
Ver o filho de Lady Di casando foi uma coisa meio família. Afinal, a gente viu aquele menino crescer!
Aos seis anos de idade, passei a noite em vigília com medo de perder o casamento real de 1981. Agora, graças à tevê digital, pude acordar mais tarde e ver tudo gravado. Mas, eis que essa dupla comodidade do tempo – seja minha antiguidade, seja a modernidade da mídia – acabou afetando minha emoção.
Sem falar que as fotos das convidadas me fazem tremer de ódio verde e amarelo. Mas o que é a beleza de um casamento sem o delírio tropical do longo, da transparência, do justíssimo, do corpete com sovaco gordinho, quando não tudo, senão sempre, tudo junto. Muito menos consigo entender a resistência nativa ao uso do adereço de cabeça, um belo chapéu, um fascinator. Penas parecem coisa de carnaval, dizem. Sei, sei, cascatas de strass, debruns de paetês e poliéster transperente é que são roupas formais e legantes...
A única mulher que eu conheço que usa fascinator é minha mãe...
De qualquer maneira, ainda que em memória da vocação inicial deste bloguinho, não posso deixar de comentar o vestido da noiva.
Não, não tive nenhuma surpresa. Aliás, não entendo o que as pessoas poderiam estar esperando de diferente... O casamento real não é um evento de moda, é um manifesto político da monarquia reinante. E nisso, foi um sucesso.
Se em quase todos os sentidos a monarquia britânica e, em particular a imagem da Rainha Elisabeth II, foi abalada pelo fracasso no gerenciamento da morte de Diana, o casamento de Willian e Kate foi uma aula de marketing. Marketing real, bem entendido.
Sendo o dono do texto, me permito argumentar sobre alguns dos pontos que tanto repercutiram na modalândia:
1) O estilista.
A escolha de Sarah Burton, ou no seu significado mais preciso de Alexander McQueen, era óbvia. Trata-se do nome mais relevante da história moderna da moda inglesa. Somando a isso a dignidade póstuma, não poderia haver escolha mais adequada para saciar a vontade pública de que algo “moderno” fosse incorporado ao tradicional da realeza.
2) O vestido.
De novo, sem espaço para surpresas. Mas o que os fashionistas esperavam? Um vestido de casamento – qualquer casamento – precisa levar em consideração as fotos que serão vistas anos depois. Um vestido de casamento de uma futura rainha, precisa ser atemporal o suficiente para ser revisto ao longo dos séculos e sempre significar nobreza, distinção e certo recato.
Além disso, havia muitas limitações de ordem prática: uma futura rainha não poderia correr o risco de um tomara-que-caia ou outro decote pouco confiável. Mesmo ombros à mostra não teriam lugar em um templo tão tradicional. Curvas marcadas por um vestido justo seriam de uma vulgaridade incompatível com sua Alteza. Bunda real não é patrimônio público! Não à toa, coloca-se a plebéia irmã da noiva nesse constrangimento (a proteção servil da bunda real e sua cauda, enquanto o próprio e mirrado traseiro está lá, à mercê da patuleia ensandecida), como um manifesto de cada uma deve ficar no seu lugar e de que agora há uma distância imensurável entre as irmãs Middleton.
A cintura marcada também não estava no campo do disponível. Princesa que não seja virgem, enfim, aceitasse como sinal dos tempos (e quiçá um bom agouro, pois as últimas princesas virgens acabaram todas divorciadas), mas grávida, como especulou a imprensa americana, isso não dá! A cinturinha real afasta qualquer dúvida.
Ainda mais em conjunto com saia volumosa e a farda militar, enfatizando o imaginário da força masculina nos ombros largos e na feminilidade dos quadris maternais.
Igualmente inegociável o branco. Foi a rainha Vitória quem lançou a moda. Não seria uma futura rainha inglesa a inovar. Mesmo as variações de tom de Diana ou Fergie não se mostraram um bom agouro. Melhor deixar o destaque da cor para a farda vermelha do noivo (lembremos-nos, a verdadeira estrela da festa).
E não só o horário faria os brilhos uma opção de mau gosto, a situação econômica do país não os permite.
O vestido com bordados delicados, cauda relativamente pequena e véu cuto, como a cerimônia como um todo, foi uma demonstração pública da sobriedade da monarca em tempos de crise.
3) O cabelo e a maquiagem.
Supostamente, as únicas escolhas de Kate recaíram sobre o penteado e a maquiagem. Comentou-se, inclusive, que ela mesma teria feito o make. Os cabelos semi-presos prometem ser repetidos pelos quatro cantos do planeta (muito embora ele seja redondo...).
Mas na verdade - ou na minha opinião – as escolhas foram mais uma vez ditadas pelo marketing real. Uma das metas a curto prazo é marcar a imagem de Kate como integrante da realeza. As fotos do casamento de toda e qualquer aparição da moça vão se multiplicar ainda por um bom tempo, logo optou-se por manter uma imagem próxima da já conhecida e que poderá ser repetida nessa fase de fixação da imagem. Um visual chocantemente diferente no dia casamento iria confundir a cabeça do público e gerar mais assunto do que o necessário.
E o cabelo não tinha nada de livre, leve e solto. Estava rigorosamente penteado e sem nenhum fio fora do lugar, ou cobrindo o vestido, ou maculando o rosto.
A tiara de diamantes Cartier foi outra cartada de mestre. Um sutil cala-boca as alardeadas pretensões da noiva de impor sua vontade e usar flores, um discreto toque de luxo, para lembrar que mesmo com crise, nobreza é nobreza e, para completar, uma homenagem carinhosa à Rainha-mãe, primeira dona da jóia.
A maquiagem dos olhos estava, sim, pesada demais para a manhã, mas quem já andou num metrô londrino sabe que por aquelas bandas as mulheres não regulam mixaria na hora da pintar os olhos. Carregados ou não, os olhos delineados da agora duquesa foram eficazes em desviar a atenção do excesso de base do noivo.
Moral da história: quem ri por último, ri melhor. E quem riu foi a Rainha em seu amarelo sol (astro rei!) com sapatos, luvas e a bolsinha anti-protocolar em nude.
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