sábado, maio 30, 2009

O seus, os meus, os nossos


Umas últimas anotações dessa tarde assaz agradável que passo aqui escrevendo.
Bebericando um chá verde e ouvindo repetidamente o Comme si de rien n’était da Carla Bruni.
De ontem para hoje assei baguetes, brioches e madeleines. Tudo para o café da manhã do final de semana, nosso simbólico triunfo da convivência.
Me dou conta do quanto especialmente gosto de algumas coisas aqui de casa. Especificamente de algumas desordens planejadas. Assimetrias de cores ou formas. São elas que pessoalizam e personalizam a casa.
A cozinha.
Nossa louça é basicamente branca, mas tem peças de formatos diferentes. Temos umas poucas peças pretas e outras vermelhas. Tudo fica exposto em vitrines na cozinha. Em pilhas cuidadosamente aleatórias. Também temos bancadas grandes de granito, com parafernálias elétricas de aço escovado (não sei como eu vivia sem minha chaleira elétrica!) As tábuas de corte, o cepo de facas. E agora meu almofariz de pedra sabão, recém ganho de um dos casais de amigos mais amigos que se pode ter.
O escritório.
Centenas de DVs, CDs e livros coloridos dispostos em prateleiras e intercalados com aquelas coisinhas em miniatura que a gente compra sempre que viaja e depois não sabe onde guardar. A Torre Eifel, uma cabine vermelha, um galinho de porcelana, El Oso y El Madroño, as divindades tailandesas, budas, uma dançarina de flamenco, bustos de calcário de Tarragona, elefantes, um touro, Cinderela e seu Príncipe, os guerreiros chineses de terracota, uma bola de beisebol, um leãozinho. As meninas do Velazquez.
Postais de lojas de museus. Picasso, Monet, Dali, Renoir. A coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David, um dos meus quadros preferidos. O Abaporu, por uma história nossa. O retrato de Nina Hammett, de Rofer Fry, uma paixão que surgiu na Courtauld Gallery.
E me pego uma vez mais pensando em preços e valores. Antes ainda, penso mesmo é que certa forma tudo é um investimento. No meu caso, vai ver, uma poupança de boas lembranças para os dias de chuva. Um investimento diário, é bem verdade, mas garantido. Altamente rentável e com distribuição freqüente de bônus. Meus bônus pessoais, mas transferíveis, da felicidade que existe.

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Ai de mim que sou assim: semiótico


Ainda sobre a tarde em que fiquei num shopping esperando o carro.
Ou a gente larga as drogas, mas não os vícios.
Comprei livros.

Há uma bela chance de que eu venha a falar sobre cada um deles aqui.
Por ora quero falar do mais inusitado: um dicionário.
Mais precisamente um Le Robert. O Aurélio francês.
Em função do levain ando lendo muito em francês. E senti falta de um dicionário para desenferrujar o vocabulário.
Adoro dicionários.
Acho a semiótica poética (ignore-se a rima).
É que me encanta a idéia de explicar uma palavra com outras palavras. Um ciclo que não se fecha.
Uma espiral.
Poética.

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Lavou está novo!


Outra coisa sobre a revisão do carro.
Uma tarde de shopping.
E algumas revelações.

Para facilitar minha vida, escolhi uma autorizada perto de casa para deixar o carro. Coincidentemente (?), ela fica na frente de um shopping. Como a revisão levaria algumas horas, achei que não valeria a pena ir até o trabalho e resolvi passar a tarde no shopping.
Diferente do que aconteceria anos atrás, a única peça de roupa que comprei foi uma camisa. E mesmo assim só porque estava com um ótimo preço. Pois é, para alguém que já foi questionado sobre compulsividade por roupas...
Várias explicações são cabíveis. Do amadurecimento às despesas de se ter uma casa própria. Mas o que me ocorreu, olhando as vitrines, é que cai na minha própria armadilha. E isso é bom.
Eis que defendo tanto a idéia de comprar conscientemente que não me restou mais nada para comprar. Ao longo dos anos me ocupei de comprar peças de qualidade. Qualidade de material e de conceito. Ainda que tenha que pagar um pouco mais, penso quanto tempo uma roupa pode durar, quantas vezes posso usá-la, lavá-la, recombiná-la. Aquele raciocínio de mãe, de comprar roupas boas que durem uma vida. Pois é, elas duram. Tenho roupas que uso há mais de dez anos. E que provavelmente usarei por mais outros dez, no mínimo.
Ta, admito, além disso, tenho tanta roupa que, provavelmente, poderia passar os mesmos dez anos sem repeti-las numa mesma estação.
Mas não me deixem perder o foco. As roupas que duram.
Roupas boas, como bons vinhos, ganham com o tempo. Sim, sim, há um charme que só o tempo pode dar a uma roupa de qualidade. Não, definitivamente não estou falando daquele tom sépia das roupas fedorentas de brechó. Estou falando da aura de dignidade que o tempo dá aos clássicos e que, justamente, os faz atemporais.
Claro, que em roupas feitas para durar uma moda, o tempo só enfatiza sua desnecessidade.
Então que nesse passeio pelo shopping acabei ficando bem irritado. De novo a tal relação preço/valor. Não consigo, não mais, entender o preço das roupas. Não consigo entender como alguém pode pagar tanto por algo que vai durar tão pouco e/ou ter tão pouca utilidade.
Daí, me lembro que basicamente moda é uma linguagem, uma forma de expressão. Um manifesto ambulante da própria compreensão. Moda, ou o que vestimos, diz, sim, muito sobre nós mesmos, sobre nossos valores. Então, diz, inclusive, o quão imbecis podemos ser.

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Carro e grana


Trabalhei muito essa semana. E também fiz outras tantas coisas. resolvi algumas pendências postergadas e adiantei algumas outras da lista. Enfim, não sobrou tempo para o bloguinho.
Então aproveito essa tarde fria e chuvosa, e involuntariamente solitária, para meus apontamentos.
Sim, sozinho. Compromisso de trabalho.
Mas não nos queixamos. Temos a consciência de que o repertório das queixas de trabalho nos é limitado pelo limite da coerência moral. Temos o privilégio, ainda que absolutamente meritório, de viver do que ganhamos. E de viver bem. Ainda que nossa relação com o dinheiro seja muito mais focada no gasto do que no ganho, sabemos que a alegoria que fazemos de nossa própria existência tem, sim, seu preço. Nosso trabalho paga esse preço. Então estamos quites e queixas extras não estão incluídas.

Essa coisa de dinheiro é estranha. Mais exatamente, acho estranha a relação de preço e valor. Não entendo por que certas coisas custam o que o que custam. E como o mesmo número pode representar diferentes valores.
Uma das coisas que fiz essa semana foi a revisão do carro. Já tive a fase carro. Caros e novos. Trocava todo o ano. Sempre potentes e vermelhos. É, freudianos.
Bom, agora tenho o mesmo carro há quase três anos. Um carro familiar, que permite comprar cadeiras e mesinhas em antiquários e levá-las para casa sozinho.
Como já andei comentando, evito usar o carro desnecessariamente. É uma das minhas contribuições para um mundo melhor. Bom, enfim, em três anos rodei exatos 14.600 kilometros, o que está muito abaixo da média.
Então só agora fiz a revisão de dois anos. Limpeza de filtros, troca de pastilhas, óleo, geometria e outras cosias menos importantes. E uma conta assustadora. Curiosamente, o mesmo valor que gastei num anel de ouro e brilhantes que me dei de presente no começo do mês. Ou na nossa moeda oficial, uma passagem ida e volta para Paris, de classe econômica. Ou um mês e meio de supermercado.
Agora, a questão é o quanto de prazer cada um desses gastos pode me dar. Daí, que, na minha régua, o anel foi uma pechincha e a revisão do carro foi um roubo.

