terça-feira, março 31, 2009

Epifania castiza


Muito da magia das viagens, para mim, está nas epifanias.
Epifania é um momento de revelação, é um momento em que compreendemos algo divino.
Epifania é o que os católicos comemoram no dia 6 de janeiro, como referência á assunção humana de Jesus. Jesus se revelando para o mundo.
Blábláblá. Epifania é uma maneira bonita de dizer que cai uma ficha.
Pois eu tenho muitas epifanias em viagens, ou na seqüência destas. Provavelmente porque a mudança de circunstâncias abre minha percepção.
Agora, escrevendo sobre Madri, me dou conta (olha a epifania aí, gente!!!) do que falava outro dia sobre as madeleines e A elegância do Ouriço, sobre saciedade de anseios aparentemente distintos, como um livro excelente me despertar uma fome específica de algo igualmente excelente.
Madri, como tenho descrito, foi dessa plenitude de saciedades.
E acho que muito disso se deve a um desses requintes do universo que chamam de coincidências. Eis que estávamos em Madri na semana do dia 15 de maio – dia de San Isidro – patrono da cidade. Sabíamos do feriado, só não sabíamos o que isso significava para os espanhóis.
Então que durante toda a semana, em qualquer lugar, a qualquer hora, as ruas estavam cheias de madrilenos vestidos com o tradicional castizo. Mulheres com aqueles vestidos cheios de babados e estampados com poás, xale com franjas e cravos no lenço que cobre a cabeça. Homens de calça, colete e camisa branca e usando a parpusa, um boné preto e branco. Gente de todas as idades, por toda a parte. Um deleite.
Somou-se a isso uma apresentação de La Zarzuela, a ópera espanhola, encenada em plena Plaza Mayor, com entrada franca. E culminou com nossa última noite em Madri sendo brindada com um show de música clássica, luzes, águas e os indispensáveis fogos de artifício no deslumbrante lago do Parque del Retiro.
Para mim, que sou uchouchoucho-gaúcho, os castizos da semana de San Isidro têm especial significado. É que aqui por estas bandas, temos a Semana Farroupilha, em setembro, e tenho na minha lembrança de infância uma cidade orgulhosamente vestida em trajes típicos. Era um tal de prendas e gaudérios pelo centro da cidade...sei lá, umas das poucas nostalgias da tradição gaúcha que não me constrange de todo.
Hoje o que me resta? Ver meus conterrâneos ostentarem orgulhosamente as camisas do time do coração pelo mundo afora. Sim, sim, gremistas e colorados orgulham-se de suas fotos de viagem envergando a camiseta do respectivo clube, como se nisso residisse sua última fleuma regional.
Não entendo. Não entendo mesmo.
Bom, enfim, não entendo roupa de poliéster em geral...
Saudade. Saudade de Madri. Saudade da vida num ritmo que me faz mais sentido. Saudade de gente que sente orgulho de coisas que me fazem mais sentido.
Eu, minhas epifanias e as reticências...

