sábado, maio 21, 2011

Almoço com uma amiga que conheço há mais de 15 anos.

Por força dos deslocamentos da carreira e da tão corriqueira correria da vida, nossa convivência tem sido intermitente. E, curiosamente, de um promissor grupo de jovens adolescentes tardios, digno de qualquer seriado dos anos 90, somos os únicos que mantemos contato regular.

Mas o que realmente me apraz é que nossa conversa não se perde no “lembra quando a gente”. Pelo contrário, falamos sobre trabalho (muito pouco!), sobre casamento (os nossos) sobre filhos (os que não temos).

Atravessamos fases, décadas, empregos, casamentos. Estivemos presentes nas perdas um do outro. Comemoramos juntos várias vitórias. E, então, que é quando relembro o tanto de coisas que já passamos juntos, ou ao menos que nos assistimos passando, me dou conta que o segredo de nossa amizade – se não de qualquer amizade duradoura – é que não nos julgamos.

Sim, nos conhecemos. Muito bem, inclusive. Somos capazes de traçar um retrato muito fiel da personalidade um do outro. Esse tempo todo nos denuncia os vícios e virtudes de comportamento. Somos quem conseguimos ser, e ambos e reciprocamente o sabemos como. E talvez também por isso tenhamos conquistado o respeito um do outro.

Mais do que a cumplicidade da juventude ou a carência solitária da meia idade, construímos uma relação baseada justamente no respeito mútuo, por isso não cabe entre nós nos julgarmos.

Não, não é que concordemos com tudo um no outro. Sempre fomos teoricamente muito diferentes (mas não diferentes o suficiente para não sermos amigos!). Tão pouco definiria que houve entre nós apenas uma tolerância ou fetiche pela excentricidade alheia.

Somos – ambos - donos absolutos e teimosos da própria verdade, mas nunca tentamos convencer ou converter um ao outro.

Nada disso.

Apenas, ao longo dos anos, aprendemos a nos conhecer e respeitar. Simples assim.

E não é assim que as amizades devem ser?

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sexta-feira, maio 06, 2011

Há 20 anos fiz uma das escolhas mais importantes da minha vida: escolhi minha profissão. Ou talvez seja mais preciso dizer que escolhi meu ramo profissional. Como for, me inscrevi no vestibular para Ciências Jurídicas e Sociais, que comumente chamamos de Direito.

Evidentemente minha escolha teve vários critérios objetivos, das minhas chances de aprovação no vestibular até a possível – e futura - remuneração. Mas a sabedoria dos 16 anos é não se fazer nada por pura razoabilidade. Naquela idade, em que ainda não se sabe o que é demagogia, a gente tem sonhos, tem ideais, tem um poder quase dever de romantizar tudo. E eu também tinha os meus...

O que me fascinou no Direito foi aquilo que eu acreditava ser a sua grandeza: a absoluta interação de vários ramos do intelecto humano. Para ser um bom jurista, imaginava eu, teria de saber um pouco de tudo. Para cada processo em que tivesse que atuar, teria de estudar um assunto totalmente novo e que em nada se restringiria aos códigos legais. Imaginei-me conhecendo os meandros da psicologia dos criminosos, analisando diagnósticos em processos de erro médico, pesquisando espécies para processos de direito ambiental, praticamente um economista para processos tributários...

Bem, de certa forma, ou da forma errada, muito disso se confirmou. Minha profissão tem me permitido passear por várias áreas do conhecimento e aprender sobre assuntos muitas vezes curiosos.

A maturidade, idiossincraticamente, me trouxe outros tantos questionamentos. Há também uma maturidade profissional que trouxe uma visão diferente sobre meu trabalho. Hoje, por exemplo, me assombra a dúvida sobre que diferença meu trabalho faz para que o mundo seja melhor.

Então, desde ontem, em clima de final de copa do mundo, acompanhamos a histórica decisão do Supremo Tribunal Federal acerca da união estável dos casais do mesmo sexo ou, como a imprensa está sensacionalisticamente chamando, união gay.

Fiquei, sim, muito emocionado.

Primeiramente, porque o voto do Ministro Ayres Britto, citando de Platão a Chico Xavier, me fez lembrar exatamente porque eu achava o Direito tão abrangentemente envolvente e tão maior do que a burocracia dos compêndios de normas. Depois, porque me devolve a esperança de que meu trabalho possa fazer diferença (ainda que afastando as diferenças!).

Mas emocionado, principalmente, porque ao pensar em mim mesmo há 20 anos, não ousaria pensar que viveria para ver essa discussão chegar aonde chegou. Na verdade, não ousava sequer pensar que eu chegaria aonde cheguei nesse assunto.

Porém não fiquei surpreso. Não juridicamente. Uma das premissas do Direito como engenharia social é oferecer proteção e regulação às situações que já estão consagradas na sociedade de fato. Não se poderia mais, por muito tempo, ignorar uma situação que faticamente seguiria ocorrendo com ou sem reconhecimento. Com ou sem a decisão do Supremo, casais de todos os sexos continuarão se apaixonando, se juntando, se separando pelo desgaste da relação ou pela fatalidade da morte. Ou o Estado faz o seu papel de agente regulador ou abre espaço para o caos social. Logo, alguma manifestação oficial era uma questão de tempo, como o enfrentamento da questão pelo Congresso Nacional também o é. Melhor agora, concordo.

