREDITA.

Explico. Eis que chega uma querida que deve ter comprado umas três ou quatro revistas de moda mês passado, leu tudo e acreditou. Ou quem sabe ela só tenha lido este blog (?). Enfim, ela leu que ainda dá para usar boho (bata), girlie (babados e cores fofas), e anos 80 (cetim e balonê). Mas ela também leu que o parisian chic está voltando (colar de pérolas) e que a inspiração anos 50 também vale , sem esquecer de um quê de anos 60. Claro que ela leu que ter um toque de estampa africana é T U D O. Ela vá foi informada de que o preto voltará. Que o azul será moda e que o lilás será o novo rosa. E, é óbvio, que ela, mulher que estuda moda, sabe que tem que ter atitude. E ela acredita. Então ela aparece num bar tipo público cabeça meio existencialista meio beat-nik, na Cidade Baixa, numa sexta-feria, 10 da noite usando: uma calça preta de alfaiataria pela altura do tornozelo, um top de cetim azul celeste, tomara-que-caia, cintura império com dois enormes babados em balonê, até a cintura. Nos pés, uma sapatilha de saltinho baixo de pele de onça fake e detalhes em metalizado lilás. Colar de pérolas de uma volta e brinquinho de pérolas minha-avó-tinha-igual. E como ela moderna, tem atitude o cabelo pretíssimo é curto com franja irregular e está cuidadosamente escovado com as pontas para fora e finalizado com muita cera. Olhos negros bem esfumaçados. Rímel, rímel, rímel. Blush rosa. E como ela acredita, ela acredita que todo mundo está olhando para ela por causa do sucesso da composição.
Para terminar, momento Odete Hoitmann/Bia Falcão e Júlia tem o pior defeito que uma mulher pode ter: é comum!, eu vos pergunto: o que o Soho, em NY; o Quartier Latin, em Paris; Convent Garden, em Londres; Palermo Viejo, em BsAs; A Lapa no Rio e a Barra Funda em São Paulo e a Cidade Baixa, em Porto Alegre tem em comum? Nada, hahahaha. Bom, todos são redutos das novas e velhas gerações acadêmicas, berçários da subculturas modernas e lugar de gente que é mais do que tem. Salvo a Cidade Baixa, onde as pessoas que não conseguem ter, fingem que só querem ser.

sexta-feira, novembro 11, 2005

O que acontece em Luttitown



Ainda não assisti nenhum capítulo da novela nova. Estou que nem criança depois do Natal, brincando com o computador novo. Mas tive a impressão de ter visto o Jamanta Tem Chavinha de relance.
Na verdade estou brincando também com o meu passado. Ontem, chorei muito vendo fotos, roteiros de viagens comentados, e-mails trocados. Achei arquivos da época em que eu trabalhava como tradutor de inglês e francês (e hoje eu quase preciso de um dicionário para ler a Vogue!?). E descubro mais sobre mim mesmo do que eu lembrava ouvindo meus arquivos de MP3. Mas mesmo com tudo isso aconteceu uma coisa boa: dancei sozinho pelo quarto, quase uma música toda, na verdade o fim de uma e o começo da outra. Minha playlist de Groove Armada. No big deal, mas isso era algo bem comum pra mim, e agora fazia quase 5 meses que não acontecia. Um calorzinho bom em algum lugar dentro de mim me lembra que talvez eu ainda possa estar vivo. Lembro de uma semana no começo de namoro em que a gente tentou só falar em inglês. Lembro de uma amiga com que eu conversava horas no telefone em francês.
Decido que vou voltar a pensar em francês.
Decido que vou fazer italiano.

Hoje acordei com um dilema. Eu não tenho uma banda preferida. Nunca tive. Fiz o que pude para gostar de U2, seria fácil, ninguém duvida que U2 possa ser a banda favorita de alguém. Não funcionou. Eu até gosto de várias músicas, e lembro que fiquei uma semana obcecado com Stuck in a Moment. Talvez o problema seja o Bono. Sei lá, muito bom mocismo. E sempre achei o The Edge mais interessante.
Decido que vou fazer italiano e escolher uma banda preferida.
Penso nisso em francês.

