sábado, maio 23, 2009

Idiossincrasias



Idiossincrasia.
Adoro essa palavra.
É uma palavra que volta e meia entra no vocabulário restrito dos pedantes.
Contudo, poucas vezes a palavra é usada corretamente. Idiossincrasia é o modo pessoal de reagir a algo.
Gosto de acreditar, então, que eu sou eu e minhas circunstâncias e, também ou portanto, eu sou eu e minhas idiossincrasias.
Basta a gente dar uma conferida no próprio passado e descobrirá, inevitavelmente, que muito do que aconteceu conosco é fruto de reações que tivemos diante de situações que não esperávamos. Aquela velha história de quando a sorte bate a nossa porta, ou quando o tal trem passa. O que se faz numa hora dessas, acreditem, é sempre óbvio. Óbvio no nosso próprio contexto.
O que quero dizer é que se nos déssemos a devida atenção, saberíamos que temos um modo pessoal – logo peculiar – de reagir que, se não compreendido e apreendido, vai se repetir instintivamente. E daí é aquela coisa do raio caindo sempre no mesmo lugar,e a gente teimando que a culpa é do raio.
Tenho uma amiga querida que está sempre às turras com o marido, às turras com as filhas, às turras com o trabalho. Conheço-a há quase dez anos e sei que ela sempre cai – de testa – na mesma armadilha. Na sua própria armadilha.
Como qualquer mulher moderna ela está sempre correndo. Sempre estressada. Sempre sobrecarregada. E de repente ela joga tudo para cima dá uns gritos, arma um barraco e vai para a psiquiatra, ou para shopping, ou para ambos. Quando a crise é mais grave ela redecora a casa, ou o próprio corpo.
Mas o ponto é que linda está de olho no já. Em todos esses anos nunca a vi pensando no que pode acontecer. Aliás, isso é uma verdade parcial. Ela sempre pensa nas vantagens que pode tirar se uma situação. Mais que isso, ela as projeta, ela conta com elas. Quando não acontecem, começa um ciclo de reclamações.
Em compensação, nunca a vi pensando no que pode dar errado, ou em quais desvantagens uma escolha pode trazer. Quando as desvantagens chegam, vêm os gritos, os barracos, a psiquiatra, o shopping...
Foi assim quando escolhemos as áreas em que nos especializaríamos no trabalho. Ela escolheu uma área complicadíssima, mas na qual acreditaria teria muitas oportunidades de viagens. As viagens não vieram na proporção esperada. Mas o trabalho continuou difícil. Reclamações, reclamações, gritos, barraco...
As filhas foram mimadas ao extremo quando crianças. Foram tratadas como bebês até o limite do ridículo e da comodidade da mãe. Agora são adolescentes em crises insaciáveis. A mãe reclama, reclama, depois grita, arma o barraco...
Ela resolveu colocar silicone porque tinha uma festa importantíssima na qual queria usar um decote inesquecível. Colocou próteses maiores do que o recomendável. Agora vive se achando gorda. Reclamações, reclamações, crise, psiquiatra, remédios para emagrecer, nervos à flor da pele, gritos...
O resultado é que minha amiga já tem fama, não só de estar sempre tentando tirar vantagens, já tem fama de reclamona, barraqueira e, pior, de egoísta.
E ela, acreditem, é uma pessoa maravilhosa. Apenas é vítima de suas próprias reações. Sempre as mesmas.
Um agravante, que atinge a todos nós, é que geralmente nessas horas de crise, em que temos de reagir, temos também de fazer uma nova escolha... já viu. O ciclo, como bom ciclo, se repete e perpetua.
Não se trata de mudar quem se é, mas o dogmático conhecer a si mesmo. E o que fazer com isso.
Somos, sim, nossas idiossincrasias. Também nisso reside o que nos faz únicos, individuais e individualizados. E, eis o ponto, nisso pode estar mais uma chance de sermos melhores. E, principalmente, mais felizes.

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