quarta-feira, fevereiro 24, 2010


Onde alguns vêem destino, eu vejo apenas ironia.
Porque se há uma coisa que eu admiro em Deus é a sua ironia.
Ao será apenas um humor cosmicamente britânico?

Ontem não fomos fazer nossa habitual caminhada de final de tarde. O dia tinha sido pesado para ambos no trabalho e optamos pela paz doméstica e o elaborado processo de um suflê de couve-flor. Tudo caminhando para uma noite agradável...
Enfim, uma sogra germânica. Uma suposta cólica (que já se manifesta há meses), uma febre de alarmantes 37ºC. A verdade por trás dos fatos, evidentemente envolvendo carência emocional e uma questão supostamente financeira. Esse tão conhecido quadro só poderia ter um resultado igualmente conhecido: uma boa emergência hospitalar. Aos costumes, tal calamidade envolve todos os filhos, noras e genros disponíveis e, principalmente, os indisponíveis.
Experience has made rich/And now they're after me…Antes de sair para o hospital coloco no bolso minha niqueleira (para as hediondas máquinas de café) e pego um livro.
Bem acomodado numa poltrona da sala de espera, tenho quatro horas de leitura. Venço Teoria da Viagem – poética da geografia do Michel Onfray (L&PM, 2009). E é inevitável – senão premeditado - fazer o paralelo com o De malas prontas da Danuza Leão (Companhia das Letras, 2009).
Onfray é da nova filosofia francesa. É, sem dó, chato como só alguns franceses conseguem ser. Escreve de uma maneira cansativa e pretensiosa que muitas vezes me assusta nos meus próprios textos. Provavelmente deve ter uma noção de modéstia semelhante a minha... Mas tirando a masturbação exibicionista acadêmica, o livrinho é uma tentativa frustrada de fazer prosa poética sobre o tema da viagem. Das 111 páginas, bem verdade, salvaria umas dez de belos argumentos e conclusões bem perspicazes (ainda que com a modéstia dogmática da certeza...).
Só que seja como viajante seja como turista, não me identifiquei com Onfray. Ainda que acredite na opção sartreniana de (d)escrever sensações e impressões, não acreditei na fórmula apresentada, nem nos seus quesitos nem na seu resultado.
Daí tem o outro extremo: a leveza meio deslumbrada, meio démodé da Danuza. Ta, convenhamos, a maioria de nós, viajantes da nova estabilidade econômica, tem acesso aos lugares, pessoas e lembranças que Lady Danuza Leão reencontra nas suas andanças. Muitos dos lugares que ela mais gosta, são os lugares que eu menos gostei (como o La Biela em BsAs...). Temos muitas coisas em comum, é bem nítido, como a decepção com a Louis Vuitton, o pavor ao Philippe Starck e a disposição de redescobrir uma mesma cidade inúmeras vezes.
E então não sei se eu e Danuza fazemos viagens diferentes ou se são os nossos mundos reproduzidos em outros locais é que são diferentes. Seja como for, restaurantes caros e coquetéis em bar de hotéis não me interessam em lugar nenhum. Não ainda, pelo menos.

Nesse ponto me encontro com Onfray e concordo que toda viagem é antes de tudo uma tentativa de buscar a si mesmo pelo encontro ou reencontro. E que nesse processo carregaremos aquilo que levarmos, e que não podemos crer que deixaremos algo simplesmente por termos mudado de cenário.

Quando penso nas minhas viagens, percebo que não vou para deixar, vou para buscar. Buscar roupas, sapatos, enfeites, buscar sabores, ingredientes, livros, fotos. Buscar presentes ( e um pouco de passado, e algum futuro). Busco, acima de tudo, eu mesmo.
Há nos habitantes - e mais ainda nos seu hábitos – das metrópoles do velho mundo algo que me diz respeito, que me acalenta, que me faz menos solitário em algumas convicções. Busco. Busco ânimo para continuar, para fazer de minha casa o meu castelo e ao mesmo tempo para me perceber alguém que não precisa de nada que não possa ser levado na memória.

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terça-feira, fevereiro 23, 2010


O ano insistindo em começar.
Eu sou mais persistente.
Mas, vamos. Indo. Fazer o quê?
Estou de birra com o trabalho. Em março, bem sei, começa a tensão pré-eleição e minha já burocrática vida funcional vira um sem fim de estatísticas e planos mirabolantes para salvar o mundo das cáries – enquanto há tempo.
Depois, conforme o rumo que as coisas tomem – ou que as pesquisas apontem – ou só por precaução, talvez seja hora de bater em retirada queimando os campos e celeiros que ficarem para trás, antes que Napoleão chegue.
Para frente ou para trás, é assim que a roda gira.
Enquanto isso processos chegam às pilhas. E aos megabites, já que agora também há processos eletrônicos! Muda o formato, só não muda o conteúdo: egos descontrolados.

Também estou meio de birra com a administração doméstica. Mudou o ano, hordas famintas retornam do litoral invadindo os supermercados e me irritando no trânsito. O calor segue insuportável. Os cupins seguem fazendo sujeira nos armários da dispensa. O galão d’água ciclicamente acaba toda a semana. A hidra do banheiro social continua estranha. E a luz da área de serviço não se consertou sozinha.