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sábado, março 28, 2009

Bocadillo-Tudo


Perceberam que Madri é um X-Tudo?
É, Madri tem de tudo e sacia a todos os sentidos. Madri é antiga e absurdamente moderna. É pequena e ampla. Tem arte por toda parte, mas nenhuma afetação. É divertida e tem um quê de nostálgica. Em Madri tudo inspira a ver, sentir, beber, comer.
Madri não te deixa exausto, te deixa satisfeito.
Voltando a nossa programação diária, por volta da 1, 2 da tarde é hora da siesta, ou seja, quase tudo fecha e é o sinal da hora de comer alguma coisa. As tapas são tudo aquilo que se diz. São variadas e deliciosas. Mas não se restrinja às fatias de presunto serrano, pata negra ou dulce, nem às fatias de queijo manchego. Pense também em batatas fritas com molho picante, na magnífica tortilla espanhola (algo entre uma omelete e uma torta de batata), pense nas croquetas, e pense muito na salada de batatas com molho de alho. E nos calamares.
Ah, os calamares... A nossa lula, cortada em anéis, empanada e frita. Em azeite de oliva, bem entendido. Os calamares são para os espanhóis o que a calabresinha é para nós. E já que estamos falando sobre os espanhóis, acredite, muito mais madrilleno que as tapas são os bocadillos. Bocadillo é uma porção de qualquer coisa frita e inserida dentro de um pão d’água. Sim, sim quase um hot dog, um sanduíche, um pão com carne louca. O bocadillo de calamares é algo tão essencial ao espanhol que muitos lugares vendem exclusivamente a iguaria. E não se bebe tanto vinho ou xerez quando se imagina. A pedida mesmo é um caña, o nosso querido chopinho.
Em Madri a gente dividiu um balcão de pouco mais de três metros de cumprimento com uma senhora vestindo um tailleur Chanel cor de cobre com um ouriço de brilhantes e rubis na lapela, que calmante mastigava seu bocadillo de calamares e sua caña
Para que almoço? Para quem quiser, é o momento de comer um paella. Os restaurantes fazem uma de cada vez, para que estejam sempre úmidas. Até as 4 da tarde é possível achar uma recém feita.
Como a gente não pretendia dormir, aproveitava a hora da siesta para ir às grandes lojas (que não fecham) como El Corte Inglês, Zara, Lefties. Tudo baratinho.
E os sapatos??? Uma rua inteira deles: Calle de Fuencarral. E ainda dá para emendar na Calle de Augusto Figueroa e conhecer o mundo da subcultura modernosa de Madri: o bairro Chueca, meca dos gays, modernos, travestis, prostitutas e afins. Se for demais para você, caminhe duas quadras e estará de volta à Gran Via, a mais tradicional e perfeita tradução de uma capital européia.
Rendas, bordados, tecidos para vestuário e decoração: arredores da Plaza de Pontejos.
Abra a mão e compre jóias de damasquino e pérolas de Mallorca. As mães, comovidas, agradecem. E, cá entre nós, são bem mais úteis do que as inevitáveis mantilhas e leques.
Quer glamour: Calle de Serrano. Quer ver povo: El Rastro.
Após a maratona diária de compras, encerrávamos o dia com o indispensável chocolate quente à espanhola. Aquele que a Angelina em Paris tenta imitar (e consegue bem mais do que isso!). Um chocolate tão cremoso que não dá para beber, melhor é molhar neles churros quentinhos, recém fritos, ou para os mais gulosos, as porras, versão mais massuda.
A gente ainda encontrava fôlego para passar na Mallorquina e comer uma trufa.
Daí era ir para o hotel tomar um banho e relaxar até umas 9 da noite, e então sair para mais tapas e cañas, no melhor estilo Maysa: bar em bar. O que se estendia até a gente entrar em êxtase de tanta felicidade e álcool.

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quarta-feira, março 25, 2009

Madri


O que dizer de Madri? Sabem aquela história de amor à primeira vista? Pois é.
Fomos para Madri no meio daquela novela eleitoreira da imigração em Barajas. Era um tal de deportados e incidentes diplomáticos que nos questionamos seriamente se seria necessário passar por isso.
Mas tínhamos tudo certinho, hotel reservado para todas as noites, passagem de ida para Paris, guia de viagem e – o mais importante – passaportes cheios de carimbos para comprovar nossa boa intenção turística internacional.
Tudo em vão, como já tínhamos entrado por Portugal, nosso desembarque em Madri foi doméstico, nem o comprovante da bagagem foi conferido.
Daí a gente chega ao hotel, na verdade um hostal duas estrelas a meia quadra da Puerta del Sol. Surpresa: nossa própria chave da portaria, um quarto com piso de mármore, banheira e persianas elétricas.
Duas quadras depois estávamos na Plaza Mayor, eram 4 da tarde e quase todas as mesas estavam ocupadas – para o almoço. Sentamos num daqueles restaurantes evidentemente turísticos e comi a melhor carne de porco da minha vida: filezinhos de lombo fininhos, empanados e perfeitamente temperados. Mal sabia eu que o melhor estava por vir.
Logo notamos que Madri é uma cidade medieval. No centro a gente anda, anda e acaba no mesmo lugar, porque muitas ruas são em espiral. Em uma semana inteira, conhecemos todos os pontos obrigatórios sem entrar em um único táxi, metrô, ou ônibus. Não é o paraíso?
Não, é melhor. Porque em Madri a gente acordava lá pelas 10, tomava café da manhã na La Mallorquina, com tostadas mistas, suco, café, napolitanas de chocolate, e mais alguns doces, sempre baratinho (coisa de uns 8€ por cabeça). Uma gracinha, eles trazem a xícara só com café e servem o leite na sua frente, ao seu gosto.
Daí a gente ia fazer um ponto turístico. O castelo real é um mini Versalhes, porque foi construído no século XVIII, quando a Espanha tinha um rei Bourbon. Quase vale mais a visita por fora do que por dentro... A catedral. Idem.
Já os museus, ah os museus. O Museo del Prado é inenarrável. Tem, é claro, Velázquez, El Greco e Goya. E maravilhosamente tem as Pinturas Negras de Goya. É que ver os retratos que Goya pintou para a realeza espanhola (o Shakespeare dos pincéis) e depois ver o que Goya pintou na intimidade das paredes de sua casa, é acabar com toda e qualquer discussão sobre valor artístico e valor da arte. O Goya que pintava retratos para pagar as contas não é menor que o Goya das Pinturas Negras de forte cor política. Sua genialidade está justamente em ser um único Goya.
Mas meu momento de elevação com a arte se deu no Centro de Arte Reina Sofia, onde, depois de 10 minutos sozinho na sala dos Miró’s cai no choro. Miro não só é um dos meus pintores preferidos, mas é um dos que mais respeito. Miro começou expressionista e um dos bons, mas depois começou a se reinventar e aparentemente simplificou seu traço. Miro foi surrealista uma década antes de se falar em surrealismo.
E tudo isso acontecia antes da 1 da tarde, quando então era hora de beber alguma coisa e comer umas tapas. Umas quantas.

