Galliano e a Dior

Bem louco.
O que às vezes é um bom sinal.
A massa de pão foi dividida
Enquanto o pão descansava, usei o resto da manteiga e farinha integral e geregelim para fazer uma base de torta, que hoje à noite vai ser recheada com os restos de queijo do nosso brunch, misturados com ovos (inclusive o que sobrou depois que eu pincelei o brioche) e creme de leite (o que não virou chantily ontem!), mais tomates e manjericão.
Quando for montar a quiche da janta, aproveito para deixar uma massa de baguete pronta. Amanhã, baguetes recém assadas. O que sobrar, na hora do Oscar, reaparece como bruschetas, reciclando o que sobrar dos presuntos, salames e queijos do final de semana e dando um fim digno a uma abobrinha solitária.
E por falar em digno, o que me traz de novo ao bloguinho não é aborrecer-lhes com minha neurotizante egotrip doméstica, mas sim comentar o episódio GallianoxsemitasxDior.
Conta-nos a internet que John Galliano, bafometricamente alcoolizado, teria se desentendido com um casal em um restaurante no Marais (o bairro parisiense tradicionalmente dito judeu). Ao que parece, o que era para ser um brinde acabou em insultos antissemitas, uma prisão em flagrante e depois um suposto telefonema para liberar o genioso gênio da moda.
Mas o que de digno, em questão, foi a atitude da Dior que, após um breve silêncio acerca do caso, sumariamente suspendeu Galliano até que o incidente seja resolvido.
Olha, sendo Galliano um dos nomes mais importantes da moda mundial, a decisão pode se vangloriar de ser corajosa. Mas não exatamente surpreendente.
Não apenas, ainda que suficiente, porque o antissemitismo seja uma questão sempre delicada na Europa. Especialmente em Paris, historicamente refúgio da resistência ao racismo institucional.
Mas talvez, haja mais valores envolvidos na decisão.
Explico: vai-se um anel, ficam os dedos.
Por um lado, podemos lembrar que com o mundo árabe em crise e com os dragões asiáticos adormecidos, não é hora de menosprezar o bom e velho dinheiro europeu guardado embaixo dos experientes colchões judeus. Mas esse argumento me parece tão preconceituoso quanto os alegados impropérios.
Por outro, não seria mesquinho pensar que depois de quase 15 anos, a Dior não se importaria de trocar de estilista. Afinal, há muitas temporadas nenhuma moda é lançada pela casa, nenhuma bolsa icônica (a última foi a Lady Dior, em 1995, criada por Sidney Toledano quando assumiu o cargo de diretor do departamento de couro), nenhum esmalte ou batom must-have embora haja quem não viva sem as bases DiorSkin), nenhum formato de ombro ou quadril. Nem nos tapetes vermelhos da vida a Dior anda bombando. Contudo, quando o assunto é alta-costura, o nome de Galliano ainda é ansiosamente aguardado. Na indústria da moda, a alta-costura ainda funciona como marketing de fixação da marca e é decisivo para projetar o conceito de luxo que venderá, mais que tudo, os perfumes da marca. Reparem que é justamente nos comerciais de perfume que as garotas-propaganda desfilam os vestidos couture das grifes. Então, nesse quesito, Galliano ainda rende, pois as vendas do J’adore e o Miss Dior Chérie seguem muito bem, obrigado.
O argumento que me convence é que a Dior sabe que é – e precisa ser - maior que Galliano. Graças ao figurino da estonteante Carla Bruni, a primeira-dama francesa, e sua fidelidade oficial à maison, a Dior voltou a ser sinônimo de moda francesa, garantiu sua cota de contemporaneidade e, principalmente, resgatou a áurea de respeitabilidade que não era garantida pela performática imagem do estilista. A Dior quer ser moderna, não cômica, quer ser mundial sem deixar de ser francesa, porque é exatamente esse “selo” francês que lhe garante sua fatia de mercado.
Reforça o meu argumento o próprio retrospecto da Dior. Inaugurada por Christian Dior em 1946 (como investimento do milionário da indústria textil Marcel Boussac), a casa fez historia em 1947 com o “New Look” que com seu imortal tailleur Bar, ora ora, usava tecido suficiente para enriquecer a indústria têxtil pós-guerra! Com a morte prematura do criador em 1957, o casa ficou a cargo do jovem Yves Saint Laurent, que partiu para a carreira solo em 1962. Lhe sucederam Marc Bohan e Gianfranco Ferrè. Sim, ninguém lembra, e isso já era um problema.
Então, em 1985, um ambicioso e empreendedor empresário francês - Bernard Arnault - adquiriu a Christian Dior, acreditando que tanta tradição ainda poderia render algum lucro. Nascia aí o embrião do poderoso grupo LHMV, que ao longo dos anos transformou as moribundas como Louis Vuitton, Moët & Chandon e Hennessy, Christian Dior, Kenzo, Parfums Kenzo, Christian Lacroix, Chaumet, Loewe, Le Bon Marché, Givenchy, Donna Karan, Tag Heuer em zumbis devoradores de novos-ricos.
Em 1995 o promissor Galliano foi contratado para a Givenchy, dois anos depois, assumiu a Dior. Associada a imagem de Lady Diana, a marca renasceu com força total. Daí para o vestido estampado de jornal com a bolsa sela de Carrie Bradshaw, foi só alegria.
Só que a mesma fórmula foi aplicada para a Louis Vuitton com Marc Jacobs. Para a Gucci com Tom Ford. E não muito diferente fez a Chanel, que rejuvenesceu os cabelos brancos do pouco simpático Lagerfeld com imagens como Lily Allen e Blake Lively. Até a Hermès se abriu para o ex-jovem Gaultier.
Ou seja, como a Dior foi a primeira a rejuvenescer, inevitavelmente será a primeira a envelhecer de novo. Ao menos que consiga se sustentar como um clássico, algo eterno e indispensável, algo que, em tempos globalizados, represente o que de mais tradicional a Europa de hoje possa imprimir. Algo que seja internacionalmente assimilado como europeu – por que não, senão francês!
E sim, ainda assim, jovem.
Na falta de Lady Di emancipada, passeando por Paris, Dior se agarrou na elegância gratuita de Carla Bruni.
Pelo visto, entre a imagem do britânico Galliano e a da italiana Bruni, a Dior optou por se manter francesa.
Pas mal, Monsieur Arnault!
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