segunda-feira, agosto 22, 2011

E quem diria que minha vida poderia parecer uma novela das irmãs Brontë. Não exatamente na trama, mas definitivamente no cenário. Eis que, de junho a setembro, Porto Alegre deixa de ser um lugarejo provinciano no sul Brasil para virar um lugarejo provinciano no noroeste da Inglaterra.

Falo, na verdade, do nosso clima. Chove muito, às vezes por dias a fio. A umidade é absurda, água escorre pelas janelas, azulejos, eletrodomésticos. As toalhas de banho estão sempre úmidas, os tapetes idem. Roupas mofam nos armários. Então venta, vento que uiva pelas muitas ladeiras da cidade e vem o frio seco e cortante.

Pois, que se o calor de Porto de Alegre faz tudo derreter, no frio as coisas encolhem e não raro racham. Racharam-se meus lábios, minhas cutículas, a mangueira do aquecedor, um cano do chuveiro, uma solda da central eletrônica do carro.

A vida doméstica fica sofrida, meu senhor. A roupa não seca, o pão não cresce, a gordura não sai dos pratos.

E tem a tão pesquisada privação da luz solar. Está quase sempre nublado, e mesmo quando o dia parecer ser claro, anoitece por volta das 17h.

Só que Porto Alegre não é a Inglaterra. Aqui não tem calefação, a água quente não é de caldeira, as janelas não têm vidro duplo. O frio invade a casa, invade a cama, invade o pensamento.

Logo eu que odeio o calor, me vejo meio deprimentemente fantasiando com o verão.

Marcadores:

sábado, agosto 13, 2011

Istambul V - e era isso


Um balanço final de Istambul.
Um lugar que eu adorei ter conhecido, mas para o qual não necessariamente voltaria.
E se não tivesse conhecido? Bem, minha vida seguiria.

Istambul, por tantos dias, deixou de ser mágica e ficou meio sufocante.

A questão islâmica, ainda que seja light, pesa aos longos dos dias. A situação (ativa e passiva) das mulheres é meio deprimente. Elas são totalmente submissas e ao mesmo tempo tem um quê de arrogância, de petulância que só as pessoas convictas da própria verdade têm. Elas não parecem infelizes ou inconformadas, pelo contrário. Olham para os “outros” com certo julgamento, com mais superioridade que curiosidade. Os homens não são exatamente diferentes.



A pressão permanente para que se compre algo também cansa. Você olha por dois segundos para uma vitrine e o vendedor se materializa na sua frente convidando-o para conhecer a loja. Você agradece educadamente, ele insiste, faz cara de choro, implora. O mesmo com garçons, maitrês, vendedores de água, suco, frutas. E se você cede e compra algo, nunca vai saber se pagou o preço certo ou se foi enganado. Uma vez ou duas é pitoresco, todos os dias, mais de uma semana, aborrece.

A sensação de entrar numa mesquita é magnífica. Não fica difícil entender o fascínio da fé islâmica. A ausência de estátuas, flores, velas, e mesmo de bancos, traz uma paz meio misteriosa. A sensação é forte sem ser inquietante.


Istambul tem o palácio com os salões mais luxuosos que no quais já estive. O Dolmabahçe Sarayi e sua escada de cristal é inesquecível. O maior lustre de cristal do mundo (mais de 8 toneladas) está lá, sobre um tapete de 120m².




O Topkapi Sarayi ao seu modo, não é menos impressionante. O Parque Gülhane sozinho vale a visita. A área do antigo harém é o mais próximo de um lugar assombrado que já estive. As antigas cisternas da Basílica são um passeio rápido e válido. A Haghia Sophia não é tudo isso... A Mesquita Azul é linda, mas a Süleymaniye é avassaladora. E a chamada Mesquita Nova foi a que me emocionou mais.

A cerimônia dos Dervishes foi uma emboscada turística, mas continua sendo obrigatória (!).