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segunda-feira, março 23, 2009

Um desejo nada proustiano




Um dos meus muitos caprichos burgueses são os livros.
Cresci cercado de livros. As coleções de clássicos encardenados eram um dos must have da classe média do fim da ditadura. Os livros eram, além de tudo, adornos que as boas famílias exibiam com orgulho (quase tanto quanto filhos que os tivessem lido). Edições costuradas à mão, com adoráveis capas duras forradas de couro, com letras douradas em baixo relevo, para serem lidas sobre o apoio da mesa ou escrivaninha, ou cuidadosamente apoiadas numa almofada sobre o colo. Tínhamos clássicos de Tolstoi, Stendhal, Guy de Maupassant. Tínhamos também os esclarecedores diálogos de Platão, um pouco de Voltaire e Rousseau (um dos meus primeiros ídolos...). Toques de Freud e discípulos e as indispensáveis enciclopédias (incluindo a tentadora enciclopédia sexual ilustrada...). Sem falar dos fascículos colecionáveis que, ao fim, eram, por óbvio, devidamente encadernados.
E não tínhamos proibições.
Mas a questão é que não se comprava livros. Não como hoje.
Felizmente descobri cedo o mundo das bibliotecas, ou teria ficado terrivelmente desatualizado.
Eis que por anos não vi lógica em comprar livros. Podia sempre consegui-los emprestados. E eu sempre tinha uma outra prioridade na minha lista para meus parcos dinheirinhos.
Depois de adulto, monetariamente estabilizado e com outras pulsões já saciadas, me dei ao prazer de comprar livros.
Compro-os por indicação, por curiosidade, por pesquisas, pelas orelhas, pelas capas. Compro-os e os empilho. Tenho sempre uma pilha, no canto da estante, de livros a serem lidos. Lerei-os ao sabor do meu humor. Vejamos, hummm, hoje estou com vontade de romance...hum ou será de um pouco de história...?
Essa semana li A elegância do ouriço, de Muriel Barbery. Mais um livro na escola Alain de Botton de filosofia na vida cotidiana, mas com o mérito de ser antes disso um belo romance. Um romance francês, bem entendido. Falaremos sobre esse livrinho por aqui outrora.
E então que o li inteiro (350 páginas) em um ou dois dias. Li não, devorei.
É que ainda que tenha livros que estou lendo há anos, em doses de suportabilidade, a maioria é lida vorazmente, com uma ansiedade que só acaba na contracapa. Depois o livro fica no meu pensamento por dias, rendendo descobertas e conclusões. Fico uns bons dias digerindo o livro.
Só que acabei me dando conta da literalidade dessas metáforas. Devorar, digerir. Percebo que uma das primeiras reações que tenho com a leitura é um desequilíbrio de saciedades: a mente preenchida e um vazio do resto. Falta-me preencher outros sensoriais. Livros, por exemplo, não têm gosto.
E vai ver é essa a magia da leitura: despertar outros anseios.
A elegância do ouriço me deu fome, ou melhor um desejo específico. Uma das cenas chaves se passa em torno de uma mesa de chá com madeleines. Sem qualquer ranço proustiano.
O resultado é que fiquei com uma delirante necessidade de madeleines, e só não as assei no meio da noite – o que seria bem o meu estilo - por uma excepcional falta de limões em casa.
Bem, vocês sabem, a pessoa tem aquela coisa com postergações de desejos. Madeleines feitas, e nosso café da manhã de sábado teve gosto de romance francês, de Paris, de cultura francesa, de que somos diferentes e de por que o somos. Sem qualquer ranço proustiano.
Quem sabe, minha pilha de livros seja, enfim, uma reserva de potenciais anseios. Quem sabe eles estejam ali como um estoque de desejos a serem sentidos
Sim, sim, há nisso evidentes riscos. Libertarmos desejos é sempre uma operação de risco.
Grande coisa. Não vejo problema em ter também alguns riscos na minha pilha. Acho, inclusive, salutar. Afinal, como diz a personagem central: A faculdade que temos de manipular a nós mesmos para que o pedestal de nossas crenças não vacile é um fenômeno fascinante.

