domingo, janeiro 23, 2011


Ainda muito calor, muito verão, muito férias, para qualquer texto que exija nexo.

Mas precisava registrar algo curioso.

Pela primeira vez em muitos anos estou lendo um livro de receitas.

Ainda que cozinhe desde que precisava de supervisão de um adulto, e que nos últimos cinco anos tenha cozinhado todo e cada dia, raramente sigo receitas. Acho que uma das graças da cozinha é exatamente a liberdade de combinar e recombinar ingredientes e conseguir resultados totalmente novos a cada prato.

Geralmente, quando como alguma coisa diferente, acabo sentindo ou deduzindo do que é feita, ou como é feita. Para casos de dúvida, recorro ao Google.

Antigamente, vasculhava minha própria memória, já que muito da minha “cultura” culinária veio dos poucos exemplares de livros e revistas do gênero que tínhamos em casa, repletos de clássicos chiques dos anos setenta, como coquetéis de camarão e legumes recheados.

E muito veio de programas de televisão. Pois é, sou do tempo da Cozinha Maravilhosa da Ofélia, ou da local Aninha Comas. E seria injusto não confessar que os primórdios vespertinos da Ana Maria Braga tiveram sua importância.

Só excepcionalmente corria a alguma livraria para espiar um livro, mas nunca os comprava. Nos últimos tempos, comprei alguns manuais de técnicas, outros sobre as reações químicas dos alimentos, e uns tantos tratados sobre a história (ou em torno) da comida. E sim, alguns livros de receita, que só foram brevemente folhados e caíram no esquecimento da estante.

Tão pouco consigo gostar dos programas de culinária modernos. Ou são muito óbvios, ou muito presunçosos. E todos são excessivamente devotados à cozinha italiana, como se “toscano” fosse a credencial para um mundo de sabores insuperáveis (onde tudo tem alecrim/manjericão, limão siciliano e azeite de oliva extra-virgem!). Sem falar que toda aquela gritaria, o desperdício, e a bateção de faca me irritam de uma tal maneira...

Uma exceção a isso e a razão deste texto: Nigella Lawson. Meu programa preferido. Em muito por causa do sotaque britânico delicioso, mas ainda mais pelo jeito poético, quase sensual, com o qual ela fala sobre comida, sobre os sons e cores da cozinha, sobre cozinhar para si mesmo e para os outros.

Só que eu nunca tinha lido nenhum de seus livros.

Espiei em Londres (e confesso que cheguei a desejar esbarrar em alguma tarde de autógrafos), mas só vim a comprar aqui, usando um vale-presente do natal, seu último livro: Kitchen - Recipes from the heart of the home.

Paixão a primeira lida. Não exatamente pelas receitas (até porque temos um repertório parecido!), mas pelos textos que abrem cada capítulo e introduzem cada receita. Essa idéia que me é tão cara de que cozinhar é um processo extraordinário e mágico sem nunca deixar de ser simples prazeroso.

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