sábado, fevereiro 26, 2011

Galliano e a Dior


Bem louco.

O que às vezes é um bom sinal.

A massa de pão foi dividida em duas. Metade foi aberta, besuntada de manteiga, polvilhada com açúcar, canela e coco ralado, enrolada como rocambole e cortada em fatias que serão assadas. A outra metade seguiu seu caminho original e virou brioche.

Enquanto o pão descansava, usei o resto da manteiga e farinha integral e geregelim para fazer uma base de torta, que hoje à noite vai ser recheada com os restos de queijo do nosso brunch, misturados com ovos (inclusive o que sobrou depois que eu pincelei o brioche) e creme de leite (o que não virou chantily ontem!), mais tomates e manjericão.

Quando for montar a quiche da janta, aproveito para deixar uma massa de baguete pronta. Amanhã, baguetes recém assadas. O que sobrar, na hora do Oscar, reaparece como bruschetas, reciclando o que sobrar dos presuntos, salames e queijos do final de semana e dando um fim digno a uma abobrinha solitária.

E por falar em digno, o que me traz de novo ao bloguinho não é aborrecer-lhes com minha neurotizante egotrip doméstica, mas sim comentar o episódio GallianoxsemitasxDior.

Conta-nos a internet que John Galliano, bafometricamente alcoolizado, teria se desentendido com um casal em um restaurante no Marais (o bairro parisiense tradicionalmente dito judeu). Ao que parece, o que era para ser um brinde acabou em insultos antissemitas, uma prisão em flagrante e depois um suposto telefonema para liberar o genioso gênio da moda.

Mas o que de digno, em questão, foi a atitude da Dior que, após um breve silêncio acerca do caso, sumariamente suspendeu Galliano até que o incidente seja resolvido.

Olha, sendo Galliano um dos nomes mais importantes da moda mundial, a decisão pode se vangloriar de ser corajosa. Mas não exatamente surpreendente.

Não apenas, ainda que suficiente, porque o antissemitismo seja uma questão sempre delicada na Europa. Especialmente em Paris, historicamente refúgio da resistência ao racismo institucional.

Mas talvez, haja mais valores envolvidos na decisão.

Explico: vai-se um anel, ficam os dedos.

Por um lado, podemos lembrar que com o mundo árabe em crise e com os dragões asiáticos adormecidos, não é hora de menosprezar o bom e velho dinheiro europeu guardado embaixo dos experientes colchões judeus. Mas esse argumento me parece tão preconceituoso quanto os alegados impropérios.

Por outro, não seria mesquinho pensar que depois de quase 15 anos, a Dior não se importaria de trocar de estilista. Afinal, há muitas temporadas nenhuma moda é lançada pela casa, nenhuma bolsa icônica (a última foi a Lady Dior, em 1995, criada por Sidney Toledano quando assumiu o cargo de diretor do departamento de couro), nenhum esmalte ou batom must-have embora haja quem não viva sem as bases DiorSkin), nenhum formato de ombro ou quadril. Nem nos tapetes vermelhos da vida a Dior anda bombando. Contudo, quando o assunto é alta-costura, o nome de Galliano ainda é ansiosamente aguardado. Na indústria da moda, a alta-costura ainda funciona como marketing de fixação da marca e é decisivo para projetar o conceito de luxo que venderá, mais que tudo, os perfumes da marca. Reparem que é justamente nos comerciais de perfume que as garotas-propaganda desfilam os vestidos couture das grifes. Então, nesse quesito, Galliano ainda rende, pois as vendas do J’adore e o Miss Dior Chérie seguem muito bem, obrigado.

O argumento que me convence é que a Dior sabe que é – e precisa ser - maior que Galliano. Graças ao figurino da estonteante Carla Bruni, a primeira-dama francesa, e sua fidelidade oficial à maison, a Dior voltou a ser sinônimo de moda francesa, garantiu sua cota de contemporaneidade e, principalmente, resgatou a áurea de respeitabilidade que não era garantida pela performática imagem do estilista. A Dior quer ser moderna, não cômica, quer ser mundial sem deixar de ser francesa, porque é exatamente esse “selo” francês que lhe garante sua fatia de mercado.