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terça-feira, maio 26, 2009



Os dias nublados. Os dias nublados. Dias roubados.
Quando criança eu amava dias nublados. Amava sua indiferença. Amava o que acreditava ser sua neutralidade. Ninguém poderia ser julgado num dia nublado. Não havia claro ou escuro, o que certamente me servia como uma metáfora do meu próprio certo e errado.
Não sou mais criança. Não aquela criança, ao menos.
Hoje os dias nublados me incomodam.
Incomoda-me a indecisão da não chuva, da umidade que me enruga a alma. Incomoda-me, sobretudo, o ar pesado, o abafamento. De dentro e de fora.
Incomoda-me a ausência de sombra – mais do que a falta de sol. E saber que a noite não será escura como deve ser. Frustra-me esse céu monocromático de um um único bloco cinza rato. Incomoda-me, tanto quanto a tediosa monocromia das janelas. A paisagem que não muda, a luz que não muda. Inquieta-me que esteja mais frio aqui do que lá fora.
Fosse, quem sabe, aquele nublado ironicamente messiânico das pinturas renascentistas. Um céu de Tiziano.
Uma faixa de luz entre nuvens carregadas...
Sim, me inquieta meu cabelo, que não se ajeita por nada.
Fracasso na tentativa de quebrar minha coerência esteta e não vejo outra saída que não me vestir de cinza. E pelo mesmo principio escolho um chá inglês com perfume vago de laranja.
Trabalho com a obstinação da rotina e faço, enfim, todas as ligações burocráticas que me estragariam o humor em qualquer outro dia.
Em vão, leio distraído um romance policial, a revista da semana e assisto a velhos vídeos de balé.
Cozinho algo que me parece pálido e que aceitaria de bom grado um pouco mais de sal.
Um pouco mais de sal.
E não há nada de triste em tudo isso. Ou tão pouco em mim.
Nada de errado. Só esse silêncio preso na garganta.
E a sensação de um dia roubado.
Nublado.
Um típico dia nublado.

domingo, maio 24, 2009

Giselle



Ontem fomos assistir Giselle, com o Ballet Nacional de Cuba.
Giselle tem suas peculiaridade. É um dos poucos balé da era romântica (primeira metade do século XIX) a chegar aos nossos dias (ainda que adaptado...). Não tem nenhuma música empolgantemente conhecida (tão pouco é exatamente conhecido seu compositor Adolphe Charles Adam) e é dançado com os tutus românticos (pela altura das panturrilhas). E tem o indispensável contraste entre os atos: um bem terreno, outro etéreo.
A estória, criada pelo poeta Pierre Jules Théophile Gautier, um esteta que acreditava que a arte tinha valor por si só, e nenhum compromisso com a moral – e que veio a ser uma das influências mais marcantes de Baudelaire-, é típica do romantismo: combina um amor inatingível e um bom toque de exotismo. Giselle é uma aldeã das margens do Rhine que se vê apaixonada por um nobre (Albrecht) que, apesar de noivo, se finge de camponês para viver esse amor. Quando a farsa é desvendada por Hilarion, o camponês que ama Giselle, esta morre de desgosto. Quando as wilis (almas das noivas que morrem antes do casamento) vêm buscá-la, capturam o Hilarion e Albrecht que choram na sepultura. A rainha das wilis, Mirtha, faz com que Hilarion dance até a morte por exaustão. Na vez de Albrecht, Giselle dança em seu lugar e consegue salvar a vida do amado.
Na versão original, Giselle se mata com a espada de Albrecht. Mas isso foi considerado muito chocante pelas platéias de outrora e então Giselle passou a morrer do coração. Tempos depois, quando foi protagonizado por Fanny Elssler, incluiu-se um surto de loucura antecedendo a morte. Curiosamente, a musica da cena de morte tem uma levada que puxa para um tango. Pois é, GottanProject no século XIX!
É no segundo ato, o “ato branco”, quando as wilis entram em cena que Giselle, o balé e a protagonista ganham força e sua verdadeira beleza se revela. Ainda que, mais uma vez, a versão coreografada pela cubana Alicia Alonso me pareça muito rígida, não posso deixar de reconhecer o encantamento produzido pelo seu grupo de wilis. Sim, sim, os solos e os pas de deux de Giselle e Albrecht arrancam eventuais aplausos, mas foi o conjunto de 21 bailarinas alinhadas em diagonal que nos arrancou lágrimas.
Definitivamente, fui picado pela mosca azul do balé. Ali não tem tecnologia de ponta (sem qualquer trocadilho com as sapatilhas, bem entendido), não tem efeito especial, não tem merchandise. Balé clássico é uma dessas coisas que depende única e exclusivamente da superação de homem como homem. De quem compõe a quem dança, da última bailarina da fila de trás à solista do papel principal, tudo é superação. E dedicação. Muita dedicação. Anos de dedicação. E resignação.
Ah, sim, resignação. A resignação das bailarinas é algo que me fascina. Mesmo que não seja a protagonista, cada uma delas está ali dando o melhor de si. E isso lhe sendo exigido. Sempre me pego imaginado o que se passa pela cabeça das bailarinas do corpo de baile quando ficam lá, impecáveis, braços graciosamente erguidos, por minutos enquanto uma outra é o centro das atenções. Todas se esforçaram tanto, e só uma delas ganha os aplausos em pé, só uma delas é considerada diva. Resignação. Ou superação. Superação da própria natureza humana em sua mesquinhez. E isso, também, me fascina no balé.
Enfim, o balé está entre as coisas que me elevam a alma e me reafirmam a crença no homem. E seja lá o que for o céu, no meu haverá o barulhinho da ponta de “gesso” das sapatilhas de 21 bailarinas saindo de cena.