Vou para o trabalho. Colega loira de conjunto de saia e blusa bordô e casaco 7/8 preto me espera ansiosa. Quer saber se eu tenho um modelo de petição sobre descumprimento de preceito fundamental. Enquanto procuro, tomamos chá verde e conversamos sobre a filha dela que se forma mês que vem no segundo grau. O vestido já está comprado, cetim, renda, bordados. Cor de laranja. Discutimos sobre o cabelo da menina, que quer fazer alisamento com luz. Ela me conta que a filha quer passar o feriado na praia com as amigas, mas que o pai não quer deixar. Eu digo: “Deixa a menina, o que ela pode fazer? Fumar um baseado e fazer sexo irresponsavelmente. Se ela não fizer isso aos 18, vai fazer quando?”. Amiga responde: “Eu também acho, o problema é o marido.”
Decido que não vou ter filhos. Tá, eu já tinha decidido isso há mais tempo.

Colega strawberry blond, de terninho azul-marinho e camisa rosé. Elogia meu sapato (couro de cavalo em três tons de bege). Discutimos a aprovação da MP 258 na Câmara. Comunico que decidi fazer italiano. Ela diz que italiano a lembra da avó xingando e de filme pornô antigo. Que fim terá levado o Rocco Siffredi.
Desisto de fazer italiano.

Colega de terno bege camisa mostarda e gravata cinza diz, em tom sigiloso, que precisa falar comigo. Saímos da sala. Ele me pergunta como é que consigo fazer esse negócio na barba. Pergunto que negócio. Ele quer saber como é que eu faço o contorno na bochecha ficar regular, me explica que tentou e não consegue, sempre fica torto. Simples, não uso espuma, uso condicionador de cabelo, então consigo ver o limite da barba, e uso o aparelho de lado.
Desisto de tentar entender como ele sai de casa vestido assim.

Não tenho mais concentração para o trabalho. Vou para o cinema. Assisto Elizabethtown. Choro horrores. Não que o filme mereça. Eu é que preciso. Quem nunca perdeu alguém que ama não vai entender a personagem da Susan Sarandon. Quem já perdeu vai achar um pouco caricata. O filme vai a muitos lugares e não chega a nenhum. Na tentativa de ser comédia-romântica-mas com conteúdo filosófico, o filme fica superficial e insosso. Na verdade o filme é como sua trilha sonora, forçado e esforçado, para agradar todo mundo, vender bastante e não dar pinta de comédia bobinha. Não funciona. Esse truque de pegar um monte de piadas, dramas e soluções clichês, dois atores jovens revelação e um ator oscarizado para dar consistência, dessa vez, não funcionou. Acho Oliver Bloom e Kirstem Dunst meio feios.Ela tem dentes feios. Nesse filme os dois estão horrorosos, mal vestidos e de cabelo sempre sujo.
Gosto da Judy Greer, da atriz e da personagem.
Mas sempre salvo alguma coisa. Desse filme tiro duas frases:
“As pessoas nunca são tão misteriosas quanto pensam que parecem ser”
“A questão é que os homens enxergam o mundo dentro de uma caixa quadrada, e as mulheres, dentro de uma sala redonda”.
Desisti de pessoas misteriosas já faz tempo.
Desisti de achar diferenças entre homens e mulheres. Meu interesse está na espécie e não no gênero.
Desisto de pensar, mesmo em francês.
Desisto de ter uma banda preferida.
I'm just trying to find a decent melody/A song that I can sing in my own company”