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sexta-feira, março 20, 2009

Dói-me o universo






O que houve com Lisboa, enfim, foi que eu esperava muito. Esperava a beleza de Paris, a educação britânica e o toque latino espanhol.
Cometi o erro mais primário de um viajante: fui desrespeitoso com o lugar. É preciso esperar de Lisboa o que Lisboa tem de si mesma para dar. Agora entendo isso, e sinto que preciso voltar e pedir desculpas para a cidade.
Mas mesmo com minha má vontade, Lisboa me deu um presente: uma frase que nunca mais esquecerei. Na estação Parque do metrô, descendo as escadas rolantes por um túnel de lindos azulejos azuis, há várias citações, entre elas a frase que eu não conhecia, mas que me explica com a simplicidade que só Fernando Pessoa poderia ter:

DÓI-ME A CABEÇA E O UNIVERSO.

Obrigado, Pessoa. Desculpe-me Lisboa.


Uma piada interna e infame.
Na Praça do Comércio, tem um trailer que vende uma massa frita coberta de açúcar e canela, parecida com o nosso churros, que lá se chama fartura.
No nosso último dia em Lisboa, frio e com uma garoa chatinha, chegamos ao fim de tarde exaustos e extasiados com a visita ao Oceanário de Lisboa – um dos lugares mais mágicos que já conheci, com pessoas adultas virando crianças e correndo atrás do peixe-lua, a grande vedete do aquário. Não tínhamos mais nenhum ponto turístico para visitar, não havia uma única loja onde já não tivéssemos entrado. E não queríamos ir para o hotel, pois certamente não teríamos forças para sair de novo. E eu pretendia jantar, porque ainda não tinha comido os caracóis anunciados em plaquinas na Baixa. A solução: sentamos num banco da Praça do Comércio para recuperar as forças e comemos uma porção de farturas. Rimos muito da nossa situação e aprendemos a preciosa lição sobre Portugal: em Lisboa, tem horas que só nos resta a fartura.

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quarta-feira, março 18, 2009