sábado, maio 23, 2009

Idiossincrasias



Idiossincrasia.
Adoro essa palavra.
É uma palavra que volta e meia entra no vocabulário restrito dos pedantes.
Contudo, poucas vezes a palavra é usada corretamente. Idiossincrasia é o modo pessoal de reagir a algo.
Gosto de acreditar, então, que eu sou eu e minhas circunstâncias e, também ou portanto, eu sou eu e minhas idiossincrasias.
Basta a gente dar uma conferida no próprio passado e descobrirá, inevitavelmente, que muito do que aconteceu conosco é fruto de reações que tivemos diante de situações que não esperávamos. Aquela velha história de quando a sorte bate a nossa porta, ou quando o tal trem passa. O que se faz numa hora dessas, acreditem, é sempre óbvio. Óbvio no nosso próprio contexto.
O que quero dizer é que se nos déssemos a devida atenção, saberíamos que temos um modo pessoal – logo peculiar – de reagir que, se não compreendido e apreendido, vai se repetir instintivamente. E daí é aquela coisa do raio caindo sempre no mesmo lugar,e a gente teimando que a culpa é do raio.
Tenho uma amiga querida que está sempre às turras com o marido, às turras com as filhas, às turras com o trabalho. Conheço-a há quase dez anos e sei que ela sempre cai – de testa – na mesma armadilha. Na sua própria armadilha.
Como qualquer mulher moderna ela está sempre correndo. Sempre estressada. Sempre sobrecarregada. E de repente ela joga tudo para cima dá uns gritos, arma um barraco e vai para a psiquiatra, ou para shopping, ou para ambos. Quando a crise é mais grave ela redecora a casa, ou o próprio corpo.
Mas o ponto é que linda está de olho no já. Em todos esses anos nunca a vi pensando no que pode acontecer. Aliás, isso é uma verdade parcial. Ela sempre pensa nas vantagens que pode tirar se uma situação. Mais que isso, ela as projeta, ela conta com elas. Quando não acontecem, começa um ciclo de reclamações.
Em compensação, nunca a vi pensando no que pode dar errado, ou em quais desvantagens uma escolha pode trazer. Quando as desvantagens chegam, vêm os gritos, os barracos, a psiquiatra, o shopping...
Foi assim quando escolhemos as áreas em que nos especializaríamos no trabalho. Ela escolheu uma área complicadíssima, mas na qual acreditaria teria muitas oportunidades de viagens. As viagens não vieram na proporção esperada. Mas o trabalho continuou difícil. Reclamações, reclamações, gritos, barraco...
As filhas foram mimadas ao extremo quando crianças. Foram tratadas como bebês até o limite do ridículo e da comodidade da mãe. Agora são adolescentes em crises insaciáveis. A mãe reclama, reclama, depois grita, arma o barraco...
Ela resolveu colocar silicone porque tinha uma festa importantíssima na qual queria usar um decote inesquecível. Colocou próteses maiores do que o recomendável. Agora vive se achando gorda. Reclamações, reclamações, crise, psiquiatra, remédios para emagrecer, nervos à flor da pele, gritos...
O resultado é que minha amiga já tem fama, não só de estar sempre tentando tirar vantagens, já tem fama de reclamona, barraqueira e, pior, de egoísta.
E ela, acreditem, é uma pessoa maravilhosa. Apenas é vítima de suas próprias reações. Sempre as mesmas.
Um agravante, que atinge a todos nós, é que geralmente nessas horas de crise, em que temos de reagir, temos também de fazer uma nova escolha... já viu. O ciclo, como bom ciclo, se repete e perpetua.
Não se trata de mudar quem se é, mas o dogmático conhecer a si mesmo. E o que fazer com isso.
Somos, sim, nossas idiossincrasias. Também nisso reside o que nos faz únicos, individuais e individualizados. E, eis o ponto, nisso pode estar mais uma chance de sermos melhores. E, principalmente, mais felizes.

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quarta-feira, maio 20, 2009

Prato do dia




Medo de transformar este blog no diário do Monsieur Levain.
Até aconselham a tomar notas diárias sobre o levain, mas acho isso exagero. o trabalho é árduo, e precisa de muita paciência. Mas há algo de fascinante nisso tudo. O levain é basicamente farinha e água, mas é vivo. Apesar do tão esperado crescimento não acontecer nos primeiros dias, tão pouco se pode dizer que nada está acontecendo. O negócio e fofo, cheio de bolhas de ar, e tem um cheiro único.
Bom, mas há coisas que me incomodam. Primeiro é pensar que algo que tem bactérias e lactobacilos está se desenvolvendo na minha cozinha. Mas isso é psicologia barata, portanto, superável.
Outra coisa é o desperdício. É que cada vez que a gente “alimenta” o levain, precisa descartar metade da massa (ou vai ficar com um monstro gigante). É mais de meio quilo de massa jogada no lixo todos os dias. Nos finais de semana, adiciono fermento industrial às sobras e já consigo resultados bem melhores do que o pão que fazia antes. Mas não dá para assar pão todos os dias, ou a gente vai acabar rolando antes mesmo do inverno!
Depois, a massa não é firme o suficiente para ser colocada no lixo, então acabo diluindo em água e jogando pelo ralo. E toda essa água jogada fora também me corta o coração...
Mas o lado bom ainda é melhor.
Além das melhorias no pão, minha vida culinária também foi turbinada. Cada vez que pesquiso alguma coisa sobre fermentação natural, acabo linkando várias receitas e fico imediatamente com vontade de fazer tudo.
E, vejam bem, eu cozinho todas as noites. Comida de verdade, feita no fogão, com temperos frescos picados na hora, com vegetais orgânicos, tudo equilibrado e magro (na medida do possível). Mas agora, tendo que armar o circo do levain a cada doze horas, a coisa saiu do controle.
Saí na chuva? Então vou logo é me encharcar.
Já estou na cozinha? Vamos caprichar.
Cozinhar para mim é algo instintivo. Geralmente meço no olho, tempero pelo cheiro. Faço quase tudo numa frigideira funda, uso a mesma faca para cortar qualquer coisa, uso sempre o fogo alto. Invento (ou adapto) todas as minhas receitas de acordo com o que tenho em casa, ou com o que estou com desejo de comer.
Quando tenho tempo, vontade ou ocasião, daí sim uso todos os meus utensílios, leio receitas, converto medidas, testo truques.
Agora, na fase levain, o tempo diário dedicado à cozinha está automaticamente maior e, principalmente, tenho passado muito tempo pensando em receitas.
E como pensar é sempre um múltiplo, acabo me dando conta de outras coisas.
Freudianamente, alimento a quem amo. Basicamente porque fui alimentado por quem me ama. E acho esse um dos ciclos mais lindos da natureza, inclusive humana. Cozinho desde que tenho altura para alcançar no fogão, e antes disso, meu pai me colocava sentado na pia. Fui criado com comida feita em casa. As conversas mais importantes que tive com minha mãe se deram na cozinha, enquanto eu secava a louça (hum...que é algo que eu não gosto de fazer...).
Inevitavelmente, esse processo de fazer pão me faz lembrar muito da minha avó paterna. A primeira pessoa que perdi com consciência da perda. Minha avó não era exatamente afetuosa. Era uma mulher firme, determinada, dizem, sofrida. Mas para mim ela sempre foi a avó das estórias de Monteiro Lobato, com sua horta simétrica, com as mantas de tricô, com o chá da tarde, com pão sovado assado no forno de barro no fundo do quintal. Ela era capaz de fazer qualquer coisa dentro de casa. Costurava, reformava, reaproveitava, plantava. Cozinhava, é claro, assava. E nunca dava uma receita completa. Dizia que receita a gente dá, mas que o talento vem de Deus. Eu, o neto com talento culinário, podia ficar na cozinha enquanto ela cozinhava, e podia até ajudar. Era brindado com sorrisos doces cada vez que fazia algo certo. Tive com minha avó uma relação recíproca de amor maior do que a dos outros netos, maior do que a da minha tia (que aliás, não cozinha nem um ovo...). Meu pai cozinha muito bem, mas não faz pão.
Enfim, nesses dias de cozinha, não me sinto exatamente saudoso. Mais que isso, me sinto abençoado. Abençoado pelo amor que tive, pelo amor que tenho. Pelo amor que dei e pelo que tenho para dar.
Vou, porque ainda tenho que resolver coisas do trabalho e comprar mais farinha. A janta já está pronta, torta de peixe, à moda inglesa, de bacalhau com molho branco e ervilhas, coberta com purê de batatas. Temperada com pimenta branca, cárdamo e um toque de noz moscada. E umas outras coisinhas....