quarta-feira, novembro 09, 2005

Espadrilhas


Amiga louca para desfilar nesse verão me pergunta: afinal o que é espadrilha?
Eu, amigo que tá aqui pra isso, respondo.
Espadrilha, ou espadrille, ou alpargatas, ou alpercatas, são sapatos de lona, com bico redondo e solado de corda. De origem mediterrânea, era um sapato usado por pescadores. Só ficou popular a partir do segunda metade do século XX, já com solado de borracha.
Portanto, espadrilhas têm cara de verão.
E agora têm cara nova. Agora espadrilhas são sandálias com plataformas forradas de corda e são a última herança do estilo boho. Mas nesse verão que se aproxima, não vai ser filha de boa família, a linda que não pisar numa.
Elas funcionam com todos os hits do verão. Ficam lindas com os vestidões estampados, com as saias rodadas e com shorts de alfaiataria.
São bem confortáveis (embora eu, é óbvio, nunca tenha usado uma) e infinitamente mais bonitas do que aqueles tamancos com plataformas de borracha. Aliás, aqueles tamancos em branco e com tiras de dedo são uma das piores aberrações que eu já vi.
Outra vantagem das novas espadrilhas é que, diferente dos tamancos de plataforma, são convenientes a todas as idades.

Mas nem tudo são flores. As espadrilhas podem ser uma armadilha para quem tem pernas grossas por causa do bico redondo e da amarração no tornozelo. Quem tem canela grossa faz melhor escolha com os modelos sem amarração e com o bico mais leve, ou mesmo aberto.
E vamos esclarecer: espadrilhas não combinam com roupas formais e nem com meias.

Quer entender de uma vez qual é o espírito das espadrilhas? Então assista Roman Holiday, com Gregory Peck e Audrey Hepburn.
Pensando bem esse filme é lição de casa para quem quiser entender o que vai acontecer com a moda ano que vem. Todo mundo está apostando no renascimento do clássico, o fim da linha girlie, dando lugar a uma nova figura mais feminina e decidida, mas sem perder a classe.
Resumo da ópera: a princesinha cor de rosa, cheia de bordados e badados que atravessou esse ano, vai passar o verão de saia rodada e cintura marcada e sandália mediterrânea. Vai, é claro, se apaixonar e provavelmente quebrar a cara (amor de praia não sobe a serra), mas depois, quando o inverno chegar, será uma nova mulher, não mais aquela princesinha boba, mas uma rainha poderosa, metida num tailleur acinturado com saia tulipa, e pronta para assumir o controle de sua vida.

terça-feira, novembro 08, 2005

Eletro selvagens

"I know that you and Frank were planning to disconnect me. And I'm afraid that's something I cannot allow to happen."