Reforça o meu argumento o próprio retrospecto da Dior. Inaugurada por Christian Dior em 1946 (como investimento do milionário da indústria textil Marcel Boussac), a casa fez historia em 1947 com o “New Look” que com seu imortal tailleur Bar, ora ora, usava tecido suficiente para enriquecer a indústria têxtil pós-guerra! Com a morte prematura do criador em 1957, o casa ficou a cargo do jovem Yves Saint Laurent, que partiu para a carreira solo em 1962. Lhe sucederam Marc Bohan e Gianfranco Ferrè. Sim, ninguém lembra, e isso já era um problema.

Então, em 1985, um ambicioso e empreendedor empresário francês - Bernard Arnault - adquiriu a Christian Dior, acreditando que tanta tradição ainda poderia render algum lucro. Nascia aí o embrião do poderoso grupo LHMV, que ao longo dos anos transformou as moribundas como Louis Vuitton, Moët & Chandon e Hennessy, Christian Dior, Kenzo, Parfums Kenzo, Christian Lacroix, Chaumet, Loewe, Le Bon Marché, Givenchy, Donna Karan, Tag Heuer em zumbis devoradores de novos-ricos.

Em 1995 o promissor Galliano foi contratado para a Givenchy, dois anos depois, assumiu a Dior. Associada a imagem de Lady Diana, a marca renasceu com força total. Daí para o vestido estampado de jornal com a bolsa sela de Carrie Bradshaw, foi só alegria.

Só que a mesma fórmula foi aplicada para a Louis Vuitton com Marc Jacobs. Para a Gucci com Tom Ford. E não muito diferente fez a Chanel, que rejuvenesceu os cabelos brancos do pouco simpático Lagerfeld com imagens como Lily Allen e Blake Lively. Até a Hermès se abriu para o ex-jovem Gaultier.

Ou seja, como a Dior foi a primeira a rejuvenescer, inevitavelmente será a primeira a envelhecer de novo. Ao menos que consiga se sustentar como um clássico, algo eterno e indispensável, algo que, em tempos globalizados, represente o que de mais tradicional a Europa de hoje possa imprimir. Algo que seja internacionalmente assimilado como europeu – por que não, senão francês!

E sim, ainda assim, jovem.

Na falta de Lady Di emancipada, passeando por Paris, Dior se agarrou na elegância gratuita de Carla Bruni.

Pelo visto, entre a imagem do britânico Galliano e a da italiana Bruni, a Dior optou por se manter francesa.

Pas mal, Monsieur Arnault!

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sexta-feira, fevereiro 25, 2011


Considerem que eu devorei o Kitchen da Nigella.

E o fato de que ao mesmo tempo comecei a saborear a História da Alimentação (Estação Liberdade, 2007) organizado por Jean-Louis Flandrin.

Por fim somem duas semanas em que o mundo coorporativo resolveu começar o ano, ou ao menos cobrar ou últimos favores do ano passado.

(Não se trata de gostar ou não. No meu ramo não se é pago para gostar. Vivo da satisfação do cliente, seja qual for o cliente, ou o fetiche. Tampouco sou pago para julgar o cliente. Tento, na maior parte do tempo, acreditar que o que realmente importa é estar sendo pago. Há dias mais difíceis.)

Enfim, entendam que dadas as circunstâncias – e quando não? – só me restava uma das rotas de fuga conhecidas para recuperar um pouco de mim mesmo.

À cozinha.

Comecei a fazer os balanços preparatórios do imposto de renda e constatei que mensalmente gastamos mais com celulares/TV a cabo/ internet do que com alimentação. E isso que não somos exatamente pessoas “conectadas”. Já nossa alimentação inclui semanalmente frutos do mar, queijos finos, cogumelos, produtos orgânicos, e toda uma gama de ingredientes tidos como caros. E sim, seguidamente temos convidados!

Além disso, notei que após as férias e as festas de final de ano, precisei de menos de um mês para perder cinco quilos e voltar ao meu peso normal.

Sem falar que nos últimos cinco anos nenhum de nós teve mais do que um resfriado.

A cozinha.

Faço quase tudo o que comemos. Cozinho todos os dias. Planejo cada refeição. Não desperdiço nada. As porções são pesadas, todas as refeições contemplam todos os grupos alimentares e nas proporções recomendadas. Raramente elimino as cascas, não uso produtos light/diet/sintéticos. Controlo o sal e o açúcar. Sou obcecado com fibras. Variamos as texturas, as cores e principalmente os sabores.