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segunda-feira, maio 18, 2009

Mas os meus cabelos...



Vamos pegar leve, para variar.
Vamos falar dos meus cabelos.
Embora não seja leonino, tenho uma relação passional com os cabelos. Algo meio Sansão pré-Dalila. Não consigo usar o cabelo curtíssimo, não por muito tempo. Não sou em mesmo sem um topete para jogar ao vento.
Sempre tive muito, muito, muito cabelo. E muito preto. Bem, o tempo se encarregou de amenizar as duas coisas. Embora tome finasterida há quase dez anos, noto que tenho menos cabelo e minhas entradas estão pronunciadas. E dá para arriscar que uns 20% já estão brancos.
No mais, meu cabelo é aquele tal de ondulado. Nem liso a ponto de secar ao vento, nem crespo o suficiente para formar cachos – e secar ao vento. Meu cabelo, por ele mesmo, fica com as raízes murchas e as pontas desordenadamente volumosas. Então o que me resta, para poder usá-lo no comprimento que eu gosto, é recorrer a secador todos os dias. Levo exatamente quatro minutos para secar e escovar o cabelo. Só escovo depois de praticamente seco, porque isso define a forma e dá brilho.
Eis o ponto: o brilho. Todo esse secador deixa o cabelo opaco, é bem verdade. E por mais que eu tentasse produtos para devolver o brilho, nada parecia adiantar.
Mesmo seguindo todas as dicas de temperatura da água, de jatos de ar frio, de xampus anti-resíduos, nada fazia meus cabelos reluzirem.
O desejado brilho nada mais é do que luz refletida por uma superfície lisa, no caso cutículas bem fechadas, segurando água e proteínas. Então, por que meus cabelos não estão refletindo a luz?

Nessa jornada, descobri algumas coisas importantes. A primeira, e mais importante, é que nenhum produto funciona se não for usado. Garanto, por repetidas experiências, que adquirir o produto e guardá-lo no armário até que a data de validade expire não vai deixar seus cabelos mais bonitos.

Depois descobri que embora não seja absolutamente liso, meu cabelo tem estrutura de cabelo oriental. É que todo o cabelo é composto de três camadas de dentro para fora: a medula,o córtex e a cutícula. Nos cabelos asiáticos, a capa de cutículas tem várias camadas.. Por isso o cabelo oriental brilha tanto, porque a superfície refletora é mais potente. Em compensação, se por algum fator externo as cutículas se abrirem, ou se por algum fator interno houver perda de água e proteínas, bom, amiga, dái para recuperar o estrago tudo fica mais difícil. É, porque abrir todas as essas camadas de cutículas, hidratar o cabelo e depois fechar todas de novo é trabalho hercúleo.
Daí a gente entende porque quando uma oriental faz um permante, o cabelo fica tão seco. Todas aquelas cutículas abertas deixam o fio absurdamente poroso.
Hidratantes comuns não dão conta, e cargas de proteína não adiantam nada, pois não conseguem chegar onde deveriam. A solução é hidratar com produtos com propriedades emolientes, que consigam driblar a barreira de cutículas sem eriçá-las. Dá certo! Descubro que preciso de produtos com óleos vegetais como manteiga de karité, cacau, castanhas.
Infelizmente, esse tipo de produto não age na hora. Exigem os famigerados vinte minutos de espera, com toca de alumínio e tudo. Confesso, não tenho disciplina para isso. Até tento, mas na segunda semana já acho uma desculpa para não ter tempo. A tal hidratação de chocolate, que funciona que é uma beleza, recomenda três dias sem lavar a cabeça. O que? Meu cabelo tem prazo de validade de 24 horas, depois disso precisa ser lavado por questões de salubridade pública.
Um paliativo para os dias de festa são as cápsulas de brilho Advance Techniques da Avon. Elas dão uma bela maquiada no cabelo, mas lavou, já era.
Mas, ora, ora, na última ida a Buenos Aires descobri o ouro: L'Oreal Absolut Repair Máscara capilar. Uso no banho, depois de qualquer xampu, um tiquinho de nada, massageio, deixo agir enquanto lavo o corpo, enxáguo e voi-lá, cabelos de comercial.
Meu cabelo fica parecendo aqueles cabelos de plático, de boneca, mas no bom sentido. O cabelo fica muito brilhoso, forte, elástico, volumoso. E no dia seguinte não fica pesado ou oleoso.
O milagre não é exatamente barato. Mas, não é que funciona?

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Simplesmente clichê


Ontem fomos jantar na casa dos meus pais. O que, acreditem, é mais animado do que a maioria dos bares que poderíamos escolher, ainda que não muito diferente. Na casa dos meus pais a gente como o que não deve, bebe à vontade, fala besteira, ri alto, discute assuntos variados sem chegar necessariamente a qualquer conclusão. A música é alta e voltamos tarde, embriagados e com cheirando a cigarro.