Computador novo.
Back-up do antigo. Quase seis anos da minha vida salvos em 10 CD´s. Cinco só de música. Sei a história de cada uma, por que cada uma está lá. E disso não dá para fazer back-up.
Bom, talvez agora dê, talvez seja essa a função não virtual do blog. Uau, meio assustador isso. Dados da minha vida, indo para uma dimensão sobre a qual eu não sei qual é o meu controle...
Logo que comecei a trabalhar aprendi uma coisa cruel, mas que me manteve vivo. Além de aprender o que vestir, aprendi uma das minhas máximas: não trate funcionários como seres-humanos (=não se iluda, eles não pensam); não trate computadores como máquinas (=eles tem temperamento próprio).
Hoje já considero que alguns funcionários não só pensam como têm grandes idéias. Alguns têm até sentimentos. Mas quanto aos computadores não mudei minha impressão.
Meu computador antigo, faz uma semana, percebeu que algo iria acontecer. Resolveu ficar de mal. Deletou textos, sumiu com favoritos e travou minhas fotos. Tudo bem, eu não insisto com ele. Quando ele não está afim, desligo e deixo para o outro dia.
Mas os que ficaram realmente magoados foram a TV e o DVD, primeiro por que não perderam o posto de caçulas do quarto, depois por que agora são da minoria prateada. Acontece que primeiro chegou o DVD player, prateado e exibido, fazendo pouco dos seus colegas de estante por que eram todos pretos com pezinhos dourados totalmente demodês. O pobre aparelhinho da Net ficou arrasado, porque nem pezinho dourado tinha. Pouco depois chegou a TV nova, também prateada. O aparelho da Net entrou em curto, teve de ficar uns dias afastado. Mas agora chegou o computador novo, moderníssimo, todo preto, com quase nada de prata. Black is back, cantam todos.
Engraçado isso. Até um tempo atrás todas as tranqueiras modernas eram pretas. Meu primeiro computador (um TK 90X) era preto. As televisões foram da madeira para o preto. Os vídeos cassetes nasceram pretos. Nossa máquina de escrever elétrica era preta. Câmaras fotográficas e filmadoras eram pretas. Todos os aparelhos de som eram pretos. Os celulares também nasceram pretos.
Então vieram os computadores beginhos. E ninguém conseguiu emplacar outra cor durante anos. Agora eles são pretos novamente.
Sim, mas o prata ainda parece ser a cor básica da modernidade. Não sei se é causa ou conseqüência, mas todos os filmes de ficção científica que eu já vi apostavam num 2000 prateado.
Um breve passeio pelas boas casas do ramo nos mostram que hoje tudo que precisa de mais do que um fio para funcionar é prateado. Mas há também tentativas retrô com um pouco de madeira.
E tem o I Pod, branco, com fio do fone branco.Sem dúvida uma idéia genial. Qual cor seria mais apropriada para algo que a gente fica pegando toda hora? Branco, é claro. Depois de uma semana é aquela luta com o bichinho todo encardido.
Não bastasse a fortuna que custa montar todo esse parque tecnológico,só para descobrir que ele vai estar ultrapassado antes que a gente pague a última parcela, ainda temos que mantê-lo esteticamente moderno. Assim não dá. Minha estante, que tinha um lado para a aparelhagem preta e outro para o computador bege, agora está parecendo um carro alegórico de escola do grupo de acesso!
E na verdade, essa questão da modernidade está se espalhando pela casa toda. Os conceitos antigos de eletrodomésticos e eletro-eletrônicos estão indefinidos. Será que computador é eletrodoméstico? Se for, simbora botar um guardanapinho de croché em cima.
Fico olhando nossa cozinha toda branca. Hospitalar, não só pela limpeza e brancura, mas pela quantidade de luzinhas e bips. Uma grande UTI gastronômica. Lembro da cozinha do nosso primeiro apartamento. A geladeira vermelho-bombeiro, com detalhes em rádica de mogno. O fogão combinando. Depois nos anos 80 chegou o freezer marrom clarinho, que parecia um caramelo Embaré gigante. Na mesma época compramos uma batedeira, um liquidificador e um triturador combinando.
Hoje é tudo branco. Fogão, geladeira, exaustor, microondas, grill, máquina de pão, processador, lava-louça, lava-roupa, secadora... A cafeteira, que é a peça mais nova, já é preta de novo.
Meu pai quer trocar tudo pelas modernas versões em aço. Minha mãe diz que nem pensar porque aquilo fica é cheio de marca de dedo. Eles até foram olhar a linha colorida da Brastemp, mas não gostaram, disseram que parecia tudo de brinquedo.
Tudo muito rápido. Muita coisa para administrar. Não consigo imaginar de que cor será a casa do futuro. Não consigo imaginar o futuro. E se todos os eletro,que hoje são cada vez menos domésticos, ou domesticáveis, resolverem se rebelar? Essas criaturas já se anunciam como inteligentes, mas têm um ego complicado, e não vem com chip superego para segurar a onda. Pensando bem, vou mandar meu computador antigo para a análise, antes que ele transfira tudo isso para alguma pulsão. Acho que vou levar o vídeo-cassete junto, just in case.

"This conversation concerns no purpose anymore... goodbye!