Bem, de qualquer forma, mesmo orgulhoso e consciente da relevância desse momento para a história da causa da homossexualidade, da minha parte, agradeço a atenção dispensada, mas não precisava que ninguém me autorizasse a chamar de família a família que criei para mim.

Mesmo assim, é como ser amante, e nunca como uma pessoa mais ou menos, e então membro orgulhoso de um núcleo doméstico socialmente ostensivo de um novo a dois que se quer universal, que copio dois trechos do voto do Ministro Ayres Britto:

Sucede que não foi somente a comunidade dos juristas, defensora dos direitos subjetivos de natureza homoafetiva, que popularizou o novo substantivo, porque sua utilização corriqueira já deita raízes nos dicionários da língua portuguesa, a exemplo do “Dicionário Aurélio”. Verbete de que me valho no presente voto para dar conta, ora do enlace por amor, por afeto, por intenso carinho entre pessoas do mesmo sexo, ora da união erótica ou por atração física entre esses mesmos pares de seres humanos. União, aclare-se, com perdurabilidade o bastante para a constituição de um novo núcleo doméstico, tão socialmente ostensivo na sua existência quanto vocacionado para a expansão de suas fronteiras temporais. Logo, vínculo de caráter privado, mas sem o viés do propósito empresarial, econômico, ou, por qualquer forma, patrimonial, pois não se trata de uma mera sociedade de fato ou interesseira parceria mercantil. Trata-se, isto sim, de um voluntário navegar por um rio sem margens fixas e sem outra embocadura que não seja a experimentação de um novo a dois que se alonga tanto que se faz universal. E não compreender isso talvez comprometa por modo irremediável a própria capacidade de interpretar os institutos jurídicos há pouco invocados, pois − é Platão quem o diz -, “quem não começa pelo amor nunca saberá o que é filosofia”. É a categoria do afeto como pré-condição do pensamento, o que levou Max Scheler a também ajuizar que “O ser humano, antes de um ser pensante ou volitivo, é um ser amante”

Assim interpretando por forma não reducionista o conceito de família, penso que este STF fará o que lhe compete: manter a Constituição na posse do seu fundamental atributo da coerência, pois o conceito contrário implicaria forçar o nosso Magno Texto a incorrer, ele mesmo, em discurso indisfarçavelmente preconceituoso ou homofóbico. Quando o certo − data vênia de opinião divergente - é extrair do sistema de comandos da Constituição os encadeados juízos que precedentemente verbalizamos, agora arrematados com a proposição de que a isonomia entre casais heteroafetivos e pares homoafetivos somente ganha plenitude de sentido se desembocar no igual direito subjetivo à formação de uma autonomizada família. Entendida esta, no âmbito das duas ttipologias de sujeitos jurídicos, como um núcleo doméstico independente de qualquer outro e constituído, em regra, com as mesmas notas factuais da visibilidade, continuidade e durabilidade. Pena de se consagrar uma liberdade homoafetiva pela metade ou condenada a encontros tão ocasionais quanto clandestinos ou subterrâneos. Uma canhestra liberdade “mais ou menos”, para lembrar um poema alegadamente psicografado pelo tão prestigiado médium brasileiro Chico Xavier, hoje falecido, que, iniciando pelos versos de que “A gente pode morar numa casa mais ou menos,/Numa rua mais ou menos,/ Numa cidade mais ou menos”/ E até ter um governo mais ou menos”, assim conclui a sua lúcida mensagem: “O que a gente não pode mesmo,/ nunca, de jeito nenhum,/ É amar mais ou menos,/ É sonhar mais ou menos,/ É ser amigo mais ou menos,/ (...) Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos”.

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domingo, maio 01, 2011

O casamento real



Ver o filho de Lady Di casando foi uma coisa meio família. Afinal, a gente viu aquele menino crescer!

Aos seis anos de idade, passei a noite em vigília com medo de perder o casamento real de 1981. Agora, graças à tevê digital, pude acordar mais tarde e ver tudo gravado. Mas, eis que essa dupla comodidade do tempo – seja minha antiguidade, seja a modernidade da mídia – acabou afetando minha emoção.

Sem falar que as fotos das convidadas me fazem tremer de ódio verde e amarelo. Mas o que é a beleza de um casamento sem o delírio tropical do longo, da transparência, do justíssimo, do corpete com sovaco gordinho, quando não tudo, senão sempre, tudo junto. Muito menos consigo entender a resistência nativa ao uso do adereço de cabeça, um belo chapéu, um fascinator. Penas parecem coisa de carnaval, dizem. Sei, sei, cascatas de strass, debruns de paetês e poliéster transperente é que são roupas formais e legantes...

A única mulher que eu conheço que usa fascinator é minha mãe...