E em pleno sábado, coisa de duas da madruga, meio bêbado, com frio, de cueca e camiseta, na cozinha pesando farinha para alimentar o levain. Pois é, pessoas na nossa idade podem ter filhos, podem ter cachorros, podem ter gatos, podem ter diversidade sexual. Nós jantamos com meus pais e temos um fermento.
Já dizia a raposa do Saint-Exupéry que a somos responsáveis pelo que cativamos.
Definitivamente, sou feliz assim, exatamente porque escolhi viver assim.
E exatamente por isso não sei o que aconteceu quando assisti “Simplesmente Feliz” (Happy Go-Lucky, 2008, de Mike Leigh).
Não gostei do filme, não gostei nenhum pouco.
A culpa não é da ganhadora do Globo de Ouro Sally Hawkins, que interpreta o papel central (ainda que eu prefira a Juliette Lewis em qualquer papel de louquinha...) que segura bem a proposta feliz da sua Poppy sem parecer caricata. A questão é que a personagem é uma caricatura em si mesma.
Evidentemente, minha implicância começou na apresentação da personagem, que começa a trama muito louca numa boate, segue muito louca em casa e só vai se garantir como “simplesmente feliz” bem adiante no dia seguinte. Felicidade química, para cima de moi?
Bom, daí Poppy se revela feliz-feliz. Mal vestida, mas feliz, despenteada mas feliz, alienada mas feliz. E eu já irritado, penso: por que a felicidade legítima tem que ser sempre representada em extremidades estéticas? Não dá para ser feliz e limpinho?
Seguem outros tantos estereótipos da felicidade alternativa. Inclusive uma risadinha histérica que a personagem solta depois de suas próprias piadas. Ta, tudo bem, o filme não é para mim. Ok. Só que não bastasse, quem sabe para evidenciar o quão feliz Poppy é, o filem resolve ainda ridicularizar outras formas de existência.
Então começo a entender do que não gostei. Esse julgamento do que é ser feliz me incomoda horrores. Essa visão da felicidade de brechó não me serve. Essa visão juvenil de que só se pode ser feliz ignorando a vida adulta me incomoda.
A felicidade de pop acha feio o que não é espelho. Pior que isso, ela ignora o que não é espelho. Poppy tem duas nuances de comportamento: a feliz com risadinha histérica ou a apática.
Então não vejo diferença entre a felicidade de Poppy, a professorinha de Camden Town e a felicidade das tantas peruas fúteis que o cinema retrata. A única diferença é que quando a personagem passa o dia envolvida em compras e eventos sociais (ainda que beneficentes) ela é uma falsa feliz e precisa de uma lição de vida. Poppy, feliz em suas roupinhas rasgadas é simplesmente feliz. Se a personagem passar o dia envolvida em afazeres domésticos e cuidados com os filhos, nossa, nem se fala. É uma coitada, não importa o quão sorridente ela esteja, não passa de uma deprimida a um passo de um surto psicótico. Mas Poppy, e sua vidinha meio louca, bem, isso é felicidade.
Obviamente, Poppy tem uma irmã casada, grávida, com casa própria (e hipotecada) e que se orgulha de sua sala de jantar recém comprada. Ela, obviamente, não é simplesmente feliz. Onde já se viu felicidade de casa própria parcelada?
Enfim, o filme pode ser visto com uma ironia refinada. Ou pode não ser visto.
Eu poderia não ter visto.
Fui enganado pela sinopse. Achei que se tratava de alguém capaz de ser simplesmente feliz, duas palavras que para mim são bem associáveis. Não foi isso que vi, ou entendi.
Mas não posso deixar de admitir que nada seja mais simples do que um clichê. Gosto dos clichês...gosto de segurança em geral. E é bem mais fácil ser feliz na segurança de um clichê.
Bem chato que sou eu. Sei lá. Vai ver que, assim como o levain, tenho lá os meus humores. E talvez, assim como Poppy, não esteja muito disposto aos clichês alheios.

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sexta-feira, maio 15, 2009

Monsieur Levain

Da série o nosso amor a gente inventa.
Ou das paixões a segunda vista.
Ou porque quem procura acha.

Não sou um entusiasta dos carboidratos. Não deliro por massas. Muito menos por pão. Bolo é outra história.
Há uns cinco anos, precisei perder peso e fiz a, então em voga, dieta das proteínas. Funcionou para mim, justamente porque cortar os carboidratos não foi um grande problema. Passei mais de um ano sem comer pão. Perdi quase trinta quilos e fiquei magro demais. Voltei aos carboidratos.
E muito embora não possa dizer que os coma com total isenção de culpa, acredito piamente que hás dias que só uma porção de carboidrato frito e umas quatro ou cinco porções de álcool resolvem.
Já com o pão, a coisa não é diferente. Definitivamente não amo muito tudo isso. Pão para mim é acompanhamento, ou melhor, suporte para queijos, geléias, patês, doce de leite, hummmm. Pão pelo pão...sei não. Pelo sabor prefiro pães elaborados com farinhas mais rústicas, ou com sementes, grãos, legumes. Claro que certas harmonizações só funcionam com pão branco, e muitas vezes são exatamente essas que eu desejo. Tudo bem, desejo a gente sacia ou frustra. Eu sou dos que saciam. E logo.
Em compensação, eu adoro fazer pão. Adoro o ritual de sovar a massa, enfarinhar a bancada da cozinha, ver a massa crescendo. Adoro o cheiro do pão assando. Não fico sem uns tabletes de fermento biológico na geladeira, nem sem um quilo de farinha na despensa.
Até aí, beleza. Só que daí a pessoa inventa.
Sim, a pessoa agora quer fazer pain au levain. Aquele mesmo, de padaria metida, cascudinho e aromático, com o miolo denso e úmido.
Li que acertar um levain de primeira é como tirar na megasena. Por isso resolvi começar logo.
E não é que eu seja “movido a desafios”. Sou inteligente demais para gastar energia com isso. Sou mais do tipo que tem sonhos projetados. É, eu gosto de viabilidade. Gosto de coisas que coisas que dão prazer, mas que tenham alguma utilidade além de insuflar meu ego ou compensar um desequilíbrio com doses cavalares de adrenalina. Eu odeio adrenalina. Eu gosto mesmo é de ser o aquele homem comum melhorado. Super-homem é para quem precisa de fantasias sobre si mesmo. Eu não preciso de uma malha de lycra secreta por baixo da roupa. Para mim é suficiente transformar o pão de cada dia num pain au levain. Sovado com carinho, assado com amor. Ta, isso foi péssimo. Mas vocês entenderam onde quero chegar.
Enfim, há uma semana a cozinha experimental de Lutti está tomada de vidros, potes e tigelas. Sacos e sacos de farinha são trazidos com as compras. A balança nem é mais guardada. Jarros d’água repousam para atingir a temperatura e cloração ideais.
A cada doze horas, Lutti alimenta o levain (aliás Monsieur Levain, como ele é chamado e já tratado como um membro da família). Só que o Levain são os levains. Claro que Lutti está testando vários tipos de fermentação natural. Claro que Lutti leu horrores sobre o tema, comparou várias receitas. E, é claro, que Lutti inventou sua própria receita e a está testando.
Não se pode saber quando teremos a primeira fornada, isso depende do humor do Levain. E escrevendo sobre isso me dou conta de algo sobre mim mesmo: o exercício da paciência.
Vejam só: eu sou muito ansioso. Eu tenho dores de ansiedade. Eu só não meto os pés pelas mãos, porque já estou tão treinado na questão de pés e mãos que já aprendi a usá-los indistintamente.
Mas como a gente é sempre mais sábio do que consegue perceber, acaba se mandando sinais do que precisa ser corrigido. Percebam que Lutti, o ansiosinho da Estrela, só inventa hobbies que exigem paciência de monge. Lutti, que não consegue dormir porque acha perda de tempo, passa dias e dias alimentando um fermento que servirá para fazer pães que crescem muito mais devagar do que os feitos com fermento industrial. Se isso não é um exercício acerca de mim mesmo, não posso entender o que é.
De qualquer modo, a idéia de um inverno com pão caseiro, edredom novo e a companhia de sempre me deixa, e como não, bem bem feliz.