Como compro legumes orgânicos, dependo a cada semana do que estiver disponível. E me divirto tendo que cozinhar com que trouxe.

Esta semana, comemos uma versão verão de shepherd´s pie; um refogado de berinjela com cordeiro, atum grelhado com cogumelos e arroz japonês; carne mal passado acompanhado por cuscuz com tomate-cereja, cebola roxa e ervas.

Hoje jantamos linguado assado no leite, com batatas, alho-poró, evilhas e cebolas.

Para aproveitar o forno quente, assei um bolo feito com calda do abacaxi (que foi usado num relish, mês passado). Uma parte do bolo foi fatiada e coberta com pêssegos amarelos (que cozinhei com as cascas numa calda rala de açúcar com um pau de canela), creme de baunilha (para usar o resto do leite que não foi usado no peixe), chantily (porque havia um creme de leite fresco quase vencido...) e umas amêndoas tostadas (no forno já desligado, para aproveitar o que restou do calor).

E de acordo com meus planos, poderia já ter assado o pão de amanhã, mas como começou a chover, o levain ficou mais preguiçoso.

Sim, um vidro cheio de calda rosada dos pêssegos está na geladeira, e quem sabe vai se aparecer num sorbet semana que vem?

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terça-feira, fevereiro 08, 2011

Como as coisas acontecem.

Tentando externar minha decepção com Black Swan, acabo usando um argumento com o qual nem mesmo concordo. Não, pelo menos, se pensar a respeito.

Só que meu superego – o sempre atento – deixa um sinal para mim mesmo no texto: falo que os animais têm memória de cheiros.

Ora, ora, a Hipótese da Estátua de Condillac (1715-1780), exposta no Tratado das Sensações (1754).

Senta, que lá vem a história.

Descartes (1596-1650) defende que há princípios intuitivos que não precisam ser explicados, são inerentes à razão da mente pura e atenta, podendo, por isso, ser tomados como evidências e usados como postulados para o raciocínio dedutivo, como penso, logo existo. Teríamos, portanto, idéias inatas, ou verdades que sabemos por saber.

Anos depois, Locke (1632-1704) no seu Ensaio sobre o entendimento humano introduz a idéia da tabula rasa, ou de que nossa mente é uma folha em branco que vai ser preenchida com conhecimento através das nossas experiências as quais acrescentamos o ato consciente da reflexão.

Fã de Locke, Condillac foi além e disse que todo nosso conhecimento deriva de memórias sensoriais comparadas entre si. Quando nos deparamos com uma sensação, vamos buscar na nossa memória uma sensação precedente, agrupando-as como agradáveis ou desagradáveis. A inteligência, os juízos, as paixões, tudo se explica pela idéia de fruir daquelas e fugir dessas.

A hipótese da estátua é que se a uma estátua fosse dado o olfato, e sucessivamente outros sentidos, ela acabaria por se tornar um animal apto a própria conservação, a defesa de sua sobrevivência por ser capaz de organizar memórias como, por exemplo, que um determinado cheiro é perigoso.

Embora isso não faça nenhuma diferença, gosto mais da idéia da teoria cartesiana. Sim, sim, em geral sou bem cartesiano, me diriam alguns... Mas não esqueçam, por favor, que antes do inatismo vem a anamnese platônica.

Mas talvez a minha maior resistência a hipótese de Condillac seja exatamente o ponto em que ela excede o empirismo de Locke e se torna puramente materialista, excluindo da formação da memória nossas reflexões interiores sobre as percepções sensoriais. Como se nosso conhecimento se formasse apenas da distinção primária entre prazer e dor e todo o resto fosse apenas uma cumulação de hábitos.

Precisamente, percebo, que minha real preocupação não está na origem, mas na evolução. Embora confesse que, com o nome que derem, me agrada a idéia de que temos algo de inato. Algo que mesmo sem corresponder a quem somos, diga sobre quem poderíamos ser. E chamem esse conhecimento inato de instinto, de dom, de carma ou simplesmente de desígnio de alguma forma de divindade, não me importa. O que me fascina são os sinos que tocam na nossa cabeça em determinados e excepcionalmente decisivos momentos da nossa vida em que simples e inexplicavelmente sabemos o que deve – ou não deve - ser feito.