Muito mais do que bacalhau




Então o que sobrou? A comida! Sim, sim, tudo o que você ouviu falar sobre a comida portuguesa é verdade. É quase tudo maravilhoso.
Tudo de bacalhau, mas especialmente o óbvio com três dedos de altura sobre um dedo do melhor azeite. Mas também o bacalhau com natas, que vem sempre com a observação de não ser típico, o que não lhe impede de ser delicioso.
Tudo o que vem do mar, ainda mais aquilo que a gente não conhece. Cataplanas. Escolha lagostas e caranguejos nos aquários das virtrines. Peixinhos fritos com nomes engraçadinhos como carapauzinhos.
Mas também tem os enchidos, leitãozinho, frango e coelho.
Arroz de pato, arroz de lentinha, arroz doce.
Ai, os doces.
Entrei na Confeitaria Nacional, parei em frente do balcão principal e pedi dois de cada. Sim pedi tudo, das queijadinhas aos toicinhos do céu, passando pelas barrigas de freira. Saí carregado com duas sacolas da mais tradicional confeitaria conventual. Mas, infelizmente, após umas quatro mordidas a gente percebe que tudo tem o mesmo gosto: de ovo.
Mas calma, em doses mais sensatas, são uma delícia.
A mesma coisa ocorreu com os pastéis de Belém, os primeiros são um sonho, mas meia dúzia depois...
Ideal mesmo é reservar uma tarde para a pastelaria Suíça, na praça do Rossio e ir pedindo tudo o que estiver disponível. Meus prediletos são os lamegos, quase um pastel de Belém ,só que com amêndoas. E os duchesses, bombas do melhor chantily que já provei na minha vida.


Agora, a melhor experiência gastronômica de Lisboa, e a razão secreta de minha viagem, foi provar o queijo da Serra da Estrela. Um queijo de ovelha, como miolo tão macio que a gente come de colher. E nós comemos um de quase um quilo. Compramos na merceariado El Corte Inglês, e comemos em cima da cama do hotel, com pão e vinho. Uma das melhores refeições da minha vida.
E por falar no El Corte Inglês, na padaria conheci o Bolo de Arroz, um bolinho úmido com gosto de limão e crosta de açúcar, tão absolutamente perfeito que eu estou tentando reproduzir em casa desde então.


Por fim, um brinde com Ginginha, um licor de uma frutinha, parecida com uma cereja, que é a bebida oficial da happyhour lisboeta.

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terça-feira, março 17, 2009

Isto aqui ohohhh é um pouquinho de Lisboa, ahahahhhh




Satisfação é o resultado de uma equação entre expectativa e realização.
Lisboa.
Lisboa ficou aquém das expectativas.
Pelo menos enquanto estive lá, não gostei de Lisboa. É que Lisboa é muito Porto Alegre. É muito Brasil. Não que isso seja um defeito, mas não era o que eu esperava. Problema meu?
Chegar à Lisboa foi de graça. A passagem para Madri pela TAP tinha conexão em Lisboa. Ficar quatro dias nessa conexão alterou o valor da passagem em menos de R$ 100,00 ( Madri/Paris de lowcoast saiu U$ 50,00, mais €40 de excesso de bagagem).
Lisboa.
Aeroporto é aeroporto, não interessa onde. A estrada até o centro da cidade é sempre aquela coisa meio triste também. Periferia é um tapa na cara em qualquer lugar. Na Europa dá aquela sensação de traição. Como assim tem conjunto habitacional nas Europa? Tem, tem sim, feios e tudo.
O táxi era velho, sujinho e o motorista idem. Preço: € 30,00, o dobro do que marcava o taxímetro, sob o argumento de taxa de bagagem. Bem-vindo.
O hotel, pertinho do El Corte Inglês, no quarto andar de um edifício meio residencial meio comercial, era velho e sujinho. O proprietário, idem, tem um filho que estuda em Campinas. O site informa que todos os cartões de créditos são aceitos, mas lá, na hora de acertar a conta o hotel só aceitou dinheiro.
(Escolho meus hotéis pela internet. Sempre pela localização: que fácil de vir e ir do aeroporto, que me permita fazer o máximo de roteiros a pé, e seja próximo a uma estação de metrô, que me permita ter aonde ir à noite, que seja perto dos locais de compras para poder largar as sacolas ao longo do dia. E evidentemente, precisam ser sempre baratos. Hotel é para tomar banho e dormir.)
Lisboa.
Lisboa é pequena, cercada de colinas. Deitada sobre o rio Tejo. É bonitinha. Velha e sujinha. Melhor, é encardida. Minha vontade permanente era pegar um balde e uma escova e lavar Lisboa inteirinha.
Na praça do Rossio vendedores de óculos de sol falsificados nos ofereciam haxixe a qualquer hora do dia ou da noite, sem nenhuma discrição. O mesmo acontecia na Praça dos Restauradores em todas as mesas do calçadão da rua Augusta.
E não há o que comprar em Lisboa. O artesanato é o da ilha da Madeira, que é igual ao artesanato de todo o litoral brasileiro, com peças grosseiras de cerâmica. As toalhas de linho e renda são caríssimas, sai barato comprar no nordeste. Ou em Madri.
Não há nenhuma grife local irresistível. As lojas das grifes internacionais estão lá, especialmente na avenida da Liberdade, e era isso.
As pessoas são educadas, afinal estamos na Europa. Mas o padrão estético é limitado. Os garçons são satisfatoriamente pacientes, ainda que não exatamente sorridentes. Tenho duas imagens nítidas de Lisboa: uma senhora nos idos dos sessenta anos, gorda - mas bem acinturada - vestida num tailleur negro como seu buço, cabelos grisalhos presos num coque alto e usando um crucifixo cravejado de pérolas que a tropeçar com seus sapatos de salto baixo e grosso solta um sincero “caralhos” com aquele sotaque inconfundível. Outra é uma louca na quase dos trinta saída direto dos anos 80, com cabelos muitos crespos e repicados e um blusão de lã com gaita abaixo do quadril que, completamente bêbada, nos perguntou sobre nossa vida sexual numa estação de metrô.
Pois é, Lisboa pode ser bem freudiana.