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quinta-feira, maio 14, 2009

Na cama com Lutti




Arremate de uma história que merecia o fim que teve.
Ainda a cama.
Desde segunda passada, dormimos na nossa nuvem particular. King size.
Sim, sim, absolutamente dentro do prazo anunciado, recebo uma inesperada ligação da transportadora para confirmar meu endereço e saber se eu estaria em casa para receber a cama naquela tarde. Duas horas depois, ela chega. Enorme, pesando uns cem quilos. Rigorosamente embalada. Os entregadores, exaustos depois de carregarem tudo pela escada, forram o chão do quarto com papelão para montar os pés do box e pedem para lavar as mãos depois de retirarem a embalagem do colchão. Para não sujar o tecido, me explicam.
Pois é, uma simples ligação, a noção de que tecido suja. Não digo que tudo funciona quando cada um faz a sua parte da melhor forma possível?
Sem falar no efeito cascata feliz. A pessoa fica feliz e sai fazendo felicidade, louca de medo de quebrar a corrente.
Gente feliz é o que há. Eu feliz sou um perigo. Empolgado com a cama já fui para a máquina, reformei uma saia para o box e fiz quatro almofadas compondo tudo com as poltroninhas que já estavam prontas para a nova decoração do quarto. No final de semana vamos começar os planos para pendurar os quadros e escolher as peças que faltam.
E a cama?
Ah, perfeita.
É, colega, essa coisa de dormir abraçadinho, de conchinha, só funciona no cinema. Aqui na vida real, o braço que fica embaixo do pescoço amado fica dormente, e ninguém agüenta aquela coxa por cima a noite inteira. A verdade verdadeira é que não tem amor que resista a oito horas de bafo na orelha! Essa aderência toda é uma delícia uns vinte minutos antes do dormir (no inverno) e por uma hora ou duas no sábado de manhã. No mais dos dias, quando a gente conta as horas de sono antes de ter que acordar e ir para aquele trabalho que a gente super-adora, tudo o que realmente se quer é uma noite bem dormida.
Para isso, 2m² de cama per capita são uma benção.
Mas pode ficar melhor. Ah, sempre pode. Eis que, de brinde, recebemos um maxi-travesseiro de 1,98m. sim, sim, inteiro, de ponta a ponta do colchão. De visco-algo. Macio e altinho, como eu gosto. E aí a gente descobre que outra coisa que destrói a felicidade do sono marital é a luta dos travesseiros. Aquela coisa de duas cabeças num só, ou aquela clássica sobreposição dos travesseiros. E cada vez que a gente se vira tem que arrumar toda a escultura de novo. Um travesseiro só e agente pode rolar a vontade.
Acabou? Nananinanão! Os lençóis...
Uma coisa que aprendi na minha própria administração doméstica é que aqueles enxovais enormes não valem a pena. A gente enjoa, e nunca consegue manter um padrão estético no quarto.
O que eu faço é ter dois jogos de lençol. Idênticos ou em cores coordenadas. Mais uma colcha de verão e um edredom – com capa – para o frio. É um jogo na cama outro na lavanderia. Quando ambos estão caidinhos, a gente troca e pronto. Além do quarto estar sempre bonito, porque não tem aquele samba de cores e estampas, a gente pode trocar quantidade por qualidade. E este é o ponto: o tal algodão egípcio.
Investimos, sim é um investimento financeiro, em lençóis de algodão egípcio, 400 fios, extra-fino. Brancos, por que somos limpinhos. E eles valeram cada centavo. Toque acetinado, cama fresquinha, pezinhos deslizando.
Agora é esperar a frente fria - que vem no final de semana - para descobrir as prometidas maravilhas do edredom 100% plumas de ganso.

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segunda-feira, maio 11, 2009


Ainda nessa semana que antecedeu o dia das mães e que me deixou uns dias sozinho, caprichei no figurino para o dia do retorno da completude. Fui para o trabalho de sapato novo, preto, em camurça e verniz, formando losangos no cabedal. Combinei com calça preta, camisa branca com riscas pretas e um cardigã ajustado de cashemira também preto.
E ai uma coisa que eu gosto: ver como alguns dos meus sapatos alegram o dia das colegas de trabalho. E noto que uma delas caprichou na maquiagem e que um outro perdeu peso. E todo mundo fica feliz. E a quinta ganha cara de sexta. E não é que uma outra trouxe um bolo para um cafezinho da tarde?
Na minha mesa, uma caixa de chocolates e um cartão delicado em agradecimento a uma gentileza (arranjos de flores, mais precisamente) que fiz. E ainda que mexer com flores seja uma gentileza para comigo mesmo, cartões de agradecimento são um carinho que a raridade torna especialíssimo.
E nessa mesma, tarde, recebemos a visita clandestina da nossa vendedora de jóias e de repente lá estávamos nós comprando mimos como se não se houvesse uma crise lá fora. E mesmo a colega mais discreta se rende ao clima coletivo e se dá um par de brincos digno de uma rainha. Eu, que não sou de cortar onda positiva, vou para o aeroporto com minha aliança renovada por um aparador iluminado por uma volta de 50pts de brilhantes.
Ainda na vibração, compro mais uma pérola para minha mãe. Sim, sim, ela gosta de pérolas mais do que pedras. E não bastasse, agora cansou de ser loira e resolveu que vai se assumir com suas duas mechas grisalhas. Cada vez mais modernamente antiquada, a minha Giocasta.
Para minha sogra compramos uma coleção de formas e acessórios para chocolate, seu novo hobby. Provavelmente ela vá mudar de hobby antes de usar tudo aquilo, mas a alegria de hoje já nos satisfez.

Aliás, o jantar das mães foi mais um sucesso. AppleMartinis, pães (assados na hora), patês (souvenir de Paris) pastas de azeitona (fresquinhas de Buenos Aires). Sopa gratinada de cebola. Nhoques de abódara com molho branco e camarões. Carrés de cordeiro com risoto de uvas. Creme brullé, Mont Blanc e Tarte Tatin com sorvete. Figos trufados com amêndoas e café.
Velas vindas de Londres, assim como o candelabro. Toalha de cambraia, sousplats e taças portenhas. Guardanapos embainhados em casa, com dobradura complexa passada a ferro. Flores em branco e verde.
Depois, o saldo de meia centena de pratos, outra de copos. Panelas, formas, xícaras, bandejas. E baldes de toalhas brancas sujas de molho.

Hoje, estendendo as toalhas e guardanapos lavados, tenho uma das minhas epifanias. Sim, eu me preocupo com o que os outros pensam. Melhor, eu me preocupo em provocar pensamentos. E me orgulho disso.
Explico. Sou criterioso para estender a roupa. Penduro tudo em escala de cores, de tamanhos. Alinho os prendedores todos da mesma cor e modelo. Às vezes chego a trocar as peças de lugar só para ter um resultado esteticamente mais harmonioso. E por quê? Para que as vizinhas vejam.
Mas entendam que minha preocupação não é sobre o que as vizinhas acharão sobre minhas capacidades domésticas. Nada disso. Minha preocupação é garantir que elas tenham uma bela vista de suas janelas. Minha preocupação, e se não, é com o tal mundo mais bonito. É me cercar de gente feliz.
Sei lá, vai que ver aquelas toalhas brancas, presas por prendedores azuis, secando ao vento numa manhã ensolarada de domingo faça bem a alguém? A mim fazem; bem mais do que ver a tanga preta da vizinha de baixo se enroscando num prendedor de madeira...
E daí eu cuido de lavar as garrafas de vinho de deixá-las emborcadas para que não escorram no lixo e estraguem o dia da menina que limpa o prédio. Não para que ela pense que eu sou bonzinho, mas para que ela, mesmo sem perceber, sinta seu trabalho respeitado.
Também por isso minhas janelas da frente,além de sempre limpas e abertas, têm floreiras, com amores-perfeitos sempre floridos para alegrar a frente do prédio e porque acho que quem fica preso no engarrafamento que se forma na rua nos finais de tarde merece ver flores.
Por essa mesma razão, me arrumo mais do que o necessário para ir ao trabalho. Ou ao supermercado, onde além de manobrar o carro para que sempre fique centralizado na vaga, devolvo o carrinho na área apropriada.
Pois, vai ver que a delinqüência do meu ego gordo chegue ao ponto de não dar importância ao que as pessoas pensam ao meu respeito, mas sim pretender o que as pessoas pensam sobre o mundo. Mas o que me parece é que, mesmo torta, minha técnica funciona – ou assim me convém crer – quase sempre.
É, a ladainha de Lutti, a gente sorri e o mundo sorri de volta. E se não sorrir, o problema é do mundo.
E se o mundo pode, e pode sim, ser um lugar mais bonito, isso não tem exatamente a ver com o Lula, o Barack ou o pobre do porco gripado. Isso começa, por que não, na roupa suja (que ainda e sempre se lava em casa) de cada um.
E o meu mundo, o da minha mãe, o minha sogra, o das pessoas que eu amo e até o dos meus vizinhos, no que depender de mim, vai continuar bonito.
Bonito como toalhas de cambraia secando numa manhã outono.
Porque a gente precisa acreditar que merece e estar disposto a não se negar.