Encerrando (por enquanto) o assunto férias, sábia decisão de compensar o exotismo da descoberta turca com a segurança de um lugar e amado e conhecido: Madri. Ah, o verão em Madri... depois de dez dias de islã, chegar em Madri só fez pensar na máxima do TeDouUmDado: tudo puta e viado!!!!! Olha, espírito espanhol, pouca roupa e muita gente disposta a ser feliz. E do que mais são feitas as boas férias???

Marcadores: ,

segunda-feira, agosto 08, 2011

Istambul IV - O que comprar



A dificuldade em acabar estes textos sobre as férias é ter que admitir que elas já acabaram. Parece que se eu acabar de escrever estarei oficialmente transformando aquela viagem em memórias, estarei entregando-a ao passado (ainda que, felizmente, ao meu próprio passado).

Bom, ainda sobre comida, faltou dizer que fiquei muito impressionado com a limpeza de tudo o que envolve alimentação em Istambul. Das toalhas de restaurantes às grelhas de kebab tudo é hospitalarmente limpo.

Como adiantei, outra grande surpresa turca foram as compras.

Sabíamos que veríamos tapetes e luminárias coloridas. Sabíamos que haveria porcelana pintada à mão. Havia certeza sobre as jóias otomanas. E tudo isso estava lá.

Barganhar é mesmo necessário. Mesmo nas raras vezes em que há alguma etiqueta de preço nas coisas, trata-se apenas de uma referência vaga, vaga, sobre quanto se poderá pagar. Uma mesma tigela de porcelana orbitará entre 25 e 65 liras numa mesma tarde. Toalhas de algodão irão de 10 a 30 TL. Um brinco em prata começará em 200 e poderá ir para sua casa por pouco mais de 100. Compras em quantidade permitem descontos maiores. E em qualquer caso você sairá com a impressão de que não entendeu nada. Mas não se barganha em restaurantes, bares, farmácias supermercados e em lojas de cadeias mundiais.

Fizemos um pacto prévio interno de que não nos aproximaríamos dos tapetes. Resistimos às luminárias (que eram muito pesadas). Sucumbimos a todo o resto.

O famoso couro turco é questionável. O problema é que a Turquia é um paraíso da falsificação. De bolsas a cuecas, tudo tem uma logomarca pirateada. Daí que a gente perde a confiança no sistema... As jaquetas de couro eram mais para moto-boy do que para fashion icon. Mas há sapatos clássicos de boa qualidade e preço interessante. Um sapato masculino 100% couro custa menos de 200TL.

Há jóias para todos os gostos e bolsos. Muito ouro vermelho, mais ainda aquele amarelo fosco 23k que o mundo árabe adora. Mas não faltam opções mais ao gosto do tapetes vermelhos ocidentais. Evidentemente custam uma fortuna. Sim, se barganha. Muito. Os preços podem começar em mais de três vezes o valor final. Mas, de novo, a gente começa a ficar inseguro e sem confiança sobre o que está fazendo ou comprando. Para evitar potenciais prejuízos, restringimos nossas aquisições às peças de prata e pedras semi-preciosas.

A palavra turca que nos perseguiu foi indirim. Liquidação. Tudo estava em liquidação. Curiosamente acabamos comprando roupas emergenciais na GAP e na Benetton, que são lojas em que raramente entramos. Mas como Istambul é muito poeirenta, tivemos que comprar calças limpas(!).

E compramos cristais. Copos, garrafas, castiçais, por preços absurdamente bons. As pratarias também são acessíveis. O cobre é baratíssimo.

Por falar em preço bom, vale comprar eletrônicos na Turquia, os preços são pelo menos 40% melhores do que os nossos (será a carga tributária???).

O Grand Bazaar não impressiona quem conhece qualquer rua de comércio popular no Brasil. Os vendedores são meio antipáticos (se comparados ao estilo quase emocionalmente carente dos demais). As coisas são caras e padronizadas. Nos arredores, muita roupa de grife pirata.

O Bazar Egípcio é menor e tem um astral mais legítimo. As especiarias decepcionam um pouco (muita canela e curry, nada exótico ou desconhecido...), mas há castanhas incríveis e uma boa oferta de chás, além de tudo que se encontra no GB, em menor quantidade.


Marcadores: ,