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segunda-feira, março 16, 2009

Do outro lado da reforma


É engraçado isso de escrever. Perdi o jeito. Estou enferrujado.
E ainda tem a tal reforma ortográfica.
Quer saber, não estou muito disposto a me adaptar. Estou mais para ficar um daqueles velhinhos empertigados que escrevem com ph. Já me sinto autorizado a dizer que no meu tempo se escrevia assim. Então, até que eu instale uma versão de editor de texto que faça as correções sozinho, a reforma ortográfica não chegará neste bloguinho.

E por falar na dita reforma, impossível não falar de Portugal.
Pois é, realizei o antigo sonho de conhecer Lisboa. Vocês bem sabem que o interior não me atrai, nem na Europa. Gosto mesmo é de capitais, de cidades grandes, preferencialmente velhas e estrategicamente restauradas. Aí é que começou o problema.
Sempre quis conhecer Portugal. A febre 1808 que vivemos ano passado só aumentou a vontade. Li tanto sobre o assunto que já me senta intimo dos lusitanos.
Iniciei as pesquisas e descobri que uma viagem só para Lisboa não valeria o gasto, a cidade não tem atrações para mais do que uns quatro ou cinco dias. E eu tinha 20 dias livres.
Além disso, tínhamos nos preparado psicologicamente para irmos a Madri, onde minha irmã morou por uma ano e meio. Ela voltou, mas na minha cabeça já estava decidido que minha próxima viagem seria para lá.
A solução parece óbvia: ir para os dois lugares. Só que eu me recuso a passar minhas férias numa maratona de aeroportos, malas e imigrações. Odeio a função de check-in check-out, odeio mudar de fuso horário, de idioma. Gosto mesmo é de chegar num lugar e me sentir em casa, ir várias vezes no mesmo lugar, comer várias vezes a mesma coisa, criar rotinas.
Venci meu ódio e decidi enfrentar a maratona. E já que estava na chuva, tratei logo de me encharcar: resolvemos ir também para Paris, cinco meses depois de termos estado lá. Mas tínhamos ido no inverno e agora tínhamos o apelo da primavera. Ta, desde quando Paris precisa de justificativas???
O principal era garantir que a viagem valeria a pena. E a estratégia infalível é sempre acabar em lugar conhecido, que a gente goste e que saiba previamente que não vai ter erro.
E não teve.
Então, resistentes leitores, para mim e por mim. Nos próximos dias, preciso fazer algumas anotações dessa viagem. Não se sintam compelidos a lê-las. Relatos de viagem só têm graça para quem viaja. Muitas vezes acabam naquela punheta de vejam como eu tenho acesso a lugares caros, de como eu odeio turista – embora seja um deles. E o mais odioso, por que o relator nunca, nunca, se dá mal? Por que tudo o que ele come e vê é maravilhoso, imperdível, indispensável?
A resposta reside nos inevitáveis do ego, e, portanto, deveria ficar a ele restrita, mas não dá. As lembranças de viagem não cabem em fotos, tão pouco em palavras. E são sempre acompanhadas de medo. Medo de esquecer, de passar, de não voltar, de ter perdido algo melhor, de ter feito a escolha errada. Relatar a viagem é revivê-la, por isso é tão compulsivo, por isso acaba sendo compulsório.