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quinta-feira, maio 07, 2009

Life's for sharing

Viagens de trabalho...
Só que dessa vez sou eu que fico em casa.
Estranho. Estranho de um jeito bom, entendem?
Eu gosto de ficar sozinho, não é esse a questão. Estranho é o absoluto. A absoluta certeza de que não vou ouvir o barulho da chave na porta. O absoluto som da televisão. E, principalmente, o absoluto silêncio antes de dormir. Estranho, estranho. Ainda mais com a temperatura na casa dos 16ºC.
Contando as horas. E a absoluta certeza da volta.

Mas a solidão é também o termômetro das paixões.
Paixão pelos absolutos, pelas certezas.

Falando em paixões. Londres.
Ah, não sei, ou sei. Mas Londres é uma das minhas paixões. Diferente de outras cidades Londres foi paixão desde a primeira vista. Continuo apaixonado pela cidade.
Vejo o vídeo da T-Mobile com 13.500 pessoas cantando Hey Jude na Trafalgar Square e já fico todo emocionado. Algo assim não poderia acontecer em nenhum outro lugar do mundo que não fosse Londres.
Conheço muita gente que morou em Londres e acha a cidade fria, na temperatura e no temperamento. Não morei em Londres, sou um amante breve, ainda que frequente. Então, discordo. Acho Londres, ou no mínimo os londrinos, muito acolhedora. Desafio qualquer pessoa a ficar numa fila em Londres por mais de 5 minutos sem que uma conversa se inicie. Um simples contato visual é a senha para começar o papo. Não falo de garçons e vendedores, falo das pessoas nas paradas de ônibus, nas filas de caixa, nos teatros, nos pubs. Ou eu que sou muito simpático...pelo menos em inglês...
Enfim, meus londrinos são dispostos a sorrir. São dispostos a cantar em praça pública. Concluo que são, acima de tudo, dispostos a compensar o pouco sol. Aliás, isso é outra coisa que adoro em Londres: o efeito do sol.
Paris, por exemplo, é uma cidade totalmente diferente no verão. As cores da cidade mudam. Mas os parisienses não. Londres não muda muito no verão, mas os londrinos personificam a borboleta que sai do casulo. Após um inverno em preto e cinza, surgem ruas pintadas de cores. E provavelmente foi isso que mais me emocionou no vídeo.
Numa manhã desse início de primavera, já dá para perceber a alegria chegando. A gente já vê uns azuis, uns laranjas. As londrinas lindas já capricham mais na maquiagem e nos cabelos. Alegria de viver. Alegria de celebrar uma coisa boba como o sol, como um pouco de calor. Alegria de estar vivo, de ter sobrevivido a mais um inverno. Sei lá, coisas que Londres desperta em mim e, pelo jeito, nos londrinos.
Ainda por esses dias, vi em algum lugar que a publicidade moderna se caracteriza por vender conceitos antes de vender produtos. Acho que isso aumenta a responsabilidade de quem vende. E também de quem compra. A campanha da T-Mobile é dessas coisas que me faz ter esperança. Melhor, me faz ter certeza. Certeza de que o homem como conceito ainda é maior – e melhor – do que o homem como produto.
A campanha, feita para vender celulares, faz isso com excelência e faz bem mais do que isso. Vende a tecnologia do futuro, mas nos dá de brinde o que de mais atávico pode haver em nós: a vontade inata de estar vivo, e de ser feliz.
Ser feliz é o categórico mais imperativo do estar vivo. É o que lhe legitima.
E se não valesse a imagem pelas tais mil palavras, a campanha ainda tem o slogan que resume o recado: Life´s for sharing.
Recado dado.
Para cantar junto:
“For well you know that it's a fool,
Who plays it cool,
By making his world a little colder.
Na na na na na na na na na.”

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quarta-feira, maio 06, 2009



Recebemos em casa com freqüência. Adoramos. Planejamos cada detalhe, discutimos o cardápio, a decoração, o gosto de cada convidado. Fazemos, às vezes, jantares completos, com lugares marcados, vários pratos, receitas complicadíssimas. Outras vezes, agora a maioria, elegemos um clima mais descontraído. Comidinhas para comer no sofá, para que não haja hora de parar.
Tenho meus truques.
O primeiro, sempre, flores. Nada deixa a casa mais festiva do que flores. Muitas na sala e umas poucas no lavabo, como um mimo para as visitas. Não necessariamente os grandes arranjos que faço para as ocasiões formais, e que precisam de fornecedores atacadistas. A coisa está mais para o que se acha no supermercado. Umas flores do campo em baldezinhos de latão, ou rosas numa xícara de consumê.. Dá para fazer maravilhas com maças ou limões. Um bowl cheio d’água, umas velas flutuantes e umas gérberas sem caule fazem e temos um centro de mesa!
Outro truque são drinques coloridos. Cosias que a gente fica constrangido de tomar nos bares da moda, mas que trazem o relaxamento ideal para começar a noite. Nossos cosmopolitans fazem sucesso entre as mulheres e levam ao delírio proibido os homens. Não menor é o sucesso dos flertinis, dos daiquiris e de outras coisas que a gente inventa com o que tem disponível.
Mas o grande truque mesmo é o pão. A melhor maneira de fazer as visitas se sentirem em casa é o cheiro de pão saindo do forno. Pães com sabor, recheados, ou um simples pão francês para comer com patês.
Acho que tem funcionado. Nossas últimas visitas chegaram às 19:30 e foram embora às 6:30. Não vimos o tempo passar, não conseguimos esgotar nenhum assunto. Já combinamos o próximo encontro.
Concluo que o segredo de receber bem, então, não tem nenhum truque. A gente precisa apenas de pessoas que a gente ama.