A idéia de todo nosso conhecimento deriva da busca pelas sensações que registramos como boas e da fuga daquelas ruis me parece um tanto simplista, mas de todo sincera.

O que me inquieta é como podemos mudar. Porque se temos algumas verdades inatas, entendo que podemos construir tantas outras verdades a partir da dedução ou percebê-las através da intuição, e a medida que tivermos melhor domínio sobre o que nos é inato, não seria pretensioso dizer que podemos rever alguns conceitos.

Ainda que se tome o caminho de Locke, ainda há espaço para mudanças, porque podemos ter novas experiências e/ou novas reflexões a qualquer tempo. E se somos uma folha em branco, talvez possamos reescrever a própria história...

Mas em Condillac não vejo espaço para mudanças. Ou, pior ainda, para escolhas. Se tudo se resume ao maniqueísmo prazer/dor, somos escravos das mesmas sensações que deveriam libertar nosso conhecimento?

E então, nos veríamos, por fim, presos obviedade metafórica de Black Swan, incapazes de entender o que não podemos tocar, mesmo que seja algo evidente, mesmo que seja algo inerente a nossa própria condição humana ou àquela que adquirimos com nosso crescimento. E tal quais Sãos Tomes modernos exporíamos a fragilidade de nossa fé - em nós mesmos – e nos lançaríamos numa desenfreada busca por algo que, ainda que indispensável, nem nos damos ao trabalho de tentar saber se já não temos.

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domingo, fevereiro 06, 2011

Black Swan


Eu poderia dizer que é o clima pré-Oscar, mas isso seria uma mentira (ou uma meia verdade?). Embora, sim, seja o clima: 36ºC em Porto Alegre.

Motivado pela idéia de ficar imóvel em lugar refrigerado, ignorei que era sábado e fui ao cinema.

Black Swan (2010), dirigido por Darren Aronofsky com a honestidade possível na era do efeito digital.

Parecia à prova de erro. Não é segredo que eu tenho uma coisa com o Lago dos Cisnes. Nem sei se meu balé preferido, mas definitivamente o mais importante. Curiosamente – ou coincidente como diriam os céticos – assisti alguma versão em momentos marcantes muito precisos da minha vida.

Ok, vamos convir que são muitas apresentações e muitos momentos importantes, então matematicamente algumas ocorrências podem ser contemporâneas. Mas dar um quê de destino sempre torna as coisas mais lúdicas, não é mesmo?

Pois, é justamente sobre esse possível do lúdico que vamos falar.

A gente sofre um tanto nessa vida, é fato. E a vida continua, seja pelo inexorável, seja pelo simples inevitável.

Um dos instintos que garante a sobrevivência de qualquer animal é a memória. É ela que permite ao animal reconhecer o cheiro do predador, da comida, do lugar onde nasceu... E um das maravilhas da condição humana é a possibilidade de manipular algumas memórias.

É isso que nos permite transformar algumas experiências ruins e boas lembranças pela adjetivação do resultado. Mais do que a memória da dor, registramos a compensação do aprendizado.

E na nossa sempre megalomaníaca pretensão, nos damos ao luxo da metáfora. Não queremos nada simples, nada óbvio - não aparentemente. Por mais que algo seja, sim, evidente (ou no mínimo previsível) não aceitamos sem um pouco de simbolismo. Queremos, sempre, um toque de metafórico.

Como eu acho que a vida é antes de tudo muito simples, acredito que quando algo precisa acontecer para o bem ou para o mal, todos os avisos nos são dados de maneira muito clara – ainda que não direta: o que chamo de sinais, para que a gente se prepare e faça os ajustes necessários na rota. Se a gente não entende, a coisa vai ficando mais explícita e selvagem até que bata na nossa cara. Então, acho que só aprendemos na dor aquilo que não fomos capazes de perceber a tempo.

Se os sinais são o que previnem a dor, a metáfora é o que a alivia.

Black Swan trata disso.

Até aí, tudo bem. Cinema não é, afinal, a grande arte da metáfora?

E com ar-condicionado.

Só que Black Swan é a metáfora explicitada.

É metáfora à flor-da-pele, a duras penas, na carne, na unha.

É metáfora do passarinho que cria asas para deixar o ninho.

É como se os arquétipos lacanianos deitassem no divã freudiano.

Para quem não entendeu, Black Swan desenha. Em preto e branco. E um pouco de rosa, porque é Hollywood.

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