E quem sabe numa tentativa idiossincrática de rebelião vou ao cinema e aos livros.

No final de semana assistimos o bem intencionado, mas morno, Preciosa, que vale pelas atuações todas convincentes (quem sabe mérito do diretor Lee Daniels). Só que não posso deixar de pensar se não foi justamente a veracidade e plausibilidade da atuação da protagonista Gabourey Sidibe que tirou do filme sua potencialidade dramática de ficção, deixando-nos com o incômodo questionamento da realidade. Até aí, tudo bem, só que o roteiro não nos oferece diálogos à altura da experiência, pelo contrário, se vale das frases e soluções clichê dos filmes do gênero.

Também assistimos Um olhar do Paraíso. Só não vou falar em decepção, porque esperar que o diretor e adaptador de O Senhor dos Anéis (Peter Jackson) vencesse a travessia para um filme de linguagem mais sutil seria querer muito. Só que mesmo naquilo que se poderia esperar – os efeitos estéticos – o filme fica bem aquém do que se propôs. Felizmente, o enfado das mais de duas horas de efeitos coloridos servem para mostrar o quanto a jovem Saoirse Ronan, de Desejo e Reparação enche a tela, e podem servir para que se dê o já merecido reconhecimento a Stanley Tucci, apesar do personagem estatueta pronta...

Para compensar, o paralisante A Fita Branca. Ok, eu sou suspeito para falar da psique alemã. Por circunstâncias no mínimo cármicas, tenho quinze anos de janela no seio das mais tradicionais famílias da colonização germânica no sul do país. Das mais abastadas e protestantes, às mais humildes e católicas, passando pelas de tradição rural, pelas modernas e urbanas. Conheço pessoas que moram na Alemanha, pessoas que viajaram para a Alemanha. Pessoas que fugiram da Alemanha. E o filme de Michael Haneke me fez pensar em todas elas.
Não deixa de ser curioso ver que filmes como A Fita Branca (e antes disso O Leitor) estejam, enfim, apresentando um outro lado – igualmente assustador, mas indispensável - da questão nazista: a natureza do povo alemão.

Coincidentemente, hoje à tarde, num ataque de ansiedade com o trabalho, parei tudo e li numa tacada só De Malas Prontas, da Danuza Leão (Companhia das Letras, 2009), onde ela narra sua primeira visita a Berlim.
Mas ambos assuntos – a natureza germânica e o livro da Danuza, merecem mais texto do que meus dedos (machucados ralando queijo gruyére para os crepes de domingo à noite) podem dar agora.

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sexta-feira, fevereiro 12, 2010


Uma das grandes revoluções na minha vida foi a entrada da música.

Thank you for the music/ the songs I´m singing/ Thanks for all the joy they´re bringing/ Who can live without it, I ask in all honesty/ What would life be /Without a song or a dance what are we / So I say thank you for the music / For giving it to me…


Não sou a pessoa que chega em casa e liga o rádio (ainda se ouve rádio?), tão pouco consigo andar por aí com os detestáveis fones de ouvido. Gosto mesmo – e até preciso – de silêncio. Necessito de horas de silêncio. Em silêncio eu penso, eu faço algo que parece rezar, eu dou risada, eu faço planos, eu chego a conclusões.
A única exceção são as viagens longas de carro. Nessas preciso de música. Música de cantar junto. E só eu sei quanta coisa em minha história já se resolveu em uma hora de estrada.
Por uma equação de circunstâncias irrelevantes, acabamos indo para a praia na semana passada em horários diferentes, então passei duas horas sozinho no carro e acabei fazendo uma intensa sensação de terapia. E como eu estava precisando dela...
Vivemos num tempo de escravidão. Somos escravos da liberdade. Temos tantas coisas para escolher que nos tornamos prisioneiros da dúvida constante sobre o que estamos perdendo. O modernidade nos trouxe o paradigma compulsório da felicidade. somos constantemente bombardeados com o mito moderno da felicidade. Nada importa mais do sermos felizes.
Até aí tudo bem. Só que aí temos dois problemas: o que é felicidade e o que faz você feliz.
E ambas são questões que só ganham relevo filosófico, porque no mais são absolutamente irrelevantes para a discussão coletiva.
A mim, incomoda muita a idéia de fórmula. Seja do amor ou da felicidade. é que para mim felicidade é sempre uma experiência sensorial imprevisível. Felicidade acontece e pronto, e se a gente não estiver atento é capaz de nem perceber!
Agora, muito me agrada dar uma força para a felicidade. Seja criando momentos em que a coisa pode acontecer, seja evitando situações sem potencial para dar certo, seja – principalmente - exercitando a capacidade de senti-la.
Eu me exercito muito. É uma das coisas que eu faço no silêncio. Registro cada fragmento de feliz no meu arquivo sensorial para poder reconhecê-lo caso se repita ou se aproxime. Tem dado certo.
É, porque felicidade pode estar em cada coisa, em cada lugar...
Só, por favor, não confundam o que estou dizendo com esse novo compulsório da felicidade , tão esquizofrênico e dúbio, mas nem por isso libertador. Felicidade hoje é meio X-Tudo. Há que ser feliz a qualquer preço e em qualquer contexto, desde que ele caiba numa página da internet (ou numa micropostagem).
Não é disso que estou falando. A felicidade que me interessa é aquela que me serve, não aquela que me vendem.
Então que o primeiro quesito para a tal felicidade é se conhecer, e se saber. É assumir o que temos e o que nos falta. Ser feliz é, enfim, também um se aceitar feliz.

