Epifania castiza

Epifania é um momento de revelação, é um momento em que compreendemos algo divino.
Epifania é o que os católicos comemoram no dia 6 de janeiro, como referência á assunção humana de Jesus. Jesus se revelando para o mundo.
Blábláblá. Epifania é uma maneira bonita de dizer que cai uma ficha.
Pois eu tenho muitas epifanias em viagens, ou na seqüência destas. Provavelmente porque a mudança de circunstâncias abre minha percepção.
Agora, escrevendo sobre Madri, me dou conta (olha a epifania aí, gente!!!) do que falava outro dia sobre as madeleines e A elegância do Ouriço, sobre saciedade de anseios aparentemente distintos, como um livro excelente me despertar uma fome específica de algo igualmente excelente.
Madri, como tenho descrito, foi dessa plenitude de saciedades.
E acho que muito disso se deve a um desses requintes do universo que chamam de coincidências. Eis que estávamos em Madri na semana do dia 15 de maio – dia de San Isidro – patrono da cidade. Sabíamos do feriado, só não sabíamos o que isso significava para os espanhóis.
Então que durante toda a semana, em qualquer lugar, a qualquer hora, as ruas estavam cheias de madrilenos vestidos com o tradicional castizo. Mulheres com aqueles vestidos cheios de babados e estampados com poás, xale com franjas e cravos no lenço que cobre a cabeça. Homens de calça, colete e camisa branca e usando a parpusa, um boné preto e branco. Gente de todas as idades, por toda a parte. Um deleite.
Somou-se a isso uma apresentação de La Zarzuela, a ópera espanhola, encenada em plena Plaza Mayor, com entrada franca. E culminou com nossa última noite em Madri sendo brindada com um show de música clássica, luzes, águas e os indispensáveis fogos de artifício no deslumbrante lago do Parque del Retiro.
Hoje o que me resta? Ver meus conterrâneos ostentarem orgulhosamente as camisas do time do coração pelo mundo afora. Sim, sim, gremistas e colorados orgulham-se de suas fotos de viagem envergando a camiseta do respectivo clube, como se nisso residisse sua última fleuma regional.
Não entendo. Não entendo mesmo.
Bom, enfim, não entendo roupa de poliéster em geral...
Saudade. Saudade de Madri. Saudade da vida num ritmo que me faz mais sentido. Saudade de gente que sente orgulho de coisas que me fazem mais sentido.
Eu, minhas epifanias e as reticências...