De qualquer maneira, ainda que em memória da vocação inicial deste bloguinho, não posso deixar de comentar o vestido da noiva.

Não, não tive nenhuma surpresa. Aliás, não entendo o que as pessoas poderiam estar esperando de diferente... O casamento real não é um evento de moda, é um manifesto político da monarquia reinante. E nisso, foi um sucesso.

Se em quase todos os sentidos a monarquia britânica e, em particular a imagem da Rainha Elisabeth II, foi abalada pelo fracasso no gerenciamento da morte de Diana, o casamento de Willian e Kate foi uma aula de marketing. Marketing real, bem entendido.

Sendo o dono do texto, me permito argumentar sobre alguns dos pontos que tanto repercutiram na modalândia:

1) O estilista.

A escolha de Sarah Burton, ou no seu significado mais preciso de Alexander McQueen, era óbvia. Trata-se do nome mais relevante da história moderna da moda inglesa. Somando a isso a dignidade póstuma, não poderia haver escolha mais adequada para saciar a vontade pública de que algo “moderno” fosse incorporado ao tradicional da realeza.

2) O vestido.

De novo, sem espaço para surpresas. Mas o que os fashionistas esperavam? Um vestido de casamento – qualquer casamento – precisa levar em consideração as fotos que serão vistas anos depois. Um vestido de casamento de uma futura rainha, precisa ser atemporal o suficiente para ser revisto ao longo dos séculos e sempre significar nobreza, distinção e certo recato.

Além disso, havia muitas limitações de ordem prática: uma futura rainha não poderia correr o risco de um tomara-que-caia ou outro decote pouco confiável. Mesmo ombros à mostra não teriam lugar em um templo tão tradicional. Curvas marcadas por um vestido justo seriam de uma vulgaridade incompatível com sua Alteza. Bunda real não é patrimônio público! Não à toa, coloca-se a plebéia irmã da noiva nesse constrangimento (a proteção servil da bunda real e sua cauda, enquanto o próprio e mirrado traseiro está lá, à mercê da patuleia ensandecida), como um manifesto de cada uma deve ficar no seu lugar e de que agora há uma distância imensurável entre as irmãs Middleton.

A cintura marcada também não estava no campo do disponível. Princesa que não seja virgem, enfim, aceitasse como sinal dos tempos (e quiçá um bom agouro, pois as últimas princesas virgens acabaram todas divorciadas), mas grávida, como especulou a imprensa americana, isso não dá! A cinturinha real afasta qualquer dúvida.

Ainda mais em conjunto com saia volumosa e a farda militar, enfatizando o imaginário da força masculina nos ombros largos e na feminilidade dos quadris maternais.

Igualmente inegociável o branco. Foi a rainha Vitória quem lançou a moda. Não seria uma futura rainha inglesa a inovar. Mesmo as variações de tom de Diana ou Fergie não se mostraram um bom agouro. Melhor deixar o destaque da cor para a farda vermelha do noivo (lembremos-nos, a verdadeira estrela da festa).

E não só o horário faria os brilhos uma opção de mau gosto, a situação econômica do país não os permite.

O vestido com bordados delicados, cauda relativamente pequena e véu cuto, como a cerimônia como um todo, foi uma demonstração pública da sobriedade da monarca em tempos de crise.

3) O cabelo e a maquiagem.

Supostamente, as únicas escolhas de Kate recaíram sobre o penteado e a maquiagem. Comentou-se, inclusive, que ela mesma teria feito o make. Os cabelos semi-presos prometem ser repetidos pelos quatro cantos do planeta (muito embora ele seja redondo...).

Mas na verdade - ou na minha opinião – as escolhas foram mais uma vez ditadas pelo marketing real. Uma das metas a curto prazo é marcar a imagem de Kate como integrante da realeza. As fotos do casamento de toda e qualquer aparição da moça vão se multiplicar ainda por um bom tempo, logo optou-se por manter uma imagem próxima da já conhecida e que poderá ser repetida nessa fase de fixação da imagem. Um visual chocantemente diferente no dia casamento iria confundir a cabeça do público e gerar mais assunto do que o necessário.

E o cabelo não tinha nada de livre, leve e solto. Estava rigorosamente penteado e sem nenhum fio fora do lugar, ou cobrindo o vestido, ou maculando o rosto.

A tiara de diamantes Cartier foi outra cartada de mestre. Um sutil cala-boca as alardeadas pretensões da noiva de impor sua vontade e usar flores, um discreto toque de luxo, para lembrar que mesmo com crise, nobreza é nobreza e, para completar, uma homenagem carinhosa à Rainha-mãe, primeira dona da jóia.

A maquiagem dos olhos estava, sim, pesada demais para a manhã, mas quem já andou num metrô londrino sabe que por aquelas bandas as mulheres não regulam mixaria na hora da pintar os olhos. Carregados ou não, os olhos delineados da agora duquesa foram eficazes em desviar a atenção do excesso de base do noivo.

Moral da história: quem ri por último, ri melhor. E quem riu foi a Rainha em seu amarelo sol (astro rei!) com sapatos, luvas e a bolsinha anti-protocolar em nude.

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