Num fragmento de pensamento quase paralelo, me dou conta que tenho o meu CD de instruções. Sim, sim, um CD que me traduz e me explica, que me reorganiza cada vez que o escuto. Não estou falando de uma música ou de um artista, muito menos do hit de uma época ou daquela coletânea que tocaria na trilha sonora da minha vida. é mais que isso! Estou falando de um único álbum em que todas as músicas parecem ter sido feitas para mim e que falam comigo a qualquer tempo. Secretamente, acho que descobrir o “seu” álbum de instruções é um processo de conhecimento tão importante quanto descobrir qual é o “seu” perfume.


Meu manual de instruções musicado é Marina Lima (1991).

Meu perfume definitivo ainda não foi descoberto. Já fui CK One, Truh e L’eau para Kenzo. Flertei com 212 Cool da Carolina Herrera e com Light blue da D&G. Até então eu era Kenzo Air no verão e M7 da YSL no inverno. Mas esse ano estou sendo CK Free e Dior Homme Sport. No inverno serei La nuit de l´homme, também do Yves Saint Laurent. Em casamentos eu vou, muitas vezes - há algum tempo, de Chanel Egoiste Platinum.

Ora pois, que a felicidade também pode estar numa música, num cheiro, numa estrada. Ou em quem nos espera...

E às vezes alta madrugada/ Ficam dúvidas com tudo/ Talvez o fim não seja nada/ E a estrada seja tudo...

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quarta-feira, fevereiro 03, 2010


Essa época do ano é estranha para mim. Não gosto de calor, não sei agir com calor, fico irritado de graça. É o verão mais quente em anos...
Minha marcação de férias é feita pelos equinócios, não pelos solstícios. E sou do time dos sem filhos, o que me exclui da escala de férias escolares. Portanto, janeiro e fevereiro são meses de poucos colegas para os mesmos problemas. Sem falar que a gente tem para sempre aquela nostalgia infantil de achar que não se pode ter compromissos entre dezembro e março.
Tudo estava vindo numa crescente que começou com a temporada européia e culminou com o melhor reveillon em anos numa pequena praia com um outro casal e uma inocência adulta que me é tantas vezes necessária.
Dizem os franceses que as pessoas felizes não têm história. Les gens heureux n’ont pas d’histoire...
Reencontrei a frase lendo a coluna de ano-novo da Danusa Leão na Vogue.
Talvez essa seja a melhor explicação para a demora do ano começar aqui no blog. E talvez seja a exata explicação de estar escrevendo hoje...
Recomeça o ano, recomeçam as rotinas inevitáveis. Só que algo em mim não quer recomeçar, não no mesmo ponto. Algo em mim pede mudanças vezes sutis, vezes drásticas, mas sempre definitivas. E vai ver alguns resgates se exijam.
Conflitos que sempre estão presentes em mim e que nem por isso me fazem ser contraditório - sabemos que me prefiro como paradoxal – mas que me cobram um tempo que eu não ando disposto a dar.
Sou fiel a minha filosofia de deitar a cada dia pronto para não ter o seguinte. Sigo sempre quitado com minhas escolhas. Mas isso não significa que eu vença minhas latências. E se eu não morro de desejo, isso não significa que eu não padeça de dúvida.
Não me nego aquilo que eu quero, mesmo sabendo qual será o preço. Por isso mesmo sou muito cuidadoso com a triagem dos meus desejos.
Ainda não há razão para alardes. Não há nada formulado. São flashes, uns fragmentos de sonhos e uma sensação quase boa, que eu costumava saber no que ia dar. E o esboço daquele cansaço que tentou acabar comigo ano passado.
Mas não dá para pensar nisso a 37ºC.
Claro, há sempre algumas leituras. E às vezes um filme.
Leituras erradas. Erradas para o clima. Ainda estou empurrando o Gilberto Freire e Onfray. Definitivamente, leituras para o frio. Leituras que precisam ser feitas com ritmo, entre goles de chá e com o corpo distraído no sofá. Não funcionam nesse calor inquietante. São autores com linguagem e metalinguagem próprias, é preciso algumas páginas para encontrar a sintonia com o texto.
Sem falar que ler Modos de Homens & Modas de Mulheres em épocas de semanas de moda nativas é piada pronta. E sem graça.
E Up in the air, ou na equivocada versão Amor sem escalas... Um filme que, vejam só, fala de escolhas e conseqüências e de como é possível – e tantas vezes necessário – viver com elas. Ou simplesmente mais sobre somos quem somos. E aquele blábláblá da mochila, mas que me pegou num momento apropriado.

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