quinta-feira, abril 21, 2011

Bullying - I was born this way


Nem Páscoa, nem elevação da taxa de juros. O assunto do momento é o bullying. O psicopata carioca emprestou a ilustração para um tema que já estava recorrente na mídia.

Confesso que no meu tribunal moral, não condeno automaticamente os serial killers do bullying. Tenho por eles uma tendência à empatia, ou pelo menos à compreensão(?). Em absoluto coaduno com a crueldade da morte de crianças e adolescentes tecnicamente inocentes, mas tão pouco acho impossível que as memórias traumáticas da vivência escolar possam culminar numa vingança sangrenta. Penso aqui nos assassinos jovens e seletivos que sabem exatamente de quem se vingar, ainda que sua torpeza os faça transferir seu ódio do estereótipo para o estereotipado. O assassino que polpa o gordinho é um requinte que não pode ser ignorado!

O bullying é produto de qualquer sociedade competitiva e padronizada. Bullying é a perpetuação da mediocridade nivelada, é a repulsa ao diferente, ao alheio, ao identificável. Quem faz bullying não suporta que alguém saia da invisibilidade, quem sofre, não suporta não se adaptar à transparência.

Defende-se que quem faz bullying busca a popularidade - quer atenção. Quem sofre quer justamente ser esquecido. Mas, e se aquele que sofre acabar justamente se acostumando a ser o centro das atenções? E se aquele que faz queira tão somente ser parte da maioria? Porque bullying é sempre um processo da maioria contra a minoria, do senso contra o dissenso.

Reportagens que tratam o assassino como um tipo exótico de doente e reforçam entre os sobreviventes esse espírito aglutinador de sociedade padrão violentada pela idiossincrasia do excluído só reforçam o ciclo. Adolescentes com um microfone e câmaras do horário nobre, narrando sua epopéia, me desculpem, não trarão nenhum acréscimo ao assunto. Onde estão as entrevistas com as famílias que criam filhos cruéis a ponto de transformar um coleginha num assassino?

Sim, tenho uma visão magoada da questão. Sofri bullying quando a palavra ainda nem existia. Não, não fui vítima de uma ou outra brincadeira de alguns colegas. Fui sistematicamente rejeitado e humilhado durante 11 anos de colégio. Não só a dor física de brigas que nunca quis ter, mas muito mais a mutilação psicológica de ser diminuído, resumido a um rótulo que ainda criança não sabia como ou porque carregar. Pessoas que sequer sabiam o meu nome se alçavam à pretensão de saber - e julgar - o que eu era.

Possíveis amigos não se aproximaram. Amigos presumidos se afastaram.

E ainda era preciso lidar com a situação em casa, porque ao mesmo tempo em que se quer pedir ajuda, nenhum filho quer confessar aos pais que é um fracasso no convívio social.

Na verdade, eu me sentia sozinho numa batalha contra o resto do mundo. E quando a gente é criança, não parece impossível pensar que a solução é mudar o mundo; até que a crise da adolescência nos faz questionar se não seria mais fácil mudar a si mesmo. Só que nesse processo, tantas vezes, há uma transferência para uma pulsão de morte: para se adaptar a gente precisa matar algo em nós (supostamente o que não agrada aos outros e nos faz inferiores - ou superiores) ou, quem sabe, matar algo nos outros (o que os faz diferentes de nós, portanto superiores – ou inferiores). Atalhando a história, uma mente doente ou adoecida, pode concluir por um suicido ou por um massacre.

Auto-estima e um lar equilibrado me permitiram atravessar aqueles anos com a convicção de que bullying é um problema de quem faz mais do que de quem sofre. Vivi da convicção de que tudo era uma questão de tempo. Tempo para que eu entendesse quem eu era, para que o mundo entendesse quem eu era, para que enfim, nos entendêssemos.

Só que, enquanto isso, foi preciso seguir vivendo e convivendo.

A lição mais importante que tirei do preconceito e da discriminação diários foi saber, desde muito cedo, de que tudo para mim seria mais difícil, exigiria mais trabalho, mais empenho, mais esforço. Essa foi minha força (ainda que hoje frequentemente precise fazer a mesma força para conseguir relaxar um pouco).

E nas preocupações que tenho com os filhos que não tive, me pego pensando que essa geração moderna sofrerá tanto quanto a minha, só que por razões diferentes. Sou da época de uma Madonna que me dizia Express yourself / don’t go for second best baby! A nova geração acredita em Lady Gaga e acha que I’m on the right track baby / I was born this way. Realmente, não há nada errado em ser quem somos, só que na maioria das vezes isso não será o suficiente.

A atual discussão do bullying, na minha parcial opinião, peca por dois aspectos: torna ainda mais frágil quem sofre e continua ignorando o problema de quem faz. Em outras palavras, sofrer bullying não faz ninguém ser especial, fazer bullying indica um desvio psicológico grave. O debate, tal qual está sendo posto, me parece que só reafirma o caminho da vingança e inverte os papéis no jogo infantil da busca de atenção.

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