E talvez seja impressão minha, mas acho que as pessoas estão voltando a receber.
Não falo apenas nas apoteóticas festas de casamento e formaturas ou aniversário de criança, que são tratadas como a única – ou última – chance.
Falo de pequenos jantares em casa. E não, não falo daqueles churrascos clube do Bolinha que a gente tanto fazia na adolescência (ainda que tardia). Falo da nova leva de gourmets que juntam os amigos para mostrar suas especialidades.
Isso pode ser fruto da violência urbana, da exorbitância do preço dos restaurantes auto renomados, da lei seca.
Ou vai ver isso é fruto da nova onda da casa própria. A antiga classe média hoje se acha mais glamourosa, mais sociável. Todo mundo já deu um role europeu e está pagando a prestação da casa própria. E essa casa própria, há uma grande chance, terá o living maior que todo o resto e terá sido padronizadamente decorada com móveis clean e um toque retro, e provavelmente terá uma cozinha tipo americana, com a indefectível geladeira de aço escovado combinando com a coifa. Sem falar da sacada integrada, com a burocrática churrasqueira. E aí é que está o arauto dos novos tempos dos acepipes e quitutes: quem usa uma vez essa tal churrasqueira cravada numa parece no meio do living, junto com os sofás e persianas, nunca, nunca mais, vai querer repetir a experiência.
Daí soma-se a democratização das receitas, a globalização dos sabores e principalmente dos ingredientes. E então é esse tanto de gente fazendo sushi em casa, misturando rúcula e tomates secos, caramelizando cebolas, reduzindo molhos e harmonizando vinhos.
Eu, que só trabalho para bancar minha real vocação - ser dono-de-casa -, acho ótimo.

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sexta-feira, maio 01, 2009

Recaída edipiana - na cama sem mamãe


A verdade verdadeira. Ou a verdade por trás dos fatos. Ou o pequeno exercício de análise de Lutti.
Como vocês têm acompanhado nos últimos dias, pequeno Lutti teve uma crise emocional por causa de uma cama. Sim, sim, Lutti é desse tipo de pessoa. Não do tipo que tem crises por causa de compras, mas do tipo que tem crises. Lutti, conforme explicou, vai engolindo coisinhas que não digere de todo e de repente explode.
Então o que aconteceu antes da crise da cama?
Bom, uma recaída edipiana, uma crise econômica mundial, uma infidelidade.
Pequeno Lutti é maior, vacinado, bem casado. Trabalha duro, cuida do planeta, recicla seu lixo, paga suas contas. Pequeno Lutti está pagando a casa própria, pagou o carro próprio, tem seguro de vida, seguro de saúde. Pequeno Lutti leva uma vida honesta e de poucas privações. Lutti tem lá suas extravagâncias, seus caprichos, seus luxinhos. Pequeno Lutti, por exemplo, gosta de ir de lua de mel para as Europas, duas vezes por ano, inclusive.
Com a tal redução do IPI no final do ano, pequeno Lutti especulou trocar o carro. Pai de pequeno Lutti, que como o avô de pequeno Lutti, tem fixação por carro e não vê razão nenhuma para trocar todos os anos. Achou a idéia ótima. Mas daí que meu fogo de palha passou. Não me apaixonei por nenhum carro. Não quis, principalmente, a mesma caminhonete que meu pai tem. É um carro caro, com seguro caro, mesmo com desconto, me custaria uma mais uma prestação por mais dois anos. Lutti achou que isso atrapalharia o fluxo econômico turístico. Descartou a idéia.
Só que o pai de pequeno Lutti resolveu tecer algumas considerações a respeito de como Lutti está gastando seus ricos dinheirinhos. Especialmente sobre o excesso de viagens e a ausência de economias. Resolveu, inclusive, fazer um discurso sobre como ele mesmo passou por privações para construir o próprio patrimônio, inclusive para ter o carro que tem.
Fiquei indignado. Conselho é uma coisa. Coação paterna, na fase adulta, é outra bem diferente. Magoei.
Só que daí tal marolinha não passa. E eu vejo toda semana no supermercado que algo está acontecendo.
Fazemos nosso próprio encontro do G2 aqui em casa e resolvemos não viajar nesse primeiro semestre. Resolvemos aplicar nossos 13ºs e adicionais de férias, e o que estávamos guardando para a viagem de primavera. Orgulhosos de nossa própria responsabilidade, resolvemos também aproveitar para investir um pouco em coisas duráveis para a casa. Investimos em algumas manutenções e benfeitorias, atualizamos alguns eletro-eletrônicos e resolvemos trocar a cama (e consequentemente refazer o enxoval em tamanho king, o que, acreditem, requer uma bela soma).
Daí acontece a novela da cama.
E o surto.
A verdade: fui infiel. Traí a mim mesmo. O que eu realmente queira era mandar meu pai à merda. Era dizer a ele que antes de gastar uma fortuna num carro importado, deveria ter tido a delicadeza de se certificar se minha mãe não gostaria de gastar essa mesma fortuna em alguma outra cosia que satisfizesse o ego dela também. Bom, eu disse isso, mas não na hora certa, nem do jeito certo. Édipo, Édipo, Édipo....como uma deusa....você me mantémmmmmmmmm....e as coisas que você me diz....me levam aléééééémmmmmmmmmmmm...
Mas por outro lado, me armei com o bastão da verdade. Sim, sim, eu fiz a coisa certa. Eu fui adulto e responsável. Fiz pesquisa de preço, não escolhi o produto mais caro. E na minha lógica, quando eu faço uma coisa certa, mereço ser regiamente recompensado. Então, quando uma fatalidade acontece e não sai tudo como eu acho que deveria sair, me sinto injustiçado, traído, preterido pelos cosmos. Acho que o mundo está perdido. Reclamo e ninguém entende a gravidade de minha queixa. Me dizem que essas coisas acontecem. Não sabem que o que aconteceu foi uma quebra total no meu sistema lógico. Lutti, inseguro, traído e incompreendido entra em crise. A vida não presta.
Porque eu me privei de viajar, achei, sinceramente, que o universo tinha que me recompensar.
O que quero entender com esse pequeno episódio do corriqueiro é que somos responsáveis por cada ato. Que somos responsáveis pelas conseqüências de cada ato. Cada vez que mudamos qualquer coisa na harmonia do todo, estamos iniciando uma cascata de efeitos da qual devemos estar conscientes. Mais do isso, ou antes disso, devemos pensar na energia que lançamos e como ela pode voltar para nós.
Comecei um processo simples – comprar uma cama – movido pelas razões erradas. Ainda que tenha arquitetado um contexto legitimador, a energia estava errada. Comprei a cama por compensação, por vingança, para mostrar que minhas delinqüências são minhas e que ninguém tem nada a ver com isso.
E não que eu queira soar doutrinador, ou fanático, ou ingênuo. Mas vai que o universo sempre conspire para que as coisas dêem certo e na hora certa, ainda que a gente não entenda de imediato. Vai que um processo que começa na raiva só pode acabar na raiva?
Enfim, as coisas são como são, e não como a gente quer. Provavelmente porque a gente nem sempre quer o que precisa.
Exorcizada a verdadeira crise da cama acho que a coisa tende a melhorar.
A cama nova foi escolhida em circunstâncias externas igualmente tortas, travestidas de raivas e indignações. Mas, intimamente, a coisa foi feita mais ao meu estilo. A cama é extravagante, superlativa, luxuriante. Foi escolhida num arroubo de paixão e justificada por critérios racionais pessoalmente suficientes.
Foi escolhida por mim, para mim, por nós para nós. É um mimo para nossos egos inflados e não um remendo. Está, portanto, desde já predestinada a dar certo.

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