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domingo, março 15, 2009

Um ano depois...


Não sou exatamente saudosista, ainda que vez por outra haja em mim algo de nostálgico.
Acredito piamente que as pessoas e as coisas, embora pertençam a categorias teoricamente distintas, passam em nossas vidas pelo tempo exato de sua utilidade e/ou de nossa necessidade.
Sim, infelizmente há pessoas que parecem não se importarem com o efeito que causam em nossas vidas, mas isso é um problema delas.
E embora eu sinta o que chamam saudade e mais ainda o que eu chamo falta, minhas sensações estão mais no conceito da ausência e do pertencimento.
Há em mim, acima de tudo e tão profundamente, um evidente paradoxo. Apesar de uma tendência ao esgotamento da relutância, no fundo eu não me conformo.
É, eu tento, tento. Eu quase nunca entendo. Mas eu respeito, ainda que não aceite.
E foi por isso que eu fui.
E por isso que eu voltei.
Fazendo as malas, da Danuza Leão, foi a gota d’água. Viajar é o mais digno suborno pela prostituição do meu talento. A Europa é meu prozac. Paris resolve o pertencimento. Londres, a ausência.
Por favor, vamos lembrar que não há nisso nenhuma afetação. Não somos dados a isso por aqui.
O ponto é que há tempo andava com medo de perder alguma das minhas impressões sobre os lugares para onde viajo. Nesse ano de distanciamento eu fui, voltei, fui de novo. Paris. Lisboa, Madri, Paris. Londres.
E a gente come muito e muito bem. E bebe na mesma proporção. E compra e compra, de casacos de inverno a favas de baunilha. E vai aos museus, aos teatros, aos pontos turísticos e aos nossos lugares. Mas, mais que isso, a gente tem o tal choque de cultura. Só que para mim o choque é devastador. E se é bem verdade que a gente nunca volta o mesmo de uma viagem, posso garantir que eu volto cada vez mais parecido comigo mesmo.
E tem vezes que o mesmo acontece aqui em casa mesmo. Quando menos eu espero, lá estou eu fazendo uns bolinhos, lustrando um móvel, secando o cabelo e pimba! eu sinto e então faz sentido. A ignorância é uma forma de felicidade que definitivamente não me serve.

E eu não sei como explicar. Mas eu preciso. Preciso de explicações. De entendimentos. Preciso. Eu quero mais – eu sempre quero – preciso ter tudo organizado e à disposição. Acho um desperdício de tempo ter de resolver a mesma questão duas vezes. E se houvesse a necessidade de um rótulo, serviria o da fenomeologia. Sim, sim, a explicação está em si mesma: filosofia numa hora dessas.
Daí que meses atrás eu li Tête-à-Tête, da biógrafa Hazel Rowley, sobre Satre e Beauvoir. “Naturalmente não se tem sucesso em tudo, mas é preciso querer tudo”. “Viver sem interrupção”. “O homem é condenado a ser livre”. “Para o acontecimento mais banal virar uma aventura, é preciso (...) começar a contá-lo. “uma vida vivida pode parecer uma vida contada”. Ah, e o amor absoluto...
E resgatei uma coisa que me foi dita tempos atrás. E tal qual Chiquita, a bacana, me vi existencialista com toda a razão. E senti uma necessidade primária de cuidar das minhas memórias, de manter minhas caixas cheias de lembranças, de não me esquecer de lembrar.
E precisei de mais um tempo para entender que o bloguinho vinha cumprindo essa função. Precisei ler o bloguinho todo para fazer as pazes com ele. E isso não tem – ou teve – nada a ver com vocês que eventualmente lêem.
Assim o bloguinho volta. Não mais como obra masturbatória do ego. Ou não com essa prioridade. Volta exatamente como quem nunca foi. Volta instrumento de algo que eu não sei o que é, e por isso mesmo se justifica.
Volta para mim mesmo, não pelas mesmas circunstâncias, mas pelas mesmas razões: as minhas.

Que venham com ele as formandas gordinhas e seus indisfarçáveis bracinhos. Venham as convidadas de casamentos e seus longuetes.
E que venham vocês, que como eu, merecem e não, não se negam.

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