
Assitimos Brokeback Montain.
Nosso primeiro filme juntos.
Mãos dadas. Cabeças encostadas. Secaste minhas lágrimas.
Saímos do cinema e nos abraçamos dando risada. Naquele momento constatamos que não precisaremos de vinte anos.
Brokeback Montain é uma decepção para os apaixonados.
Brokeback Montain é uma visão hétero sobre o que se pensa ser o amor gay.
É uma visão gay sobre o que se pensa ser o amor hétero.
É um filme que não fala de amor. Ou de paixão. Ou onde os sentimentos são tratados da única forma que não se os pode tratar: matemática, maniqueísta, reducionista.
Ou quem sabe é um filme que trata de um amor como ele foi possível. Afinal não há para o amor qualquer fórmula. E se houvesse, para mim não serviria a fórmula Brokeback. Não me convence o amor que não é. Não me convence esse amor que vive do que foi um dia ou do que poderia ter sido.
É um filme bonito. Não há dúvida. Embora a primeira meia hora seja esteticamente cansativa de tão bonita. São tantas cenas e paisagens fotográficas que se tem a sensação de se estar assistindo uma projeção de slides. Não, a trilha sonora não melhora em nada. Talvez essa seja mais uma jogada rigorosamente ensaiada do diretor. É, o filme todo trata a vida dos protagonistas como uma sucessão de slides.
O figurino é lindo. Fetichista, machista, gay. O filme é pontuado por fetiches. Estão ali todos os clichês do homo-erótico. Os atores são daquele bonito plausível, que se acredita pode um dia cruzar nossa esquina. A maquiagem do envelhecimento de ambos é patética. Mas o filme tem, sim, uma riqueza estética.
E tem, escondido, uma beleza poética. Não a poesia roteirizada que logo se esgota, mas uma poesia que vem através de imagens e de atitudes não focadas em close, mas que vistas no todo da história fazem pular os corações que reconhecem aquilo.
Não é um filme fácil. Ele não acaba quando as luzes se acendem. É desses filmes que fica pior na hora seguinte e melhor depois de um dia. É um filme de uma sutileza marcante. Cenas pontuais que dizem mais que o filme inteiro. Cenas que envolvem água, louça e roupa lavada. Por favor, reparem em qual camisa está sendo lavada.
E penso no filme. E penso em mim, em ti, em nós.
Não será esse o filme da nossa história. Será nosso primeiro filme juntos, assim ficará no nosso álbum, mas é só.
Temos conversado muito sobre isso. Será esse meu primeiro amor adulto. Será esse teu primeiro amor não adolescente. E aí existe uma distância. Temos, cada um, a sua história, seu tempo, suas reminiscências e intolerâncias. Temos, cada um, sua visão hipotética e categórica do dever ser, o futuro, de aonde queremos chegar. Hoje nos parece inegável que queremos chegar ao mesmo lugar, e chegar juntos.
Mas e o caminho?
Bom, eu já fiz uma bela parte do meu caminho. E eu estou aqui, onde me encontraste. Mas e o teu caminho? Não o posso fazer por ti, ou contigo. É uma das nossas sutilezas. Estou redescobrindo coisas que tu só agora está descobrindo. Olho teu fascínio com ar nostálgico. Por vezes revivo eu mesmo a sensação que está nos teus olhos quando me olhas. Sou feliz, sim, ao teu lado. Estive, ainda que sem saber, ou acreditar, te esperando a vida inteira. És na minha vida algo novo, verdadeiro e, para tantas coisas, primeiro. Mas não me fazes voltar no tempo. Para ti, o que eu ofereço é meu hoje e, se isso fosse possível, meu futuro.
Não quero que faças sacrifícios por mim. Não que eu não os mereça, mas não preciso deles, ou ao menos os quero. Não faças nada por mim, faças por ti, ainda que através de mim. Não quero a responsabilidade das tuas mudanças. Não mesmo. E não quero projetar nossa história na expectativa de que tu mudes. Mudarás, é bem provável, mas não te quero moldar. Tem sido tudo o que eu espero. Vivo o receio de criar a absurda presunção de sempre o serás. Vivo o medo que me provoca o jeito que tu me olhas. Sim, eu sei que tenho te oferecido sensações novas, sei que sou muito próximo do teu príncipe encantado. E acredite, eu sou ele mesmo, mas isso não faz de mim um super-homem ou qualquer coisa além do humano.
E além disso também eu mudarei. Ainda e bastante. Em 19 dias já criamos planos, já achamos certezas, já nos reconhecemos muitas vezes. Mas não somos uma obra acabada. Longe disso. Tenho meus medos. Minhas dúvidas. E meus fantasmas.
É muito o que eu sinto e o que eu sei é nada.
Mas não vamos pensar nisso agora.
Me dá abraço.